A artista por ela mesma: Entrevista com Rosana Ricalde

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Por Fátima Pinheiro* 

Rosana Ricalde ( Niterói, 1971) formada pela EBA/RJ (1994) é uma artista que trabalha no Rio de Janeiro e em Rio das Ostras(RJ) onde reside. Suas principais exposições individuais foram realizadas no Rio de Janeiro, em Madri, Oslo, Miami, Lisboa, São Paulo, e Havana. Possui trabalhos que fazem parte da coleção Gilberto Chateaubriand- MAM (2006-2007) e participou de projetos de residências artísticas em São Tomé e Príncipe (2008), Ilha de Susak, Croácia (2008) e em Rotterdam, Holanda (2005).

Ao situar em seus trabalhos um litoral entre a palavra e as coisas, Rosana Ricalde tece através do desenho, da pintura, e de objetos um campo impregnado pela poesia. Nesta entrevista, realizada em seu atelier, pudemos acompanhar imagens de seus desenhos inéditos mais recentes, registros, esboços das ideias elaboradas durante seu processo de criação, livros cuja leitura instigou seu trabalho, enfim, pudemos observar um ambiente de trabalho imantado por suas experiências do cotidiano, revelando, assim, ser uma artista inteiramente dedicada ao seu fazer artístico. Do livro em sua materialidade, da literatura e de narrativas orientais, Rosana Ricalde retira as letras e os nomes, filigranas delicadas, com que constrói a sua linguagem poética, como veremos a seguir.

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1 – Fátima Pinheiro: Quem é Rosana Ricalde?

Rosana Ricalde: Essa é uma pergunta bem difícil, mas me vejo como uma pessoa comum, que tem a rotina de uma mulher normal. Eu até gosto disso, de ser um pouco invisível, de poder observar sem chamar atenção. Administro a casa, cuido dos filhos…e também sou uma artista – que trabalha bastante.

2- F.P.: Vários de seus trabalhos, dentre eles cito: Cidades Invisíveis (2007), Marítmo (2008), Globo (2005) Viagens de Marco Pólo (2009) Mar do Japão (2009) Mar do Mundo (2005) Marés (2008) são trabalhos bastante orgânicos, onde se observa um campo geográfico bastante expressivo em que a geografia ganha corpo a partir das palavras. O que você pode nos falar a respeito desses trabalhos?

R.R.: Vou falar numa ordem cronológica, pois é a partir da série de trabalhos dos mares, que o desenho surge no meu trabalho de maneira mais expressiva – criando uma relação hora de tensão, hora de complemento ao texto.

Para esclarecer esse interesse, gosto de citar meu fascínio por alguns livros, o primeiro foi a Bíblia. Eu cresci numa casa bem simples, e com poucos livros, mas cercada de árvores, montanhas. Enfim elementos que permitiam e até forçavam minha imaginação. Criei desde muito cedo estórias incríveis dentro desse ambiente. Mas voltando ao livro – essa Bíblia também me despertava muita curiosidade… até que bem mais adiante conheci seu conteúdo. E o Verbo desde então me fascinou. Outros dois livros muito importantes para a composição da minha obra, são: o dicionário e o atlas. A idéia de que todos nossos atos, pensamentos e deslocamentos podem estar aí contidos, me instiga.

Falando, mais detalhadamente, como esses dados me levaram a esses trabalhos, poderia dizer que foram a partir dos desenhos do mar. Minha ideia sempre foi dar visibilidade ao texto, permitir que este me apontasse a imagem, e nesse caso não existe um esboço preenchido pelo texto, a escrita vai me conduzindo, quase como um mantra, e vou repetindo o nome dos mares que vão formando ondas.

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Nas Cidades Invisíveis, primeiro descobri o livro que também deu nome ao trabalho, fiquei pensando quantas camadas se sobrepõem à uma cidade, e também, como o desenho, no caso o mapa, restringe, delimita, domestica a Terra – a cidade, que é tão diversa, tão particular. A idéia de recobrir as ruas pelas frases do livro era como dar visibilidade a essas camadas, revelar essa multiplicidade de caminhos a percorrer.

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3- F.P.: Você realiza também em Cidades e memória (2006) fluxos, deslocamentos a partir de um campo geográfico em que a memória da cidade se presentifica através do nome de ruas, dos nomes dos habitantes, localizando um tempo que a memória conserva. É muito interessante essa relação entre espaço e tempo porque ela perturba a geografia, desfazendo-a de certa maneira, aproximando-a de algo que seria da ordem do afeto. O que levou você a realizar este trabalho?

R.R.: Fui convidada a participar de uma exposição intitulada Primeira Pessoa – esse convite foi legal pois eu já queria fazer a muito tempo esse trabalho, desde que li o livro As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, mas sabia que ia ser algo ligado mesmo ao afeto, um remexer na memória… Daí, primeiro tentei esboçar um mapa mental dos meus trajetos na cidade, e junto com minhas irmãs e minha mãe, fomos lembrando dos moradores, de histórias que compunham essas figuras, e nisso pude perceber essas camadas que compoe a cidade, e principalmente o tempo, pois cada uma de nós tinha um foco diferente, lembranças diferentes. Enfim fiz o meu mapa, pontuando todas as casas das quais nos lembramos e seus moradores. Um tempo depois consegui o mapa e ele era completamente semelhante ao que existia na minha memória.

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4- F.P.: No trabalho “Os 7 mares”(2008-2009), série de 7 fotografias de diversas praias do mundo, assim como no trabalho ”Horizonte azul” (2005) a areia do mar ganha relevo e cria paisagens diferentes. Como você pensou estas paisagens de areia?

R.R.: Não posso deixar de lembrar O Livro de Areia, do Jorge Luiz Borges – e todas as metáforas ligadas a areia, a tentativa fracassada de quem tenta retê-la… Daí a idéia de pensá-la como um pixel, cada grão compondo a imagem…Numa viagem a Fortaleza, tive a oportunidade de acompanhar a feitura dos desenhos nas garrafinhas, a maneira como os desenhos eram feitos me chamou atenção, pois era uma espécie de escultura que no fim ficava plana… Esse processo me deu várias idéias, primeiro foi o Horizonte Azul, onde eu usava diretamente a garrafinha, apenas excluí alguns elementos que os artesãos utilizavam em seus desenhos.

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Depois fiz uma série de desenhos de paisagens num formato que se asemelhava a foto Polaroid. Eu queria aí explicitar esse contraste, do desenho construido com o grão de areia e da fotografia instantânea.

Essa idéia também me motivou a fazer os 7 mares – só que nesse caso crio esculturas efêmeras que serão levadas imediatamente pela água, mas que a fotografia trata de paralizá-las antes desse instante.

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5- F.P.: Você tece uma relação muito delicada e instigante, em muitos de seus trabalhos, entre dois campos diferentes; o das artes visuais e o da literatura. Em As palavras e as coisas (2004), você utiliza as páginas do livro de Foucault para formar cubos de dimensões variadas, em Labirinto (2009) as linhas do livro As mil e umas noites são usadas na construção de um desenho de um labirinto. O que é mais importante nestes trabalhos a sua relação com a literatura ou com a materialidade do livro?

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as palavras e as coisas    labirinto

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R.R.: Eu tenho mesmo um fascínio pelo objeto “livro” – para além de lê-lo gosto de tê-lo. Isso se repete em meu trabalho, esse desmebramento do livro, onde o desencaderno, recorto, colo e o transformo em outro objeto, onde seu conteúdo encontra outra forma, para mim, mais adequada. Mas mesmo assim eu diria que o conteúdo do livro é o fio condutor de tudo.

6- F.P.: Há na Série todos os nomes (2006) um cuidadoso inventário de nomes femininos e masculinos, uma verdadeira coleção de nomes. Walter Benjamin tem uma frase especial que situa bem o lugar do colecionador: “a posse é a mais íntima relação que se pode ter com as coisas, não que elas estejam vivas dentro dele, é ele quem vive dentro delas”. Podemos traduzir algo dessa poética na Série todos os nomes?

R.R.: Creio que sim, esse trabalho fiz quando iniciei a leitura de Todos os Nomes – do Saramago, um livro inteiro onde apenas um personagem tinha seu nome pronunciado. Quando construo uma imagem toda composta por nomes, imagino quantas histórias estão ali contidas, quantos passados, presentes e futuros. Na verdade coleciono possíveis histórias. Gosto de imaginar o que de fato está por trás do nome. Nós precisamos nominar, senão seria impossível estabelecer contato, mas o nome próprio, encerra em si graus distintos de subjetividade. Quando tive meus filhos essa foi para mim um incrível experiência, eu teria o poder de decidir como duas pessoas se chamariam, e como escolher ou inventar… dentre milhões de possilidades. Esse trabalho trata um pouco disso, de tudo que um nome compõe.
Vejo esse trabalho para além de sua visualidade, quando em uma exposição o público é tentado a ler os nomes, um após o outro, onde a sua sonoridade, seu ritmo, também ganham forma e dão a idéia dessa multidão contida na obra.

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todos os nomes

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7- F.P.: Tive o prazer de conviver com você e com o seu trabalho desde o final dos anos 90. Lembro bem da instalação Sabão Rio realizada em Santa Teresa, ali a letra já se fazia presente, encravada no sabão, como signo. Esta instalação consistia em um muro feito de pedras do sabão “Rio” que com a ação da chuva se diluiria lavando as ruas de Santa Teresa. Podemos ver reunido neste seu trabalho elementos tais quais: a letra enquanto marca, a água, e os efeitos de diluição que também se apresentam em muitos de seus trabalhos. Qual a importância desses elementos em sua obra?

R.R.: Esse trabalho eu fiz em parceria com o Felipe Barbosa e a Andreia Di Bernardi. Nós ainda não estávamos no Rio, nem tínhamos uma relação muito próxima com o bairro, mas ao vermos o terreno, essa idéia de construir um muro que tornasse a favela invisível, foi imediata… Claro que logo pensamos também no sabão Rio, que trazia a imagem do Cristo, e a palavra Rio… eram muitas metáforas ali contidas, além da barra ser muito semelhante ao tijolo.
Pensamos em algo que tivesse para além de tudo humor e questionamento.

Foi uma obra em que cada um contribuiu com suas referências, mas vejo sim alguns elementos que continuam presentes no meu processo de trabalho.
Em quase tudo que faço existe o momento de apreciar a imagem e ler o contéudo que forma a imagem. O muro oferecia ao espectador leituras diversas conforme sua proximidade. O público primeiro via o muro, a barreira, depois percebia o sabão, o texto. Ele também funcionava com esse movimento do outro, o perto e o longe, o ver e ler, já estavam ali.
O muro após alguns dias foi desfeito, para além da espuma o sabão, se diluiu quando doamos as barras e elas deixaram de ser parte desse texto-muro e voltaram a ser sabão.

8- F.P.: O seu último trabalho, em processo, Lápis Lázuli que tive a oportunidade de ver, agora, é um desenho extremamente delicado, feminino, inspirado em sua viagem à Istambul. Cada desenho é um desenho em si, e se agrupados, cada desenho fará litoral com outro desenho, mas isto não implica uma correspondência entre eles, embora os elementos sejam da mesma natureza. É um trabalho bastante sofisticado com a letra, e embora não se trate propriamente de nomes e palavras observa-se um desenho que podemos aproximar da caligrafia árabe, são arabescos delicadíssimos. Como surgiu este trabalho? Ele é um marco de um novo direcionamento de sua obra?

R.R.: Bom, essa viagem a Istambul foi mesmo muito reveladora – ver o que eu conhecia por livros foi muito bom. As formas da escrita, as cores e espaços. Pude de fato vivenciar uma relação diferente com a escrita. Paralelo a isso, por conta do livro As mil e uma noites, também nutria uma curiosidade pelo oriente, a maneira como lidam com suas estórias e as contam.

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Fiz esse ano uma mostra que intitulei Histórias que cabem na palma da mão – ou poemas suspensos onde apresentei diversos desenhos inspirados nos desenhos de henna, os mehendis, comecei a abordar algumas questões que já estavam formigando dentro de mim, desde de minha mostra A Beleza e A Verdade, onde descobri algumas figuras mitológicas como Penélope e Aracne. Confesso que me fizeram observar minha própria maneira de trabalhar, o funcionamento do meu ateliê, e até a minha maneira de lidar com as questões. E a figura feminina no oriente é cercada literalmente de véus…

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Eu me interessei por esse universo. Tenho pesquisado a poesia árabe, os desenhos…E obviamente essa viagem me fez chegar aos tapetes, onde essas estórias e histórias se encontram, tecidos por mulheres, alguns inclusive no ambiente doméstico mesmo. Eles me mostraram uma nova maneira do texto se revelar, sem necessariamente usar a palavra. Por conta dessa viagem também descobri um autor e particularmente um livro (Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho) que fala justamente da relação da imagem e escrita, e relata o universo dos miniaturistas… Com tudo isso tenho pesquisado esses tapetes e utilizado seus desenhos cheios de simbolismo para reviver e recontar, à minha maneira, suas estórias.

Talvez seja, um momento onde o trabalho ganha novos ares, vejo que estou envelhecendo e procurando, também, ter cada vez mais prazer com o trabalho. Observo que há 10 anos atrás o texto se apresentava de maneira crua, quase insolente nos meus trabalhos, e hoje ele não é mais rebatido diretamente para o público. Eu sou o filtro, primeiro ele me atravessa e daí desponta com outro conteúdo, com a minha leitura, com a minha própria história. Nessa série dos tapetes, que chamo Lapis Lazuli, fazendo referência a pedra azul encontrada na “Persia”, que serviu de pigmento, amuleto…Revivo os desenhos e mais uma vez repito e repito, até que suas formas e conteúdos envolvam meu corpo, e não apenas meus olhos e mãos, possibilitando que aquelas estórias também sejam minhas, ao conseguir lê-las e recontá-las.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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1 comentário
  1. Luiz Dolino disse:

    Mais um belo mergulho, desvendando segredos submerso de um universo tão rico. Parabéns.

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