O mistério da criação

por Luiz Dolino*

Minha proposta é a de abordar o processo da criação, a partir da experiência que vivo cotidianamente dada a minha condição de artista.

Antes, porém, advirto que pretendo abordar o tema apoiado em três documentos que me foram fundamentais para a aproximação do universo criativo: Le mystère Picasso, Poetics of music e The dyer’s hand.

No filme O mistério de Picasso, de 1956, o cineasta Henri-Georges Clouzot convenceu o pintor a trabalhar utilizando um material especial que possibilitou a filmagem pelo lado contrário de cada tela. O resultado são 20 obras (todas destruídas em consequência do acordo firmado com o diretor), onde Picasso se apresenta completamente nu – no sentido de desprotegido – diante do público, revelando de maneira direta e sem subterfúgios o seu processo de criação. Ver o documentário, declarado Tesouro Nacional pela França em 1984, foi e continua sendo das experiências mais definitivas se procuro refletir sobre a vertigem da criação.

Outro documento que produziu um efeito ao mesmo tempo esclarecedor, mas, em larga escala, muito mais inquietante nas minhas reflexões sobre o processo criativo foi a série de palestras proferidas por Igor Stravinsky na Universidade de Harvard, em 1939. Essas conferências foram feitas em francês sob o título Poétique musicale sous forme de six leçons e fazem parte da prestigiosa antologia de Charles Eliot Norton Lectures on Poetry.

Nos seis encontros em que o compositor se apresentou ante uma plateia eclética, composta por estudantes que cursavam as mais variadas disciplinas na Universidade, o processo criativo do próprio Stravinsky no ambiente musical, como o de outros músicos, pintores, escritores e poetas, integram o discurso do compositor, no seu esforço magnifico de tentar informar sobre o demônio criativo.
Ainda falta dizer sobre W.H. Auden e a coletânea de ensaios publicados pelo Poeta ao longo de suas atividades na Universidade de Oxford. O mote desses textos é expresso pelo próprio ao afirmar, de cara, que é lamentável que em nossa cultura um poeta tenha condições de ser muito mais bem-sucedido, do ponto de vista financeiro, escrevendo ou falando a respeito de sua arte que, propriamente, praticando-a. No Brasil, todo esse material foi publicado em 1993 sob o título geral de A mão do artista.

Na verdade A mão do artista é o segundo capitulo do livro, onde o Poeta se detém mais especificamente na questão do processo criativo. E aqui ponho em destaque o fato de Auden confessar ter aceitado o desafio de destilar ante o público suas próprias inquietações e motivações para edificar a sua obra dado exclusivamente à sua precária condição de vida, do ponto de vista de meios materiais.

Nos três casos mencionados – Picasso, Stravinsky e Auden – nos acercamos de um fato inexorável: há por trás do impulso criativo desses gênios do século XX uma espécie de micróbio que corrói seus espíritos não deixando margem à outra escolha que não seja aquela que lhes permitirá o expurgo de seus demônios. Simultaneamente, pelas obras citadas, percebemos que há o cultivo de um ímpeto comum: a necessidade de estabelecer uma ordem no que lhes parece ser o império da desordem. Podemos então inferir que o processo criativo estaria atrelado a dois cabos: exorcismo e caos. Ao demiurgo cabe, portanto, sacralizar, deixando rastros (obras) que denunciam a redenção suprema.

*Luiz Dolino é artista plástico [ http://www.dolino.net/

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1 comentário
  1. Fatima Pinheiro disse:

    Muito interessante o seu ensaio, Luiz! Lembrei imediatamente do texto de Duchamp, “O ato criador” em que ele diz que a luta do artista pela realização de seu trabalho passa por esforços, sofrimentos, recusas, decisões, por uma cadeia de reações totalmente subjetivas. O instigante é que ele diz que nessa cadeia falta sempre um elo, o coeficiente artístico, que marca o desencontro daquilo que quis realizar e o que realizou. Isto me parece deixa sempre um resto que faz com que o artista engendre sempre o novo! O que você acha disso? abs, Fátima.

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