In Situ | O artista por ele mesmo: Mariana Manhães

por Fátima Pinheiro

Esta coluna chega ao seu quarto número trazendo ensaios e imagens em torno da articulação entre a psicanálise e a arte, campos bastante heterogêneos onde a letra na sua dimensão literal faz litoral. Com esse número inaugura-se uma nova fase desta coluna, em que ela passa a ser nomeada como in situ palavra latina que significa “no lugar”. É interessante observar que essa nomeação por ser indissociável daquilo que a constitui, que é a própria linguagem, abre espaço, também, para a expansão do diálogo mais amplo com o campo intelectual e artístico.
Cria-se um espaço discursivo denominado “o artista por ele mesmo” que se destina a dar expressão ao artista, através de entrevistas, pré- textos, textos, manifestos, formulações diversas. Enfim, um lugar onde o artista poderá dar testemunho de seu trabalho, fazendo uso de sua fala na primeira pessoa, como um instrumento de reflexão e de enunciação, permitindo, assim, que a sua palavra participe de sua obra.

Mariana Manhães (1977- Niterói) é a nossa entrevistada desse número. Ela vive e trabalha no Rio de Janeiro. É uma artista visual com exposições no Brasil e no exterior, e realiza um trabalho de intersecção de experimentações artísticas e tecnologia absorvendo diferentes tipos de mídia. Mariana Manhães é uma artista-inventora, como foi apresentada na importante feira de arte contemporânea – ARCO de Madrid/2008, por inventar intrincados sistemas de produção de desenhos, fotos, vídeos e máquinas orgânicas.

Fátima Pinheiro:  Como se deu a sua passagem da psicologia para as artes plásticas?


Mariana Manhães: Na verdade, eu nunca estive totalmente na psicologia. Quando me formei, já tinha um atelier e nunca cheguei a atuar como psicóloga.
Naturalmente, tenho grande curiosidade sobre a relação que as coisas (seres animados ou inanimados) estabelecem entre si. Algumas pessoas gostam de falar que a psicologia influenciou o meu trabalho em arte. Acho que é uma questão anterior. Isso antecede a faculdade. Por causa dessa curiosidade foi que optei por psicologia e, hoje, produzo trabalhos cujo foco é o sistema de linguagem criado entre personagens presentes nos meus vídeos e o corpo-máquina que os sustenta.

F.P.: Quais os artistas que você considera importantes na sua formação?

M.M.: Muitos! : )

F.P.: Qual a questão que sustenta a sua arte?

M.M.: Esse é o tipo de pergunta complicada de responder, porque eu mudo de ideia o tempo todo e cada vez que me perguntarem vou sempre responder de forma diferente (risos). Mas, tentando ser objetiva, acho que tem duas palavras que são constantes: imaginação e invenção, uma sustentando a outra.
A imaginação é uma palavra-chave importantíssima para mim. Faço sempre referência às imagens imaginadas que Bachelard menciona nos livros dele: ele diferencia as imagens percebidas, que são um mero registro do real e ligadas à capacidade da memória, das imagens imaginadas, que são uma deformação do que é percebido. É como se o quê a gente vê passasse por um filtro.
A invenção tem a ver com o processo, e é ela que vai dar estrutura ao que eu imagino. Mas naturalmente existem outras questões também…
Neste momento, estou retomando algumas ideias que comecei a pensar em trabalhos realizados em 2007. Uma delas é a da interconectividade entre as obras. Naquele ano, fiz uma série chamada “Liquescer”, que foi apresentada na minha individual no MAC Niterói e onde apresentei obras que podiam funcionar isoladamente ou plugadas entre si. O comportamento sonoro e visual dessas obras depende dessas conexões. Estou retomando isso em alguns trabalhos que comecei a produzir agora, mas só que de uma maneira um pouco diferente.
Acho que tudo é cíclico e o artista acaba retomando as mesmas questões ao longo de sua produção. E eu também não consigo ver nada com início, meio e fim – tanto que meus vídeos são sempre em loop. Talvez seja natural que as coisas voltem. Mas elas voltam sempre um pouco diferentes.

F.P.:  Você é conhecida como uma artista-inventora, você trabalha com engenhocas, e utiliza maquinarias com uma complexidade tecnológica altamente sofisticada. Como você realiza o seu trabalho?

M.M: Eu acho que todo artista é um inventor de meios e procedimentos. O que tento fazer em meu trabalho é buscar soluções para viabilizar uma obra, e é neste ponto em que a questão da invenção se concentra. Por exemplo, eu quero que as janelas da minha casa conversem com as janelas da sala de um museu em Pittsburgh, então vou tentar imaginar como isso poderia acontecer. Tem a ver também com lógica e com encontrar soluções para problemas que são criados pelo meu próprio processo. Mas veja que isso acontece também quando estou trabalhando em desenhos, ou em fotografias. Não é restrito à produção das máquinas-orgânicas.
Com relação ao material, os trabalhos talvez tenham, sim, complexidade. Mas não possuem tecnologia altamente sofisticada como você falou. Boa parte dos materiais foi comprada em lojas no centro do Rio, como motores para forno de microondas, por exemplo. Gosto mesmo é de uma gambiarra.
Para mim, tanto faz se estou trabalhando em um desenho ou em uma máquina, a maneira de fazer é a mesma: o meu processo é uma constante tentativa de encontrar soluções para problemas que eu mesma crio.

F.P.: Dentre os seus primeiros trabalhos se destaca “Memorabília 1 e 3” (2004), que eu tive o prazer de acompanhar no Parque Lage. Através de imagens em vídeo você apresenta objetos como xícaras, bules, pratos que falam entre eles uma língua inventada, e você dá a eles um tom bastante humano. Você transforma objetos em sujeitos?

M.M: Eu dou um corpo aos objetos que escolho. A partir desse corpo, eles se comportam. Se a gente pensar na palavra sujeito no sentido de sujeição, ou seja, de algo ou alguém que se sujeita, a resposta é sim. Isso porque os personagens que crio estão inseridos em máquinas-orgânicas subjugadas a diversas coisas: interação entre seus próprios elementos, comandos eletrônicos emitidos pelos vídeos, defeitos, tempo, oxidação… e por aí vai.

F.P.: De 1998 a 2006 você cursou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e em 2005 recebeu o prêmio Gilberto Chateaubriand e fez parte do Programa Rumos Artes Visuais do Instituto Itaú Cultural. Você, em 2006, recebeu o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça – Fundação Nacional de Arte / Ministério da Cultura. Esses prêmios são o reconhecimento de sua produção e servem de incentivo para o seu trabalho?

M.M.: Sem dúvida que prêmios incentivam a produção de qualquer artista. Especialmente quando o trabalho ainda é pouco conhecido, porque ganha-se visibilidade e a divulgação alavanca outros projetos. Isso aconteceu comigo e foi fundamental.
Mas acho que a produção deve caminhar independente disso. O compromisso do artista tem que ser sempre com sua própria obra e com o processo. Estar em curadorias de destaque parece ser tão importante quanto ganhar prêmios. Claro que, se eles vierem, melhor ainda. Mas tudo o que se consegue é graças ao trabalho diário no atelier.

F.P.:O funcionamento das maquinarias em muitos dos trabalhos revelam uma relação muito clara entre corpo e linguagem, e embora haja uma relação entre corpo e linguagem não entra em jogo a questão do sentido. Isto me parece o mais instigante e intrigante no seu trabalho porque onde o espectador procura sentido encontra uma lógica fora dele. Você concorda com essa abordagem?

M.M.: Ainda não tinha pensado dessa forma. Para mim, há sentido sim, mas é o sentido do trabalho, dentro da lógica própria a ele. Talvez seja a isso que você esteja se referindo? Costumo dizer que são máquinas autistas, porque elas só interagem consigo próprias, e vivem num mundo à parte. Até o idioma que elas falam é inventado. No entanto, um visitante que se deixe levar pelo funcionamento das coisas por alguns momentos tentará, primeiramente, dar sentido ao que está acontecendo, tentando descobrir como ele próprio está inserido no contexto do trabalho. Algumas pessoas realmente acreditam que estão interagindo de uma maneira bastante objetiva: que há, por exemplo, sensores de presença que ativam os sons. É comum ver gente repetindo algum gesto em frente a um trabalho meu, porque acha que é aquilo que faz a obra funcionar. Mas na verdade o trabalho existe e funciona mesmo sem ter ninguém na frente dele!
Quando esse visitante percebe isso, que o trabalho funciona independente da presença dele na sala, essa percepção é num primeiro momento estranha. Ele gesticula, se afasta e se aproxima do trabalho, mas não acontece nada. Então, ele começa a tentar entender qual é a lógica de funcionamento daquela máquina que é regida por uma animação. É neste momento que a interação acontece – não é uma coisa objetiva, que tenha um sensor e daí coisas acontecem e são ativadas. A interação acontece num plano mais subjetivo.

F.P.: O seu trabalho Thesethose/2011 (site specific installation), apresentado no The Mattress Factory Art Museum/ Pittsburgh, USA e o trabalho que está atualmente na mostra Espelho Refletido no Centro Hélio Oiticica parecem tomar uma dimensão diferente dos seus trabalhos anteriores, cujas maquinarias evidenciavam corpos mais rígidos e frios, passando a dar lugar a um corpo no limite entre o orgânico e o inorgânico, com uma escala maior ganhando transparência e leveza. Os corpos embora se apresentem de forma mais precária respiram e parecem suspirar. O que você tem a dizer sobre esses últimos trabalhos?

M.M: O trabalho que está no Helio Oiticica agora é de 2007! (risos). Voltamos à questão de um processo em loop.
Acho bom quando o trabalho retoma determinadas questões. Meu processo, como já disse aqui, é cíclico. Tem trabalhos que fiz a cinco anos que ainda me fazem pensar e que certamente ainda terão desdobramentos.
O trabalho que está no HO é o Liquescer (Jarrinho Azul), que faz parte da série que fiz para a exposição no MAC Niterói, em 2007. Ele não participou daquela exposição, mas segue a mesma idéia de objetos que respiram de acordo com sua função – no caso, jarros que inspiram e expiram na medida em que a água entre e sai de seu interior. E daí, o som de sua respiração faz as coisas se moverem no organismo-máquina nos quais estão inseridos.
Em 2010 produzi um trabalho que era bastante despido, basicamente só o esqueleto de sustentação, onde apenas o estritamente essencial para o funcionamento da obra foi apresentado. Como você falou, ele está no limite entre o orgânico e o inorgânico. Esta exposição ocupou a Sala A do CCBB/ RJ e foi nomeada como “Dentre”. Além disso, não havia uma unidade, um único corpo: ele era espalhado pela sala, bastante diluído no espaço que ocupava. Acho que isso aumentava ainda mais a sensação de frieza. O contraponto dessa situação eram as animações, duas lâmpadas (veja que até isso também foi despido, porque em outras situações usei luminárias, que carregam em si sua história) que falavam e moviam as partes dos trabalhos.
Na época, eu não sabia muito bem porque estava fazendo o trabalho assim. Eu preciso sempre de uma distância de tempo para entender melhor um trabalho. Acho que só agora, já passados dois anos, é que começo a ter idéia do que estava acontecendo com o meu processo naquele momento. Eu precisei passar por esse momento para chegar onde estou agora, investigando (mais uma vez) corpos que respiram, que tem o ar como um dos elementos principais, e cujo volume cria uma presença orgânica bem mais acentuada que o “Dentre”. E isso tem a ver com a “descoberta” do saco plástico como material para o meu trabalho. É um material que comecei a usar recentemente, em “Difusíveis” e em “Thesethose”, ambos realizados no ano passado. O atelier está repleto de sacos plásticos e atualmente estou desenvolvendo vários projetos que fazem uso esse material.

Rio de Janeiro, 1 de junho de 2012

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2 comentários
  1. O depoimento/palavra do artista faz toda a diferença para compreendermos melhor o processo de criação das obras. Parabéns Mari ! Bjs Ivani Pedrosa

  2. naila shishiny disse:

    Parabéns Mariana..otimo entender o teu processo….ja gostava das pequenas maquetes de madeira que você fazia na época do Parquelage…lindo o seu caminho….

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