Casquinha | Ouvindo Vozes

O leitor se surprenderá com as histórias reveladoras contadas por Edmar Oliveira, psiquiatra, diretor, há uma década, do Instituto Municipal Nise da Silveira (o famoso Hospício do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro ). Os personagens são médicos, pacientes, enfermeiros, políticos e pessoas comuns que passaram e/ou ainda passam para trás dos muros que separam a anormalidade do pacato bairro do subúrbio carioca.

Desse dia, que me marcou muito, o principal estava por vir: a festa que os pacientes do hospital – no qual eu estava lotado até ser convidado para a direção – fizeram foi inesquecível. O responsável pela cantina, em cujo serviço trabalhavam pacientes, havia proposto preparar o bufê da cerimônia de posse. Mas as autoridades da prefeitura não concordaram, argumentando que o prefeito e os secretários estariam presentes, o que no fundo, encobria o preconceito com o trabalho dos ‘maluquinhos’. Fiquei do lado dos pacientes, confiando na colega que coordenava a oficina. A discussão foi feita na véspera da festa. Combinamos assim, na minha teoria adaptada do ‘jogo de cintura’: paras autoridades, a prefeitura prepararia o bufê; para os outros convidados, o ‘rega-bofe’ seria de responsabilidade dos pacientes. Foi impossível conter o riso e o prazer ao ver o pessoal da prefeitura apavorado com o atraso do bufê das autoridades, enquanto os pacientes serviam os outros convidados no tempo certo e com uma qualidade de encher os olhos famintos de meio-dia. As autoridades, não agüentando esperar o bufê oficial, beliscavam o ‘rega-bofe’ da periferia.

Do lado de fora, a festa rolou durante todo o dia. Barraquinhas, conjuntos musicais, um encantamento nos pacientes que circulavam livres das amarras e das grades que os prendiam. Nunca vou esquecer a esperança nos olhares. […]

O dia terminaria entre chopes, comemorações e êxtases.

Na ressaca do dia seguinte, voltou a angústia de antes. Fiquei com meu manual de gestão incompleto. Embora não tivesse sido responsável pela internação de ninguém, a casa estava cheia de desclassificados da sociedade, mas classificados nos diagnósticos científicos. E ainda tinha muitas dúvidas no manual, que não se completariam naquele momento, só muito depois. […]

Menos de um ano depois daquele início de trabalho, senti que ele ressoava lá fora e ainda não era percebido pela população. Um vizinho do hospício, de uma sensibilidade apurada nas agruras da vida e – ao que tudo indica – pela psiquiatria ameaçadora, enviou-me um bilhete de advertência. Como se estivesse com medo de que me desviasse do propósito iniciado. Anotei cada palavra no meu manual. Aliás, transformei a advertência singela no primeiro mandamento e, em destaque, colei na parede do meu gabinete, para que todos pudessem ver e eu decorar, pela insistência da leitura de todos os dias. Assim dizia Luiz Nunes Brasil, que assinava a advertência

Sr. Diretor, lembra-te de combater os crimes e evitar as doenças transmitidas por psiquiatria, com psiquiatria, em psiquiatria. Obrigado.”

Assista a Edmar Oliveira falando sobre seu livro


* * *

Ouvindo vozes capa

Ouvindo vozes

Edmar oliveira

Rio de Janeiro: Vieira & Lent

278 p.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: