Alberto Giacometti: o que ele ensina aos analistas?

Por Fátima Pinheiro.

Realizei recentemente uma visita a exposição de Alberto Giacometti no MAM/ RJ ( coleção da Fondation Alberto e Anette Giacometti de Paris), juntamente com Paulo Proença, psicanalista e estudioso da obra desse artista e que escreveu, em 2010, o livro Em Torno de Alberto Giacometti: arte, ética e psicanálise [1], onde se observa uma articulação entre a arte e a psicanálise bastante cuidadosa, tratando esses dois campos em sua singularidade, sem subjugá-los.

O convite inicial que fiz ao Paulo Proença para realizar essa visitação foi a de um colóquio entre ele, a obra de Giacometti e eu. E o que sucedeu a partir daí foi algo surpreendente: fomos capturados pelo vazio do objeto na obra de Giacometti, ao ponto de experimentarmos aquilo que tão bem foi traduzido por Lacan, através do exemplo anedótico da lata de sardinha em alto mar, ou seja, que ela (a lata) não precisa nos ver para nos olhar. A obra de Giacometti tal qual a lata de sardinha refletia o nosso olhar, não de maneira metafórica, mas como um objeto que nos concerne.

No percurso que fizemos ao longo da exposição pudemos perceber porque Giacometti é considerado um dos maiores artistas do século XX. Apreendemos, também, um pouco mais sobre a causa que o movia – que o fez se afastar do movimento surrealista em 1934 -, e que não estava remetida em desafiar a ordem dominante, nem tampouco em situar o seu fazer artístico no avant-gard do surrealismo ou dadaísmo. Giacometti de fato, através de seu processo como artista torna visível o desafio que colocou a si mesmo indo mais além na tentativa de capturar o real implícito no objeto de sua arte.

Desde seus primeiros trabalhos de 1901 a 1921, assim como as primeiras esculturas realizadas em Paris, em 1922, verificamos a influência cubista em seus trabalhos, especialmente do escultor Jacques Lipchitz (1891-1973) e do pintor Fernand Léger (1981-1955). A sua primeira pintura a óleo, realizada aos 14 anos de idade, Nature morte aux pommes (natureza morta com maçãs) feita no ateliê de seu pai, pintor impressionista, revela não só a influência deste, como também a de um tio, o pintor simbolista Cuno Amiet.

Giacometti, em 1929, a partir de seu trabalho de esculturas de mulheres e cabeças achatadas conseguiu a sua inserção em uma galeria que expunha trabalhos de surrealistas, a galeria de Pierre Loeb. De 1929 a 1934 Giacometti participou do movimento surrealista, período que embora tenha sido breve, se revelou bastante produtivo na vida do artista, levando-o a participar de exposições junto com Miró e Arp, além de ter proporcionado a ele travar conhecimento com figuras importantes como Luís Buñuel, Man Ray e Paul Éluard.

O trabalho com as cabeças que o fez ingressar no movimento surrealista foi o que o expulsou do mesmo. Sua insistência nesse tema não era algo banal, mas marca daquilo que para ele fazia enigma. A cabeça e os olhos lhe fascinavam sobremaneira, a tal ponto que após a morte de seu pai (1934) se ocupou em criar diversas versões de cabeças, em várias escalas diferentes, denotando uma luta incansável para dar conta da questão da representação.

Observa-se, a partir dessa época, período de 1945 a 1965, um processo diferente do anterior, marcado por um embate dramático com a representação onde ele parece tentar se livrar de um corpo cerceado por moldes representativos, passando para um trabalho de intensa pesquisa sobre o espaço de representação. Os corpos das esculturas são colocados sobre bases que os retiram do chão ou colocados em gaiolas criando um espaço para o corpo virtual, como se observa em La Clairière ( A Clareira) onde o corpo levita sobre uma plataforma.

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Verifica-se um trabalho intenso de redução do corpo das esculturas que possuem dimensões variadas de escala, ao mesmo tempo em que é predominante a ênfase no movimento, lembrando, em alguns momentos, Umberto Boccioni (1882-1916) com o seu futurismo dinâmico. Os seus desenhos, em muitos momentos, são reduzidos a um traço, assim como os corpos de suas esculturas vão se adelgaçando até virar um único traço vertical, até virar “um”, litoral entre a matéria e o nada.

É tão sutil e delicada a relação que Giacometti mantém com os objetos de sua observação que destaco aqui uma passagem, especialíssima, retirada do livro de Paulo Proença, que retrata bem o seu interesse em captar o inapreensível de um único objeto até o tornar único:

“Hoje viajar ou não viajar me é totalmente indiferente! A curiosidade de conhecer as coisas do mundo vem se tornando cada vez mais reduzida, uma vez que um simples copo sobre uma mesa, por exemplo, me impressiona muito mais do que costumava impressionar. Se o copo que está a minha frente me impressiona mais do que todos os copos que vi em pinturas, e se penso que a maravilha das maravilhas em arquitetura não podem me impressionar mais do que este copo, realmente não vale a pena que eu me empenhe numa viagem até a Índia para ver tal e qual templo quando tenho tanto quanto ou até mais diante de mim. Mas, então, se este copo se torna as maravilhas das maravilhas, todos os copos se tornam a maravilha das maravilhas. Mas todos os outros objetos também. Limitando-se a um só copo, tem-se muito mais a noção de todos os outros objetos do que se quisesse fazer o todo. Tendo meio centímetro que seja de qualquer coisa, tem-se muito mais chance de se ter um sentimento do universo do que se tivesse a pretensão de fazer o céu inteiro”[2]

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Ao fim de nossa visita à exposição, e depois de termos conversado sobre o que se apresentou a nossos olhos pude concluir surpreendida sobre algo que Giacometti, de uma forma extremamente aguda e sutil, apresenta e ensina a nós analistas: três questões fundamentais e que norteiam a nossa clínica orientada para o real, legado deixado por Freud e retomado por Lacan em sua transmissão da psicanálise. A primeira questão que seu trabalho evidencia é um esforço de redução das questões imaginárias, num trabalho incessante de subtração da materialidade dos objetos até elevá-los à condição de um traço. O segundo aspecto revela que não há uma anterioridade do real sem a ação do simbólico, é o simbólico que funda o real, como pudemos ver através do vazio de um copo fundando o real daquela experiência, ou de suas esculturas, que como disse Le Poulichet, citado por Paulo Proença em seu livro, “é matéria suspensa num vazio que se curva”[3] engendrando o real em sua inapreensibilidade. E o terceiro ponto que pudemos apreender de sua incrível obra, que desponta forjando a sua questão ética, é que o real não é algo exterior ao sujeito, mas sim algo para cada um.

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[1]  Em torno de Alberto Giacometti:arte, ética e psicanálise é o único livro de autor brasileiro sobre a obra do artista e foi publicado, em 2010, pela Editora Companhia de Freud/ Rio de Janeiro.

[2] Poulichet,S.L- L`art du danger: De la détresse à la création. Paris, Anthopos, 1996. 

[3]  Citação de Paulo Proença sobre Le Poulichet no livro “Em Torno do Vazio: arte, ética w psicanálise”, p. 36.

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11 comentários
  1. Fátima você faz jus ao seu nome – filha do Profeta.
    Realmente, além do está dito, há algo mágico ou profético, se preferir.
    Sinto e comento, mas não irei me arvorar em palavras.
    Não sou tolo.
    Afinal, sou apenas um artista plástico e, portanto, a minha linguagem é não-verbal.
    Congratulações.

  2. Fatima Pinheiro disse:

    Muito obrigada pelo seu comentário! um grande abraço.

  3. Fernanda Terra disse:

    Parabéns Fátima! Um primor!

  4. Fatima Pinheiro disse:

    Obrigada, Fernanda!

  5. Marcia Zucchi disse:

    Belíssimo texto, Fatima! Além de nos descrever com muita clareza a obra de Giacometti, você nos brindou com essa fina conexão entre ela e a psicanálise. Muito bom! Obrigada!
    Bj

  6. Fatima Pinheiro disse:

    Márcia, muito obrigada pela sua leitura e comentário! beijos

  7. piti disse:

    Super!… ‘subtração da materialidade’… gosto disso, em vários sentidos. E acho reconfortante que ‘o real seja algo para cada’. Obrigado

  8. Fatima Pinheiro disse:

    Piti, interessante os aspectos que você apontou no ensaio, agradeço a sua leitura! Abraço.

  9. verbena dias disse:

    Muito bom Fátima. Gostei do texto. De sua apresentação de Giacometti e sua obra e da aproximação com conceitos psicanaliticos Obrigada. Verbena

  10. Fatima Pinheiro disse:

    Obrigada, querida Verbena! bj

  11. Ana Reis disse:

    Parabéns Fátima e obrigada por nos oferecer esse texto tão simples e profundo ao mesmo tempo, além da apresentação do artista Giacometti na sua expressão.

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