Joyce e a modulação do objeto ‘a’

Por Sérgio Laia*

Na última lição do Seminário 23, intitulada por Jacques-Alain Miller como “A escrita do ego”, Lacan afirma que o nó borromeano – designado então por “nó bo” – “muda completamente o sentido da escrita”: ele dá à escrita “uma autonomia” cuja notabilidade se destaca devido à existência de “uma outra escrita”, resultante “do que poderia ser chamado de uma precipitação do significante”[1]. Ressalto, para retomar mais adiante, o quanto é surpreendente que, nesta lição, Lacan não só passa a utilizar um termo – “ego” – que, ao longo de seu ensino, foi objeto de desconfiança e de questionamento, quanto recupera, de um modo elogioso, a concepção de “autonomia” que, particularmente na vertente formada pela “Psicologia do Ego”, teve incidências bastante discutíveis sobre a psicanálise.

A chuva significante já havia sido tematizada antes, em “Lituraterra”[2], como o que, furando as nuvens, se precipita, como uma escrita, provocando ravinamentos, erosões, não menos escriturais, sobre a terra. Neste mesmo texto, é à letra que Lacan recorre para dar corpo ao litoral entre saber e gozo, entre o domínio do significante e o domínio do que é vivo e recortado, marcado, pela precipitação significante. Assim, é esta escrita resultante da precipitação do significante sobre o vivo que terá seu sentido completamente mudado pelo nó borromeano e, se Lacan fala, no Seminário 23, de um ganho de “autonomia”, é porque tal escrita ou, mais precisamente, o próprio nó borromeano, corporificando o “sinthoma”, não se faz a serviço do Nome-do-Pai: a escrita do “nó bo”, servindo-se do pai, pode prescindir dele.

Logo após afirmar que tal nó muda o sentido da escrita, Lacan o designa como demonstrativo da diferença radical entre a escrita (aquela advinda da precipitação significante) e “o que se modula na voz”[3]. Para elucidar esta diferença, diria que, efetivamente, a escrita do nó borromeano, realizando a modulação da voz, permite-nos, como afirma Lacan, “enganchar os significantes”[4] enquanto que a outra escrita resulta da queda, da precipitação, da chuva dos significantes. O sentido da escrita é mesmo modificado, pois cair é bem diferente de enganchar. Essa modificação me parece ainda mais decisiva porque, além do enganche dos significantes, a escrita do nó borromeano, sustenta um “osso”, o “ossobjeto [osbjet] que Lacan reduz ao “pequeno a… precisamente para marcar que a letra, nesse caso, apenas testemunha a intrusão de uma escrita como outro [autre], [escrito] com um pequeno a”[5].

Assim, a modulação da voz efetivada no nó borromeano é a operação que me parece responder a duas questões que, no VII Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), dedicado à preparação do VI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) foram formuladas aproximadamente nos seguintes termos: Se o psicótico traz, como assinalou-nos Lacan, o objeto a no bolso, a clínica lacaniana das psicoses promoveria uma extração deste objeto? Localizar o gozo, no tratamento da psicose, implicaria uma extração do objeto a, ainda que em um enquadramento diferente daquele característico das neuroses?

Não é gratuito que, numa lição dedicada à “escrita do ego”, Lacan fale de “precipitação” ou “queda dos significantes”, “enganche dos significantes” e “intrusão”, a partir do a como “ossobjeto”, “de uma escrita como um pequeno outro”. Desde a primeira lição do Seminário 23, a arte de Joyce é apresentada como suplência à carência do pai porque desfaz “o que se impõe do sintoma…, a verdade”[6]. Na sexta lição, a verdade que se impõe como sintoma é evidenciada pela psicose que um paciente entrevistado por Lacan e mesmo a própria filha de Joyce viveram como “falas impostas”: a foraclusão do Nome-do-Pai pode fazer os significantes se precipitarem como uma tormenta cuja força é capaz de provocar avalanches terríveis na terra instável onde um psicótico procurava se equilibrar. Assim, se Joyce não soçobra à própria psicose, é porque, no seu texto – que Lacan considera como “todo feito como um nó borromeano”[7] –, ele engancha os significantes, modula esse ossobjeto que pode tomar a dimensão da voz, cerra o gozo tornando-o opaco ao sentido. E se, no início da última lição do Seminário 23, Lacan diz que esta modulação compõe uma escrita que é tão intrusa quanto um pequeno outro, é porque, mais adiante, ele nos mostrará o quanto ela é “essencial” ao ego[8] de Joyce.

A assimilação do ego a uma escrita intrusa resultante da modulação da voz dá ao ego uma conotação bem diferente daquelas que foram duramente criticadas por Lacan: em vez de ser corrigido e enquadrado (pelo então chamado “superego”), ele corrige e enquadra; em vez de sofrer a intrusão (do então designado “id” ou mesmo do próprio “superego”), é ele próprio o elemento estranho, o intruso. Esta diferença se esclarece, num primeiro momento, no caso de Joyce, pelo modo como este escritor relaciona, seja nas tabelas de correspondências que o ajudou a conceber Ulisses, seja na moldura de cortiça (cork) escolhida para uma foto da cidade de Cork, “o enquadramento” como “uma relação pelo menos de homonímia como que lhe é suposto contar com imagem”[9].

Mas outra elucidação desta diferença se dá com a leitura lacaniana de uma passagem de Um retrato do artista quando jovem, referente a um episódio ocorrido com o próprio Joyce, na infância: devido a preferências literárias diversas daquelas de seus colegas e bem menos convencionais, Stephen Dedalus, personagem que Lacan nos ensina a ler como “Joyce na medida em que decifra o próprio enigma”[10], é objeto de uma surra. A relação com o corpo espancado não aparece na forma de rancor ou raiva para com os agressores, nem de uma satisfação masoquista, muito menos de um narcisismo: o corpo é despojado daquela violência “tão facilmente quanto um fruto é despojado de sua casca madura e macia”[11]. Ora, a psicanálise circunscreve o ego como “imagem” que alguém faz de si mesmo, como “corpo próprio”, e corpo do qual não é fácil ao falasser (pelo menos aquele não tomado pela psicose) se despojar, sobretudo quando ele sofre a intrusão dos outros, por exemplo, sob o modo de uma surra.

Nas psicoses, o despojamento do corpo, do ego, pode tomar formas que, por exemplo, vão desde a despreocupação com os mínimos cuidados da chamada “higiene pessoal” até essa preocupação excessiva com a “aparência pessoal” que, em muitos casos diagnosticados como Transtorno Dismórfico Corporal (Body Dysmorphic disorder) podem fazem com que o corpo seja recortado por infindáveis formas de cirurgia plástica ou mesmo por auto-mutilações. Mas se os psicóticos podem suportar tal despojamento do corpo, do ego, é porque não largam esse ossobjeto que Lacan chamou de objeto a e que consideram como eles próprios, é porque o narcisismo comporta um peso do qual o falasser – tomado ou não pela psicose – não consegue se livrar totalmente: com o pequeno a como ossobjeto, os psicóticos se fazem um corpo e procuram se contrapor aos significantes que a foraclusão do Nome-do-Pai faz precipitar sobre eles.

“No que concerne à fala”, sustenta Lacan, “não se pode dizer que alguma coisa não era, para Joyce, imposta”[12]. Um exemplo particularmente elucidativo desta imposição da fala pode ser lido em uma carta que este escritor, alguns meses depois da morte do pai e abalado pela psicose da filha, endereça a Miss Weaver, sua amiga e mecenas. Referindo-se ao modo como a voz do pai o afetava, Joyce relata: “parece-me que sua voz, de algum modo, entrou em meu corpo ou em minha garganta. Ultimamente mais do que nunca – especialmente quando suspiro”[13].

Se a presença da voz do pai no corpo ou na garganta se fazia notar “ultimamente mais do que nunca”, é porque, antes mesmo de Joyce ter de se confrontar com o furo ressaltado pela morte do pai, tal voz já o assolava[14]. Entretanto, a psicose ordinária de Joyce é extraordinária porque nos apresenta outra solução, diferente daquelas que ordinariamente encontramos em muitos casos de psicose e que, com Lacan, eu chamaria de “modulação da voz”. Jacques-Alain Miller afirma que o nó borromeano muda radicalmente o sentido da escrita porque “desatrela (découple) a escrita da fala”[15]. Este desatrelamento é o que a escrita de Joyce também realiza. Certa vez, indagado pelo amigo Frank Budgen sobre como estava indo Ulisses, responde que havia trabalhado muito e chegou a escrever duas frases. Tal amigo, diante da defasagem entre as quantidades de trabalho e o que foi produzido, lhe pergunta se estava procurando pelo mot juste e recebe de Joyce a seguinte resposta: “já tenho as palavras. O que estou procurando é a perfeita ordem das palavras na frase. Há uma ordem apropriada a cada vez”[16].

Esta ordem pela qual Joyce procura não é aquela, a la Flaubert, do mot juste determinado pelo Nome-do-Pai, nem a ordem de ferro com que a foraclusão deste significante fundamental pode fazer precipitar os significantes sobre o falasser tomado pela psicose. Trata-se da ordem sinthomática pela qual Joyce torna opaco o gozo que, na imposição da fala, é uma avalanche de “gouçosentido (j’ouis-sens)”[17]. Assim, em vez de “decifrar seu sintoma”, tal como faz corriqueiramente os psicóticos diante do que lhes deixa perplexos, Joyce “preferiu cifrá-lo de outro modo”[18]: assolado pela polifonia da fala, ele a decompõe modulando a voz, enganchando os significantes, buscando, para cada frase, a ordem que lhe é própria e que seu trabalho incansável e inovador como escritor permite corporificar.

* Analista Praticante (AP), Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV da Universidade FUMEC; Mestre em Filosofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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[1] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 140. Esclareço que, em francês, noeud bo (“nó bo”) é homofônico a “Nebo”, termo que designa o Monte no qual Moisés, segundo Iahveh, iria morrer.

[2] LACAN, Jacques. Lituraterra (1971). In: ––––. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 15-25.

[3] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[4] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[5] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[6] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 23.

[7] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 149.

[8] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 143.

[9] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 144.

[10] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 67.

[11] JOYCE, James. Um retrato do artista quando jovem (1914). Tradução de Bernardina Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Siciliano, 1992, p. 87.

[12] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 93.

[13] Carta de James Joyce a Harriet Weaver, 22 de julho de 1932. Cf. ELLMANN, Richard. Letter of James Joyce, v. III. London: Faber and Faber, 1966, p. 250.

[14] Ellmann, na biografia consagrada a James Joyce, chega a falar de um “domínio retórico paterno”. Cf. ELLMANN. Richard. James Joyce (1959). Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro: Globo, 1989, p. 366-367.

[15] MILLER, Jacques-Alain. Pièces détachées. La Cause Freudienne. Paris, n. 61, p. 137, novembre 2005.

[16] Cf. BUDGEN, Frank. James Joyce and the making of Ulysses. Bloomington & London: Indiana University Press, 1967, 4th edition, p. 20.

[17] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 71.

[18] MILLER, Jacques-Alain. Pièces détachées. La Cause Freudienne. Paris, n. 63, p. 139, juin 2006.

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