Planeta Terror: cinepipoca do bom

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Por Bernardo Brum *

Engrosso o coro: eu também concordo que Grindhouse deveria ser uma sessão dupla. Mas, por mais amigos que Robert Rodriguez e Quentin Tarantino possam ser, injustiça ainda maior seria fazer uma resenha sessão dupla para dois ícones gigantescos do cinema contemporâneo. Uma análise individual é algo bem mais digno, não?

Os bastidores da história, apesar de recentes, já são velhos conhecidos para os fãs de cinema: após concluir Sin City – A cidade do pecado e levar uma cópia ainda preliminar para o cinema caseiro do seu chapa Tarantino, Rodriguez viu em uma parede do tal cinema um antigo cartaz de uma sessão dupla com os filmes Dragstrip Girl e Rock All Night idêntico a um que tinha no chão do seu escritório. Daí nasceu a idéia entre os dois de reviver o antigo espírito das sessões duplas dos anos setenta, onde violência, pornografia e exibicionismo sensacionalista comiam soltos nas grindhouses, nome que os cinemas com esse tipo de programação levavam.

Pois bem; ficou combinado que cada um escreveria e dirigiria um filme de terror de uma hora e meia cada, totalizando três horas de duração. O tempo de exibição e a violência em excesso não foram bem compreendidos pelo grande público. Mas isso não foi justificativa o suficiente para impedir o culto às obras dos dois gigantes. Portanto, cá está: Planeta Terror, de Robert Rodriguez.

O filme tem uma premissa simples: a dançarina de go-go Cherry Darling (interpretada pela ex-Charmed Rose McGowan) e o ex-namorado bom de briga Wray (vivido por Freddy Rodriguez, de Scrubs) encontram-se após anos de terem terminado seus namoro, e resolvem fazer isso justo quando um grupo de supersoldados liderados por Bruce Willis e infectados por um vírus que aumenta a força física, mas provoca um contínuo desgaste de tecidos tomam a cruel decisão de contagiar uma cidade inteira, transformando a maioria dos habitantes em horrendos zumbis.

Zumbis estes que não brincam em serviço; logo de início vimos a gostosona cantora Fergie – que no filme interpreta uma lésbica – ser devorada pelos ditos-cujos poucos momentos após ter problemas com o carro no meio da estrada. A alguns metros dali, o casal protagonista sofre uma capotagem e Cherry também é atacada, tendo sua perna devorada, mas é salva a tempo pelo ex-namorado. No hospital, o casal de doutores Bill e Dakota Block vive um verdadeiro inferno particular quando têm de cuidar de vários corpos mutilados e discutir a infidelidade da doutora ao mesmo tempo.
A partir daí, o pau come solto. A fotografia parece ter saído de um rolo mal conservado reproduzido em um projetor bem vagabundo – Rodriguez faz o máximo possível para imitar uma sala de exibição marginal, enchendo a imagem de riscos e chuviscos, deixando-a bem desbotada e desfocada. O filme não se importa nem um pouco em parecer muito profundo, original ou metafórico – por uma hora e meia, o espectador vai se deliciar com o que de mais tosco e clichê o cinema já produziu. Ou seja: seria uma bela porcaria caso o diretor não fosse tão brilhante e os atores tão excelentes.

Uma ode ao machismo: todo o filme é tomado por garotas curvilíneas, carrões com manadas de potência, motocas envenenadas, carne vermelha sangrando, explosões ensurdecedoras, lesbianismo implícito, armas de fogo de grosso calibre, humor negro doentio… Mas é justamente isso a que o filme se propõe. Não tenta nunca se vender como se fosse além de um despretensioso, divertido e violento cinepipoca. Quem quer que diga que Planeta Terror é alguma outra coisa, está redondamente enganado. Ou tentando tapear alguém.

Não tenho idéia do quanto está afetando os mais sensíveis, mas o filme tem uma cacetada de cenas já antológicas: Wray entrando no hospital e matando os zumbis em um estilo Jackie-Chan-malvadão para resgatar seu grande amor; o durão e ensandecido cozinheiro JT oferecendo carne para os zumbis; a marcha do grupo sobrevivente liderados por Wray em uma mini-motocicleta; Tarantino interpretando um soldado estuprador; o hilário momento em que falta um pedaço de rolo na fita deixando vários fatos sem explicação nenhuma… E, claro, a cereja do bolo e realização dos sonhos masculinos: Cherry Darling de top, minissaia… E uma metralhadora embutida no lugar da perna amputada!

A trilha sonora é outro destaque, sendo seu tema principal (composto por Rodriguez),mais viciante até que o assobiado por Elle Driver em Kill Bill. As habituais participações especiais trazem Naveen Andrews, que no seriado Lost interpreta o personagem Sayid, encarnando um cientista mercenário e sem escrúpulos, e o lendário maquiador de filmes de zumbi Tom Savini, interpretando o policial Tolo, papel secundário que, ainda que carismático, não vence de modo algum o absurdo Sex Machine de Um drink no inferno, película também rodada por Rodriguez.

Fica difícil colocar defeito em um filme que quer ser propositalmente ruim. E, nesse gênero, quanto mais tosco melhor: os momentos comoventes manjados, os sustos previsíveis, os furos de roteiro tratados com vista-grossa e as interpretações canastronas são puramente intencionais.

Por isso, é bom avisar: feministas, fiquem longe. Vegetarianos, mantenham distância. Apreciadores de cinema-arte, nem pensem em assistir. Planeta Terror não é o filme pra vocês. É, pura e simplesmente, cinema pra quem quer ver sangue aos borbotões e um monte de mulheres de tirar o fôlego, traçando um belo bife com batata frita enquanto se é assistido. Uma genial Sessão da tarde para machões de plantão e para indivíduos menos sensíveis do sexo feminino.

* Bernardo Brum é estudante de cinema e inveterado cinéfilo.

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