Cosmopolis, a próstata invisível

Por Bernardo Oliveira*

Cosmopolis é o melhor trabalho de David Cronenberg desde Naked Lunch (1991).
Embora ao longo desse período o diretor tenha realizado filmes relevantes, alguns
deles dignos do maior interesse — como por exemplo, A History of Violence e Eastern
Promises —, Naked Lunch e Cosmopolis me parecem definitivos. Não que o diálogo com
a literatura os favoreça especialmente, já que obras de J.G. Ballard, além de peças teatrais
e gibis forneceram argumentos para outros de seus filmes. Muito pelo contrário.

Ocorre uma ressonância evidente na conversão da palavra em imagem cinematográfica,
que justifica o destaque na filmografia do diretor. Ambos constituem exemplos da
peculiar concepção de ficção científica desenvolvida por Cronenberg. Como em outros
filmes (Gêmeos e Existenz, sobretudo), seu “futurismo”, sua avaliação sobre o impacto da
ciência na constituição do humano, é mais uma reflexão sobre a mobilidade temporal do
que um prognóstico.

Mas atenção para a reviravolta: ao endereçar suas questões a um futuro que é, antes de
mais nada, depositado sobre o presente (o instante, o acontecimento), Cronenberg se vê
obrigado a dar ao espectador mais do que um “sentido” ou uma “representação”. Em
cada plano, temos uma hipercomposição, que embora possa parecer excessivamente
estética, se apresenta carregada de paradoxos.

Em Naked Lunch, essa composição era liberada através da verossimilhança dos objetos
delirantes, que tinham por função nivelar, ainda que ilusoriamente, os desdobramentos
oníricos da realidade. Mas em Cosmopolis é o plano asséptico, “epidérmico”, o meio pelo
qual se instaura o paradoxo.

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O palavrório busca dar conta de uma série de “questões” expostas pelo livro.
Contudo, diante de um indivíduo oriental que ateia fogo às próprias vestes durante
um protesto, o personagem principal, um cibercapitalista frio e decadente, escuta sua
funcionária, “especialista em teoria”, declarar: “It’s not original…” Um suicídio na rua e
até mesmo um mero acontecimento urbano casual como um protesto, se transformam em
imagem, passível de julgamento estético.

Em Naked Lunch, baseado na obra homônima de William Burroughs, abordavam-se as
mutações do corpo, de como tudo se torna relativo quando a carne arde e as identidades
se dissolvem. Neste caso, a próstata apareceria com toda a sua assimetria, acoplada, por
exemplo, a uma máquina de escrever. Já em Cosmopolis, estamos expostos a uma dose
extra de “momento presente”, através do qual o livro de Don Delillo, em sua construção
essencialmente parasitária, expõe suas questões. E a próstata? Desigual, assimétrica,
permanece no plano da virtualidade absoluta, indicando as disfunções subterrâneas da
aparência.

E mais: o enquadramento propriamente dito é claustrofóbico, recortado em espaços
cercados por seguranças entrevistos pela janela de uma “limo”. No entanto, mesmo
nos momentos de perigo latente, o ambiente nos parece confortável, quase tranquilo. A
maquiagem o figurino, a entonação e o gestual dos atores é robótica, fria, mas eles estão
sempre à flor da pele, desestabilizados por algum distúrbio, alguma pressão psicológica.
Constata-se que a próstata é assimétrica, enquanto o ator discute com uma de suas
informantes, e a energia sexual irrompe em pleno exame.

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O diálogo entre o barbeiro e o chofer, ambos vivendo num passado entranhado,
paradoxalmente presente; o personagem de Pattinson, cravado no futuro, assiste aos
protestos que reivindicam este mesmo presente. No final, a potência do futurólogo frio e
calculista se torna impotente frente à impotência do ativista ressentido. Deseperado para
sentir algo além da expectativa dos “mercados futuros”, ele dispara contra a própria mão.
Antes já havia pedido um carga de alta voltagem, já havia se livrado de seus inseparáveis
seguranças. A câmera se torna refém de Juliete Binoche, que serpenteia pela limo… As
cenas de sexo não demonstram concentração, só se fala de outras coisas durante o sexo,
pois sexo é poder. Seu casamento se resume a um jogo de poder, igualado à conversa
sobre o Rothko, uma conversa sobre dinheiro. As imagens plastificadas de um rapper sufi
que morre ironicamente de “causas naturais”, humilhando seus amigos. O tédio sufoca,
porque só o futuro redime, mas não chega nunca: ele é sempre presente.

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Vejam: Cronenberg não oferece, como o livro de Delillo, uma interpretação sobre
o presente. Suas imagens já constituem o sentido mesmo da obra. Não se extraem
conclusões dessas cenas, as conclusões são as cenas mesmas, a pele do que expõe é
sua própria pele: fria, instável, arrojada, desigual, mas também porosa, texturizada
pelo digital, pelo fogo, pelas palavras de ordem — e pelas tortas… na cara da política
mundial.

*Bernardo Oliveira é professor de filosofia, colunista do Blog da Subversos e escreve sobre música no blog Matéria

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1 comentário
  1. Pingback: 2012: 10 Filmes «

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