Casquinha | Um início na vida

Como romancista, um reconhecido e talentoso romancista; como filósofo, nada menos que um dos grandes do século XX. Com um rigor que avançou em diferentes âmbitos da produção literária, Jean-Paul Sartre manteve sóbria sua tinta sobre o papel, descortinando de cada estilo o seu, sem os embaralhar.

O então jovem Jacques-Alain Miller, aos 16 anos solicita, entrevista e publica suas perguntas dirigidas à Sartre. No prefácio de seu livro Um início na vida – em que, anos mais tarde, reúne esse texto a outros de sua juventude e do começo de seu contato com Jacques Lacan -, Miller situa o tom de seu curioso encontro:

“Lembro-me da gentileza com que recebeu, na rua Bonaparte, o aluno de liceu respeitoso e insolente, que fez por onde lhe demonstrar, por um elenchus socrático, que ele, Sartre, não era uma pessoa séria. Ele consentiu nisso de bom grado: do sério, ele não fazia a menor questão.”

Fiquemos com um trecho desse encontro, trecho em que Sartre comenta algumas de suas coordenadas como escritor de literatura e o papel engajado que ela deve, a seu ver, desempanhar.

J.-A. M. — A literatura é, para o senhor, um meio de liberação das condições materiais, ou uma maneira de entrar no mundo?

J.-P. S. — Jamais compreendi a literatura senão como uma participação no mundo. Se ela dele se evade, não tem mais interesse. Frequentemente me reprovaram por me limitar a uma literatura engajada. Se ela não é tudo, não é nada. É preciso que possa, em todas as ocasiões e segundo suas próprias condições, que são distintas, testemunhar tudo. Então, nada de literatura desengajada, solta, mas profundamente no mundo.

J.-A. M. — Entretanto, o Some of these days, d’A náusea, parece bastante com a pequena frase de Vinteuil, em Proust.

J.-P. S. — Isso era bem no começo, antes da guerra. Evoluí muito desde então. Minhas experiências tornaram-se mais e mais sociais a partir da mobilização.

J.-A. M. — Poderia precisar a influência que teve Kafka sobre o senhor?

J.-P. S. — Ela foi considerável. Não posso dizer em que medida, sobretudo no começo. O que nos separa é o seu lado profundamente religioso e místico. Kafka integrou uma comunidade judia e, ao mesmo tempo, está em contradição com ela. Nossa situação, na França, não é a mesma: a integração é muito mais flexível. É preciso saber quais eram as relações de Kafka com a comunidade, com a mística, com seu pai. A contradição de um indivíduo profundamente integrado não pode ser a nossa: a sociedade francesa é bem menos inteira do que esta comunidade de judeus tchecos.

J.-A. M. — O senhor escreveu, faz 10 anos, um artigo demolindo Mauriac em nome do romance americano, e concluía: “O senhor Mauriac não é um romancista”. O senhor ainda mantém essa afirmação?

J.-P. S. — Creio que seria mais flexível hoje, ao pensar que a qualidade essencial do romance deve ser a de apaixonar, de interessar, e seria bem menos frívolo quanto aos métodos. Isso porque me apercebi que todos os métodos são truques, inclusive os métodos americanos. Nós nos viramos sempre para dizer o que pensamos ao leitor, e o autor está sempre presente. O truque americano é mais sutil, mas existe. Dito isso, penso que o melhor método para fazer um bom romance é o de manifestar-se de forma bastante visível. Se reescrevesse Os caminhos da liberdade, tentaria apresentar cada personagem sem comentários, sem mostrar meus sentimentos.

J.-A. M. — Isso não é válido em termos absolutos, visto que Madame de La Fayette…

J.-P. S. — Certamente. Os métodos traduzem, de uma maneira ou outra, os princípios de uma época. É certo que, numa época em que o soberano encarnava Deus e tinha uma visão absoluta de seus súditos, a ideia de uma verdade deve ser expressa no romance. Madame de La Fayette escreve do ponto de vista de Deus e do soberano. Nas mesmas condições, a arquitetura era condicionada por isso. Em Versalhes, todos os cômodos são enfileirados, de modo que o soberano pudesse tudo abraçar com um único olhar. É uma crença como outra qualquer, uma teocracia absoluta. Não há verdade absoluta. A História é tão confusa que não há referências absolutas, a menos que se seja comunista ou crente. O que era válido para Versalhes não o é aqui. É a existência de Deus, para Mauriac, que faz com que possa tomar um ponto de vista absoluto. Para mim, Deus não existe. Assim…


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Jacques-Alain Miller

Um início na vida

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