Yayoi Kusama ou Um corpo: obra inacabada

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Por Andréa Vilanova*

O que é um corpo? O que faz de um corpo um? De que é feito um corpo? As variações de uma interrogação acerca da natureza do corpo podem encher páginas de cogitações, mas não preenchem as lacunas inerentes a nossa possibilidade de conceber o corpo, em termos teóricos, quando se trata da experiência humana.

O próprio substantivo corpo exige que se lhe justaponha um segundo termo para que possa precisar algo e, então, circunscrever o campo semântico que nos interessa. Corpo de atores de uma companhia, corpo teórico, corpo anatômico, são versões que nos permitem vislumbrar a multiplicidade em torno das significações que o corpo pode comportar. No entanto, trata-se especialmente aqui de abordar aquilo a que nos referimos quando tomamos a designação corpo humano, a partir de uma certa perspectiva.

Por um lado o discurso científico nos oferece toda a sorte de suportes teóricos e materiais para assentar o corpo numa consistência que, a nosso ver, tal como nos informam Freud e Lacan, não passa de imaginária. O corpo radiografável, ecografado, capturado nas imagens da ressonância magnética, ou mesmo nas técnicas mais modernas de investigação virtual que oferecem imagens em tempo real de órgãos em funcionamento é um corpo mudo, inerte, está sob a mortalha de programas de computador que pretendem uma transcrição fidedigna de sua realidade.

No entanto, como sabemos, o leitor pode falhar na sua avaliação das imagens. A solicitação de um exame reenvia a outras tantas análises físico-químicas a busca de indícios que, agrupados, possam compor alguma hipótese diagnóstica. Aqui também a interpretação do clínico é crucial, as imagens e os índices não falam por si. Não há transcrição total dessa pulsação em imagens conclusivas.

Haverá algum modo de nos aproximarmos de uma leitura desse vivo que nos habita? Sabemos que aquilo que nos permitirá afirmar que um corpo seja humano será imediatamente sua forma. Desde a etologia à psicologia, inúmeros estudos e experimentos nos asseguram acerca do poder da imagem do semelhante em tantas espécies animais. Na experiência humana a composição que aos olhos se apresenta como uma unidade corrobora esta realidade, mas não a despeito de suas reentrâncias, dobras, perfurações anatômicas ou não, protuberâncias, cicatrizes, contornos que os corpos em movimento nos fazem perder de vista.

No encontro com a obra de Yayoi Kusama, na retrospectiva de 1950 a 2013, com mais de 100 peças, que esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de outubro a janeiro, no Rio de Janeiro, eu me surpreendi com o que a arte é capaz de promover reinventando o próprio olhar. Que o corpo é tema reiterado em sua obra, não há dúvidas, mas o que surpreendeu é o modo singular como o realiza desrealizando-o em sua criação. Obsessão infinita é o nome da exposição que traz, a meu ver, o infinito como índice de uma obra aberta, inconclusa, que fugazmente se materializa como obra com a presença do espectador que aí deixa de lado uma posição passiva de fruição e é convidado a compor a obra através de sua própria experiência.

A variedade de suportes utilizados pela artista e a estruturação proposta pela curadoria encontram-se em sintonia com o que parece ser o significante mestre da mostra: obliteração. Trata-se, segundo palavras da própria artista, de um efeito de sua obra sobre ela mesma, um efeito do fazer contínuo que a soterra no próprio processo. É evidente que, mesmo tratando de seus medos, como afirma, não estamos diante de um ‘eu’ e, portanto, sua obra não é um convite à contemplação.

Logo de início, uma pintura dos anos 50 convida pelo seu nome Corpses, ou seja, cadáveres. Vísceras enoveladas sobre si mesmas, amontoadas, mas ao mesmo tempo pendentes. Não estão circunscritas em uma cavidade abdominal e não são exatamente vísceras. Metonímia e metáfora se sobrepõem nessa obra. Trata-se de restos humanos, ao mesmo tempo em que, de tão humanos, basta este vestígio para que haja um corpo sob os contornos do enquadre da tela. Penso que a obra de Kusama nos oferece um modo de enquadramento que permite redesenhar os limites do corpo, sem nos fixarmos na forma unitária que tanto nos cativa.

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Corpses (1950)

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Vemos em Kusama uma desintegração (obliteração) onde o falo obsessivamente imaginarizado em diversas versões vem se decompor na própria imagem, como por exemplo, nos mil falos infinitizados no jogo de espelhos, na obra Sala de Espelhos Infinitos – Campo de falos. Dentro da obra, somos mais um elemento na cena móvel que não encontra contornos definidos. Ali experimentamos, nos confundimos, nos multiplicamos, nos perdemos de vista. Nesse jogo íntimo e estranho com a nossa própria imagem, que se faz tendo em cena esse elemento fantasmático adornado por bolinhas, pequenos pontos que nos interrogam: onde está o olhar? Trata-se de uma questão de ângulo.

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Na obra Agregação – Mil barcos, 1963, o cartaz anunciando a instalação nos apresenta uma imagem sugestiva, a certa distância, de um pênis anatomizado como numa radiografia. Mais uma vez o órgão fora do corpo encontra no coração / na criação da artista uma ancoragem em formas que brincam com o olhar, recriando unidades inusitadas, unidades compactas em sua fragmentação. Não se trata do corpo despedaçado, como algumas experiências subjetivas nos revelam, uma reintegração responde diante do impossível de integrar o falo no corpo, como sua obra nos expõe.

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                                                                                                                                                                                       Kusama-Aggregation-One-Thousand-Boats-Poster

The Boat

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Kusama dá um tratamento artístico ao fantasmático que se reitera na experiência humana frente a esta libra de carne que a linguagem abocanha em nossa imersão no mundo. De um suporte a outro, da tela às esculturas maleáveis, flexíveis ou não, passando pelas superfícies e pelos próprios corpos encarnados em performances, registrados em fotografias e vídeos experimentais, Kusama nos oferece uma subtração da forma.

A artista nos dá acesso a uma outra dimensão, interna ao próprio imaginário, que de tão inimaginável nos oferece uma via de imaginarização do corpo, meio de soslaio. Comportando a pulsação da vida que habita a criação, a obra de Kusama nos ensina sobre o corpo com esse toque de irrealização necessário, se nos interessa pensar o corpo sob os contornos da psicanálise.

*Andréa Vilanova é psicanalista e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de psicanálise

 

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