A paixão do ler: a leitura no “amor em fracasso”

Práticas da Letra é uma Unidade de pesquisa sobre escritura e leitura na prática psicanalítica. Essa pesquisa se insere no Instituto de Clínica Psicanalítica (ICP) do Campo Freudiano.

A partir de algumas pontuações de J. A. Miller, nossa pesquisa procura explorar a função do escrito e da leitura no ensino de J. Lacan e alguns outros autores da literatura:

“A psicanálise não é apenas questão de escuta, listening, ela é também questão de leitura, reading. No campo da linguagem, sem dúvida, a psicanálise toma seu ponto de partida da função da palavra, mas ela se refere à escritura. Há uma distância entre falar e escrever, speaking and writing. É nesta distância que opera a psicanálise, é esta diferença que a psicanálise explora”. (J. A. Miller, Ler um sintoma)

Neste espaço aberto pela SUBVERSOS em conexão com Práticas da Letra, iremos publicar alguns textos recolhidos de nossa bibliografia, além de autores convidados e breves notícias de nossa pesquisa.

Inauguramos o espaço com um texto de Lucia Castello Branco, psicanalista e escritora, professora titular da Faculdade de Letras da UFMG e autora de livros de psicanálise e literatura.

No texto – A paixão do ler: a leitura no “amor em fracasso” – apresentado por Lúcia na Unidade de pesquisa, ela nos propõe pensar “de que maneira a leitura, tal como proposta por Blanchot, inicialmente, e por Llansol, como legência, pode nos fazer avançar nessa operação do “saber em fracasso”. A partir desta proposta Lucia nos leva ao seminário 20 de Lacan, pela mão de Espinosa e da escritora Maria Gabriela, até à função do amor, do ler e escrever.

Ana Lucia Lutterbach – Psicanalista membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, autora do livro Patu – a mulher abismada, publicado pela editora Subversos e coordenadora do unidade de pesquisa Práticas da Letra.

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As Meninas – Diego Velasquez – 1656

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A paixão do ler:

a leitura no “amor em fracasso”

Por Lucia Castello Branco

Vereis que, pouco a pouco, as letras vão rolar do
próprio nome:                                                     
amor sem m.
amor sem o.
amor sem r.                                                         
amor sem a.                                                                                       

fica o silêncio em que vos dareis uma à outra, ponto
final da chama.                                                                        

Maria Gabriela Llansol

Começo pelo silêncio, ponto final da chama. Começo por ela, em seu ponto final: a chama. Chamo-a por seu nome: Maria Gabriela Llansol. Aprendi com ela, que aprendeu com Nietzsche, que a pergunta “quem sou” é a pergunta do escravo. “Quem me chama” é a pergunta do homem livre.

Quem me chama aqui, hoje? Ana me chamou, eu vim, e desde já agradeço o convite que ela me fez, pois ele me levou, creio, mais adiante. Pensei, a princípio, que era a psicanálise o que me chamava. Depois, mais adiante, pensei que era a literatura o que me chamava. Agora já não sei. Pois, por razões particulares que não vale aqui explicitar, pus-me a reler, há quinze dias, um texto que leio desde muito tempo, desde que li, pela primeira vez, o texto dos místicos medievais – Santa Teresa de Ávila, em primeiro lugar, São Juan de la Cruz, um pouco depois, e Hadewich D´Anvers, mais tarde – e de místicos mais recentes, como Santa Teresa de Lisieux. Trata-se do Cântico dos Cânticos, texto bíblico que terminou por se constituir como um dos paradigmas do discurso amoroso no Ocidente.

Em 1992, fui a Portugal pela primeira vez, e ali permaneci por seis meses, fazendo meu primeiro estágio de pós-doutorado, na Universidade Nova de Lisboa. O que me levou ali foi um projeto sobre o texto místico de freiras portuguesas do século XVIII, supervisionado pela poeta e professora Ana Hatherly. Acontece que em Portugal, enquanto eu esperava pela microfilmagem de alguns manuscritos – nessa época, o sistema de digitalização dos documentos ainda não havia começado, na seção dos “reservados” da Biblioteca Nacional de Lisboa –, decidi ler outras mulheres, autoras contemporâneas portuguesas que eu ainda não conhecia. Foi assim que cheguei ao texto de Maria Gabriela Llansol, que me foi apresentado por uma outra escritora, de quem eu havia me tornado amiga, ainda no Brasil: Teolinda Gersão. Teolinda leu minha tese de doutorado e me disse que eu devia conhecer o texto de Llansol, pois havia escrito uma tese sobre esse texto, sem conhecê-lo.

Devo confessar para vocês que, secretamente, eu sempre soubera que minha tese sofria de um defeito, um defeito grave: a teoria avançava ali mais que os objetos literários que eu havia escolhido para sustentá-la. Ou seja: não havia, a meu ver, texto que demonstrasse a teoria sobre a “escrita feminina” que eu havia construído. É verdade que isso, de alguma maneira, me excitava, pois era como se eu tivesse chegado, de um só golpe, à formulação lacaniana “A Mulher não existe”. Mas, ainda assim, eu supunha que, em algum lugar, haveria esse texto que me permitiria demonstrar, literariamente, esse aforismo.

Foi só quanto encontrei o texto de Maria Gabriela Llansol, com sua formulação “Não há literatura. Quando se escreve, só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros” [1], que pude, enfim, realizar – no sentido do verbo ingês “to realize” – o que eu havia escrito em A Traição de Penélope.[2]

Vejam que, aqui, já estou introduzindo alguns axiomas com os quais vou tentar trabalhar com vocês, hoje: um deles é o de que “a escrita sabe” e avança por lugares que não sabemos. O outro deles é que faço coincidir aqui, propositadamente, o aforismo lacaniano “Não há A Mulher” com “Não há A Literatura”. E o terceiro deles, que pretendo desenvolver aqui com vocês, é que “a leitura sabe”, mas sabe de uma maneira um pouco mais “avançada” que a interpretação.

Arrisco-me a dizer que o saber da leitura é da ordem do que Lacan chamou, em Lituraterra, de “savoir en échec” [3]. Desse texto de Lacan, temos duas traduções para o “savoir en échec”: “saber em xeque” e “saber em fracasso”. Prefiro a segunda tradução, pois ela nos permite pensar, em português, naquilo que Lacan propunha com esta expressão. Como ele mesmo observa, o “saber em fracasso” não se confunde com o “fracasso do saber”, mas deve ser pensado como uma “mise-en-abyme”, como uma “estrutura em abismo”.

Então, comecemos por pensar numa mise-en-abyme, essa figura oriunda das Artes Plásticas. O retrato clássico da mise-en-abyme, vamos encontrá-lo no quadro As Meninas, de Vélasques, em que o pintor pinta o pintor que pinta… Michel Foucault trabalha detidamente com esse quadro, em As Palavras e As Coisas. Mas a mise-en-abyme é também um procedimento literário, que era muito utilizado por Gide, por exemplo. Na literatura, a “mise-en-abyme” acontece, quando, por exemplo, o narrador nos descreve uma cena em que o personagem está lendo, ou escrevendo um livro, em que se desenrola uma cena que está, de alguma maneira, anunciando, ou repetindo, algo que se passa ao nível da enunicação, com o próprio narrador. E também nas formações do inconsciente podemos ver a mise-en-abyme, por exemplo, quando temos o sonho dentro do sonho e, sobre essa operação, Lacan dirá que ela revela a proximidade do Real: “Não é preciso ser alertado pela reconhecida importância do sonho dentro do sonho, para apontar uma relação mais próxima do real”, ele afirma, em Kant com Sade.[4]

Lacan vai dizer que a única forma de a psicanálise operar com a literatura é através da operação de um “saber em fracasso” e que esse “saber em fracasso” deve ser pensado como uma mise-en-abyme. Arrisco-me a tentar avançar um pouco nesse ponto, afirmando que a psicanálise, em si mesma, ensimesmada, opera sempre como um “saber em fracasso” e, se pensarmos esse “saber em fracasso” como uma mise-en-abyme, como propõe Lacan, talvez possamos avançar.

Acho que o que Ana Lutterbach nos propõe hoje, neste seminário da Prática da Letra, é pensar a operação da análise para além da interpretação, como uma leitura. E o que eu gostaria de pensar, aqui com vocês, é como a leitura, tal como proposta por Blanchot, inicialmente, e por Llansol, como legência, pode nos fazer avançar nessa operação do “saber em fracasso”.

Ao “saber em fracasso” gostaria de apor uma outra formulação, já inspirada por Llansol. Inspiro-me aqui na figura llansoliana do “amor sive legens”, que por sua vez é inspirada no “Deus sive natura”, de Espinosa, para pensarmos na leitura como uma operação do “amor em fracasso”. E esse “amor em fracasso”, sugiro que o pensemos também como uma mise-en-abyme, tal como proposto pela epígrafe deste texto, de Llansol: “vereis que pouco a pouco, as letras vão rolar do próprio nome: amor sem m. amor sem o. amor sem r. amor sem a.”[5] Trata-se, pois, de uma operação de letras, de letras que caem em abismo, ao mesmo tempo que fazem o abismo de um nome: amor.

Deixar espalhadas sobre a mesa todas as letras do nome de amor

Enquanto escrevo este texto, leio, mais uma vez, o Cântico dos Cânticos. Mas agora leio-o de uma outra maneira. Espalho sobre a mesa duas versões do Cântico: uma delas, a “versão portuguesa da versão francesa dos originais grego, hebraico e aramaico, traduzidos pelos monges beneditinos de Maredsous (Bélgica)”, da 164a edição da Bíblia Sagrada da Ave Maria. A outra delas, a versão da poeta portuguesa Fiama Hasse Paes Brandão, publicada em 1985, pela editora Assírio & Alvim. Nessa segunda versão, Fiama diz ter perseguido “o método tradicional sefardita conhecido por verbo a verbo: palavra a palavra vertida literalmente e colocada no alinhamento da língua hispânica com a mesma ordem do enunciado hebraico, o que produziria, então e agora, um Mistério Semântico(…)”.[8]

Leio essas duas versões do Cântico e literalmente as recorto e as copio, fazendo uma terceira versão, minha, livre, para a oferecer a uma cantora de leitura. Aprendi com Llansol que a cópia é a melhor forma de leitura, ou de legência. E que, quando copiamos, sem querer adulteramos algum trecho, mas esse adultério é “pleno de ensinamentos”, pois nos revela o que “o nosso sexo de ler está vendo”.

Então, recorto aqui para vocês um trecho, já copiado e adulterado por mim, em outra ocasião, em meu livro Nunca Mais: “Não desperteis o amor, antes que este o queira”. Leio agora, na edição de Fiama: “não despertareis nem fareis desvelar o amor na caça antes de que queira”. E leio, agora, na edição dos monges beneditinos: “ não desperteis nem perturbeis o amor antes que ele o queira”.

Então, não despertaremos, aqui, o amor. A menos que ele queira ser despertado desta maneira: com todas as suas letras espalhadas sobre a mesa. E aí, talvez, através da leitura sem interpretação, da leitura como uma operação de mise-en-abyme do “amor em fracasso”, possamos possamos avançar um pouco na direção do que Lacan propõe, quando afirma, no Seminário 20, mais precisamente em “A Função do Escrito”, que um escrito é um “pas-a-lire”, um “não-a-ler” que é também um “passo-a-ler”, e que um escrito não foi feito para ser compreendido, mas que isso nos dá justamente a chance de explicá-lo.[7]

A respeito da distinção entre a “compreensão” e a “explicação”, remeto vocês à leitura do livro de Ram Mandil, Os efeitos da letra: Lacan leitor de Joyce. Ram indica, nesse livro, que a “explicação”, diferentemente da “compreensão”, não encerra um objeto, mas o desdobra: a explicação, explanare, é o desdobramento.[8] Então, não despertemos nem encerremos o amor, mas deixemos espalhadas sobre a mesa todas as letras de seu nome. E aí teremos: amor sem m. amor sem o. amor sem r. amor sem a.

Talvez aí, nessa operação de desdobramento, de explanare, possamos nos encontrar com a operação do “Ler”, tal como Blanchot a define, em O Espaço Literário: “ A leitura nada faz, nada acrescenta; ela deixa ser o que é; ela é liberdade, não liberdade que dá o ser ou o prende, mas liberdade que acolhe, consente, diz sim e, no espaço aberto por esse sim, deixa afirmar-se a decisão desconcertante da obra, a afirmação de que ela é — e nada mais.”[9]

Se a leitura nada faz, nada acrescenta, o que se exige daquele que lê, para Blanchot, é “mais ignorância do que saber”, uma “imensa ignorância e um dom que não é dado de antemão”, “que é preciso a cada vez receber, adquirir e perder, no esquecimento de si mesmo”. Não estamos aqui bastante próximos da função de um analista, ao escutar seu paciente?

A leitura, para Blanchot, entendida no campo da passividade, do desastre — a queda do astro — e do “désoeuvrement” — o “desobramento”, a “desocupação”, a “negligência” — é ainda mais radical que a escrita, exigindo do sujeito uma operação de esvaziamento ainda mais extrema. Afinal, como observa Blanchot, ninguém se espanta, ao ouvir do outro algo como “Sempre essa angústia do escrever…”, mas seria espantoso um homem que confidenciasse: “´Sempre angustiado no momento de ler´, um outro que não conseguisse ler, salvo em raros momentos privilegiados, ou aquele que transformasse toda a sua vida, renunciasse ao mundo, ao trabalho e à felicidade do mundo, a fim de abrir um caminho até uma leitura de alguns instantes” [10]

Porque a leitura, ainda mais que a escrita, é aquela operação que não se apresenta como um trabalho, mas como uma “desocupação”, como um “desobramento”, como uma “negligência”. E, no entanto, a leitura, só a leitura é capaz de “fazer com que o livro se escreva ou seja escrito”. “Desta vez, sem a intermediação do escritor, sem ninguém que o escreva” [11]

É aqui, no encontro com esse “ninguém que o escreva” que talvez possamos avançar no sentido mais radical daquilo que Llansol chamou de legência, que buscaremos articular ao que, mais tarde, ela construiu em torno da figura do “sexo de ler”.

Alguém que me ame com bondade e saiba ler

Em O Jogo da Liberdade da Alma, livro de 2003, Llansol, profundamente atravessada pelo texto de Espinosa, avança nessa direção da legência como “desocupação” e como desdobramento, espalhamento das letras do nome de amor. Nesse livro se verifica, cabalmente, o que Llansol chamaria de amor sive legens, inspirada pela formulação espinosista do Deus sive natura.

O livro é atravessado por um leitmotiv, em que se lê, por três vezes, o seguinte diálogo:

— Sim, diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: — Desejo encontrar alguém que me ame com bondade ,e que seja um homem.

— Alguém que queira ressuscitar para ti?

— Sim, alguém que tenha para comigo essa memória. [12]

Esta citação, por si só, já em “plena de ensinamentos”: o primeiro diz respeito ao amor como ressurreição, que tem sua fonte, evidentemente, na teoria das afecções de Espinosa. A segunda é a relação do amor com a memória, com “essa memória”, que ainda não sabemos qual é. Acontece que esse diálogo se trava entre duas raparigas: uma, que se chama Teresa (e que corresponde, de fato, à figura de Teresa de Lisieux, na obra de Llansol) e outra, que é chamada no livro de “rapariga desmemoriada”. Então, “essa memória” tem a ver, de alguma maneira, com a memória da “rapariga desmemoriada”, que era desmemoriada até mesmo de seu próprio nome. É interessante como a rapariga desmemoriada guarda, em seu nome sem nome — desmemoriada — uma memória do amor, pois o amor está aí escrito, anagramaticamente, no centro da palavra desmemoriada. Isso pode ser mais facilmente escutado na tradução francesa do livro, como tão bem observou Maria Antunes Tavares: amemorieuse.[13]

Prossigamos. Como lhes disse, essa citação se repete três vezes no livro. Na quarta vez em que o diálogo entre as duas raparigas recomeça, ele sofre uma sutil alteração:

Sim — digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos: — Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e saiba ler.
— Alguém que queira ressuscitar para ti?
— Sim, alguém que tenha para comigo essa memória. (OJLA, p. 80)

Aqui, então, o diálogo, introduz um “tu”, que forçosamente passa a ser o leitor — ou o legente — e este entra no lugar daquele que ama com bondade, mas que não é necessariamente um homem, é tão somente alguém que “saiba ler”. O que significa saber ler, na textualidade Llansol? Quem souber ler esse texto será

alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima que vou escrever
alguém que admita que a cartografia dos animais e da pontuação ainda não está estabelecida
alguém que eu possa ler diferentemente depois de me ler
alguém que dirá aos animais e às plantas que nem sempre serão servos
alguém que nos amarmos se reconheça de matéria estelar
ou seja, Témia,
ou seja (OJLA, p. 80)

E assim somos levados à operação da legência em sua máxima passividade: o espaço entre as palavras, a admissão de uma nova cartografia para o mundo e para a escrita, a travessia da leitura para a legência e o amor, feito de “matéria estelar”. E a explicação, que se poderia desdobrar infinitamente, se interrompe justamente no “ou seja” que aponta para seu desdobramento em “mise-en-abyme”. Nessa nova cartografia dos animais, das plantas e da pontuação, nesse amor que se faz de matéria estelar, encontramo-nos com a paisagem, outra figura central da textualidade Llansol, que aponta para uma outra erótica: a do luar libidinal, a do sexo de ler.

Como amantes nus que falam de coisas anódinas

Em “A Boa Nova Anunciada à Natureza”, trecho do livro Onde vais, Drama-Poesia?, Llansol nos surpreende com esta “novidade”; “a paisagem é o terceiro sexo”. E prossegue: “A paisagem não tem um sexo simples. Nem o homem, nem a mulher.” E, mais adiante. ela adverte: “É vital conhecer a paisagem”.[14]
Sim, para a legência desse texto, é vital conhecer a paisagem. Pois é “na paisagem, ou na geografia imaterial da espécie terrestre”, que “os seres humanos distribuem-se em vagabundos, em formadores, em construtores e poetas.”

Os vagabundos erram à procura de uma nova paisagem. São, desde sempre, exteriores à comunidade. Os construtores são os elementos estabilizadores que prendem toda a geografia imaterial à vida quotidiana. Os formadores sentem essa geografia porque o seu órgão é o coração. Os poetas vêem, e anunciam a geografia imaterial por vir. (OVDP, p. 45)

Reparem que os poetas, aqui, não estão longe dos aedos, que eram os videntes, os que veem, mas eles anunciam que há uma “geografia imaterial por vir”. Ocorre que, nessa geografia imaterial por vir, é vital conhecer a paisagem.

Penso no texto de Llansol como um testemunho dessa geografia imaterial por vir. Aliás, ela mesmo já o concebia assim, em suas primeiras trilogias, que significativamente se chamam: “Geografia dos Rebeldes” e “O Litoral do Mundo”. Aqui, nesse “litoral”, temos um encontro com Lacan, em “Lituraterra”, quando este distingue, com precisão, um litoral e uma fronteira. Porque o litoral separa hemisférios de natureza distinta, como a areia e o mar, o significante e a letra, o simbólico e o real. Mas também os aproxima, no momento em que eles mantêm, entre si, uma posição de litoral.

Então, é vital conhecer esse terceiro sexo que estrutura a textualidade llansoliana, que não se funda na dualidade do espelho, mas na terceiridade da paisagem. É aí, nesse campo do aberto da paisagem que podemos situar, a meu ver, o “sexo de ler”. Pois o “sexo de ler” vê, e “anuncia a geografia imaterial por vir”.

Em “Para que o romance não morra”, esse surpreendente discurso proferido por Llansol, em Tróia, por ocasião do prêmio dado a seu livro Um beijo dado mais tarde, em 1991, Llansol adverte: “Peço que atenteis neste ponto de partida. Nós estamos sempre a contar coisas uns aos outros.” E continua:

A maior parte das vezes, são histórias de furor e de sangue. Sabe-se. Mas não sempre. Às vezes acontece, como acontece aos amantes nus que falam de coisas anódinas, pequenas confidências em troca, enquanto se acariciam e se contemplam.
Nesse instante, os corpos brilham
porque,

nesse trânsito, a palavra aí existe, mas sem importância útil, e os corpos, sem que nós o saibamos, a absorvem — e fulgem. [15]

Pensemos neles — esses amantes nus, que falam de coisas anódinas. Pensemos nela — a palavra sem importância útil. Atentemos para este ponto de partida: nós estamos sempre a contar coisas uns aos outros.

Se o que se conta é sempre o amor — aquele que Llansol chamou de “mal errante”, em Contos do mal errante [16] — como contá-lo? E, mais ainda: como lê-lo? Como ler esse texto de amantes nus que falam de coisas anódinas, esse texto composto de palavras, sim, mas de palavras sem importância útil? Não é também esse o texto do divã, aquele que a psicanálise deve ler?

No Seminário 20, precisamente na lição “Deus e o Gozo d´A Mulher”, Lacan vai sugerir que a melhor leitura não é aquela que se situa no amor, mas justamente a que se trava no amódio. Não sem ironia, Lacan observará, após assinalar que “aquele a quem eu suponho o saber, eu o amo”, que nunca foi tão bem lido — “com tanto amor assim” — quanto na leitura que fizeram de seu texto os autores de Le Titre de la Lettre, pois eles o leram com ódio, dessupondo-lhe um saber. A partir daí, toda uma defesa da leitura no amódio, indagando: “E por que não? Por que não, se se verifica aí a condição do que chamei de leitura?”[17]

Então, a partir dessa formulação de Lacan, podemos pensar que a leitura, em psicanálise, deve dar-se no campo do amor, sim, mas mais precisamente no campo do avesso do amor — o amódio — para se evitar a idealização e seus engodos.

Mas há também uma outra formulação lacaniana acerca do amor, para além do “amor simbiótico”, que acho importante ressaltar aqui. Refiro-me às ideias de Lacan acerca do amor de transferência, desenvolvidas no Seminário 8, a partir do mito de Poros e Pénia. Ali, sabemos, ao concluir que, nesse mito, quem faz o amor é a mulher — Pénia –, Lacan termina por chegar, justamente através da figura de Pénia, a penúria, aquela que não tinha nada a oferecer à Afrodite, em sua festa de aniversário, à formulação: “amar é dar o que não se tem”.[18]

Então, retornemos à leitura. Se concordamos com Blanchot, quando este afirma que a leitura é do campo da passividade, da desocupação, que a leitura está mais perto do dom que do saber, que a leitura exige uma imensa ignorância; se concordarmos com Llansol quando ela observa que a leitura não se dá sem o “sexo de ler” e que esse sexo é pleno de ensinamentos, porque ele se situa no campo de um terceiro elemento, ainda mais complexo que o homem e que a mulher — a paisagem –; se concordarmos, por fim, com Lacan, quando ele adverte que é como um “saber em fracasso” — tomado, aqui, como uma “estrutura em abismo” — que a psicanálise deve se articular à literatura, seremos forçados a dar um passo adiante — um pas-à-lire –, propondo, a partir da textualidade llansoliana, que a leitura seja preferida à interpretação, e que essa leitura se dê, não exatamente no campo doa amódio — que é, ainda, o campo do avesso do amor, da especularidade –, mas no campo do “amor em fracasso”, como uma mise-en-abyme que descortina, por sucessivas repetições, “um corpo cem memórias de paisagem”. E, então, leremos:

Há sexo envolvido? Há ______respondo, a quem imagina a pujança sobre essa forma de prazer. Mas, para o poema, não há.

Não há, então, sexo envolvido? Há. Para o poema não é concebível não haver um corpo humano que o não suporte. (OVDP, p. 17)

__________________________________

[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Um Falcão no Punho. Lisboa: Rolim, 1985. P. 57.

[2] BRANCO, Lucia Castello. A Traição de Penélope. SP: AnnaBlume, 1994.

[3] LACAN, Jacques. Lituraterra. Che vuoi. Porto Alegre, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, v.1, n.1, 1986, p. 17-31

[4] LACAN, Jacques. Escritos. RJ: Jorge Zahar, 1998. P. 779.

[5] LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1991. P. 93.

[6] BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Cântico Maior. Lisboa: Assírio & Alvim, 1985. P.9.

[7 ] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 20. Mais, Ainda. 2 ed. RJ: Zahar, 1985.

[8] MANDIL, Ram Avraham. Os efeitos da letra: Lacan leitor de Joyce. RJ: Contra Capa, 2003.

[9] BLANCHOT, Maurice. O Espaço Literário. RJ: Rocco, 1998. P. 194.

[10] BLANCHOT. Op. cit., p. 191.

[11] Ibidem, p. 193.

[12] LLANSOL, Maria Gabriela. O Jogo da Liberdade da Alma. Lisboa: Relógio D´Agua, 2003. Excerto da quarta capa do livro. Todas as citações referentes a esse livro virão, daqui por diante, com a referência no corpo do texto, assinalada pelas iniciais do título do livro, com o(s) número(s) da(s) página(s), entre parênteses.

[13] A esse respeito, ver o texto “A literatura e o incurável”, de Lucia Castello Branco e Maria Antunes Tavares, no blog http://www.fiodeaguadotexto.wordpress.com.

[14] LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, Drama-Poesia?Lisboa: Relógio D´Água, 2000. P. 44. Todas as citações referentes a esse livro virão, daqui por diante, com a referência no corpo do texto, indicada pelas iniciais do título do livro, seguidas do(s) número(s) da(s) páginas(s), entre parênteses.

[15] LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994. P. 118: Para que o romance não morra.

[16] LLANSOL, Maria Gabriela. Contos do Mal Errante. Lisboa: Rolim, 1986.

[17] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 20. Mais, ainda. P. 92.

[18] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 8. A transferência. RJ: Zahar, 1992.

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1 comentário
  1. Fatima Pinheiro disse:

    Que boa notícia e belo texto! A coluna In Situ, assim como ” O artista por ele mesmo” terão a oportunidade de trocar textos, material de entrevistas, etc com este novo espaço que se inaugura através dos trabalhos publicados pela Unidade de Pesquisa Práticas da Letra/ ICP-Rio. Abs, Fátima.

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