O artista por ele mesmo: Pedro Kosovski

Por Fátima Pinheiro*

Pedro Kosovski (1983) – Dramaturgo carioca, formou-se no teatro “O Tablado” onde atualmente é professor. Mestre em Psicologia pela PUC-RIO, atualmente é professor da pós-graduação em Psicologia Junguiana, Arte e Imaginário. Criou, em 2005, “Aquela Cia. de Teatro” – núcleo artístico de criação e pesquisa da linguagem teatral. Escreveu a peça Outside (2011), com Aquela Cia. de Teatro – indicada ao Prêmio Questão de Critica, na categoria Dramaturgia e Prêmio APTR, na categoria Melhor Texto; vencedora do Prêmio FITA de Melhor Texto. Outside foi publicada na coleção dramaturgias do selo Questão de Critica. Escreveu, também, a peça Cara de Cavalo (2012), com Aquela Cia de Teatro – vencedora do Prêmio Questão de Crítica e indicada ao Prêmio Shell 2012 na categoria Melhor Texto – e Enquanto estamos aqui (2012), criação, em parceria, com os artistas Marcio Abreu e Marcia Rubin. Entre os seus trabalhos mais recentes, estão Cosmocartas – Hélio Oiticica e Lygia Clark e Edypop, com Aquela Cia. de Teatro; em cartaz atualmente no Teatro SESC- Copacabana, Do Artista Quando Jovem (2010) e Lobo Nº1 [A estepe] (2008). Foi diretor em parceria com Marco André Nunes de Malentendido, de Albert Camus (2009).


_______________________

1- Fátima Pinheiro: Suas últimas peças Outside, que está em cartaz no Teatro SESC – Copacabana, Cara de cavalo e Edypop são musicais nos quais você homenageia três artistas: David Bowie, Hélio Oiticica e John Lennon. Há uma conexão entre as três peças? Podemos pensar em uma trilogia na sua dramaturgia?

Pedro Kosovski: Há uma estreita relação entre as três peças, entretanto, eu e meu parceiro, Marco André Nunes, nunca pensamos em designar esta sequência como trilogia. Talvez porque o termo “trilogia” sugira um fechamento de um trabalho que acreditamos ainda ter muitos desdobramentos. Testemunhamos na nossa trajetória artística o irromper de fases nas quais nos detemos sobre determinadas técnicas e procedimentos sendo possível traçar internamente semelhanças entre as obras. Eu explico: Outside foi uma inflexão no trabalho da Aquela Cia., pois pela primeira vez colocamos uma banda em cena. A encenação ganhou contornos operísticos e a música passou a desempenhar uma função narrativa. Esses três trabalhos citados por você são marcados pelo signo da música. Vínhamos de trabalhos sobre autores clássicos da literatura como Kafka, Goethe, Hesse e Joyce e sua transcriação para a cena. Consideramos esses primeiros trabalhos como uma fase de formação. De fato, em Outside começamos. A relação entre Outside e Edypop sempre me pareceu mais evidente, pois ambos os trabalhos tem como ponto de partida a obra de artistas com reconhecida semelhança. Bowie e Lennon foram amigos, inclusive compuseram em parceria. Além disso, a língua inglesa e a relação com indústria cultural são termos que permitem uma aproximação direta entre ambos. Cara de Cavalo, por sua vez, é uma chegada em um território nacional e me parece um ponto fora da curva. Os vetores de sua criação apontam além da dobradinha Cara de Cavalo/Hélio Oiticica para Nelson Rodrigues. Assim como Outside e Edypop, Cara de Cavalo é também uma peça musical, ou seja, há a presença dos músicos na cena, canções (em menor quantidade que em Outside e Edypop) e uma trilha sonora que opera um pulso rítmico, mas entretanto, trata-se de uma dramaturgia precisa e seca e não transbordante como as outras duas.

2 – Fátima Pinheiro: Edypop é um neologismo criado a partir de um chiste , conforme você observou em seu ensaio publicado, recentemente, no caderno “Prosa e Verso” de O Globo. Podemos pensar que a peça, na medida em que trabalha com absurdos, estranhezas e com o efeito do cômico, seja ela mesma da ordem de um chiste?

Pedro Kosovski: É um chiste. E somente dessa perspectiva seus absurdos, seus excessos e falta de sentido adquirem força. Há na criação de Edypop a formação de um jogo que desorganiza a linguagem, e sentimos isso concretamente durante o processo. É possível afirmar que foi a criação que menos esteve em nossas mãos, que menos nos concentramos em pensar estruturas, mas sim, criar aberturas de sentido para que as imagens gerassem imagens. Mas como em todo chiste há, em Edypop, um rebaixamento na dramaturgia que não foi possível conter, um mau gosto constitutivo e, isso às vezes me envergonha. Penso em toda a elegância e sobriedade do minimalismo, por exemplo. Era isso que eu pretendia. Mas, não: o chiste ataca e vulgariza. Edypop é vulgar e tenho que baixar a cabeça e me conformar com isso. O que pensar da cena onde Jocasta dá a luz a um pedaço de carne? Extremo mau gosto!

|

1499477_650484431659784_543247785_n

|

3 – Fátima Pinheiro: O que levou você a enlaçar a tragédia grega de Sófocles Édipo Rei com a cultura pop?

Pedro Kosovski: Édipo Rei pode ser considerada a tragédia mais popular. Mas o que nos interessa de fato é certa arqueologia do signo “Édipo”, que é anterior a Sófocles e faz parte da tradição oral do mito. Sófocles, com toda sua maestria, imortalizou Édipo em uma poética. Em nossa pesquisa tivemos contato com incontáveis versões do mito de Édipo, que relativizam a versão oficial do herói que matou o pai e casou com a mãe, pois a oralidade mítica ativa sempre variações. Entretanto, é inegável que a versão oficial de Sófocles foi a que “colou” e sobreviveu no imaginário por milênios até hoje. Isso, sem dúvida, sinaliza algo. O signo “Édipo” atravessou a história da civilização e se prestou aos usos e significados mais diversos; Édipo foi apropriado, adaptado, distorcido e recriado por inúmeros artistas e pensadores. Édipo serve a todos. De Sófocles, Henry Purcell, Stravinsky, Freud, Deleuze e Guattari até o pastiche das novelas brasileiras. Édipo com mil e uma utilidades. Esse é o ponto em que me parece possível traçar cruzamentos com o pop. Após tantas investidas, Édipo se sustenta contemporaneamente – meio coxo como sempre, e pulverizado no senso comum. A meu ver, essa sustentação se deve menos a um suposto núcleo essencial do mito que se preserva, e mais a sua plasticidade e potencial de se adaptar às investidas mais selvagens. Mas com pensar um mito pop? Parece-me uma contradição. Pois o mito remete a imagens da profundidade e o pop a imagens da superfície. O mito narra a trajetória de homens e mulheres ilustres, e o pop é banal, cotidiano e vulgar. Ao mesmo tempo, observamos personalidades, artistas, esportistas da indústria cultural que são designados como mito. É o caso do John Lennon. Daí criou-se o enigma de Edypop: Como conduzir Édipo – o mais pop dos heróis gregos – até John Lennon – o mais edipiano dos artistas pop? Como produzir zonas de vizinhanças entre as imagens da profundidade e as imagens da superfície?

4 – Fátima Pinheiro: Já no final da década de 30 Jacques Lacan, psicanalista, apontou a degradação do papel do pai na família e na sociedade, aspecto que você evidencia de forma clara em Edypop, a partir dos personagens “Laio” e “Freud”. Para você essa é uma questão importante a ser pensada na contemporaneidade?

Pedro Kosovski: Sim, muito se discute sobre a degradação do pai. Mas há um aspecto que nos deparamos na pesquisa de Edypop, que poderia ser mais debatido pois se faz urgente para a atualidade. Laio, em sua juventude, tem uma paixão homossexual por Crisipus, o jovem filho do rei Pélops. Segundo especialistas, esta é a primeira menção à homossexualidade na mitologia grega. O amor entre Laio e Crisipus é condenado e o jovem acaba se suicidando. Após este episódio, Laio gera um filho em Jocasta, cujo o destino será matar o próprio pai e casar-se com a mãe: Édipo. Não se trata de pensar a relação de causalidade entre o episódio homossexual de Laio e o vaticínio de Édipo. Mas talvez se possa refletir sobre essa imagem homossexual de Laio. A degradação da posição paterna deve ser pensada ativamente. O que chamamos de degradação não poderia também ser chamado de fragilização? A fragilidade não é a condição necessária para amar? A relação entre pai e filho é tradicionalmente pensada do ponto de vista do poder, da rivalidade e do aniquilamento do adversário. Pai e filho matam-se. Primeiramente, Laio quer matar Édipo e não consegue e depois Édipo, sem querer e sem saber, mata o próprio pai. Apropriando-se da imagem homossexual de Laio é possível reposicionar a relação entre pai e filho do ponto de vista erótico. Há entre pai e filho, constitutivamente, um primeiro amor homossexual que é negado pela cultura. Isso sim é extremamente penoso e devastador. Em uma cultura heteronormativa são negadas as condições primárias para que o pai possa amar o seu próprio filho, pois homem não pode amar outro homem. Acho que esse aspecto merece um debate mais aprofundado e antecipo que será o tema da próxima peça da Aquela Cia. intitulado, Crisipus.

5 – Fátima Pinheiro: Edypop é, em minha opinião, uma peça muito bem articulada musicalmente, tanto no que se refere ao trabalho vocal dos atores, à escolha do repertório de John Lennon, quanto a composição de quatro músicas realizadas por você em parceria com Felipe Storino. Ao assistir a peça tive a impressão de que a presença da música era a mais pura expressão do trágico em Edypop. O que lhe parece?

|

 edypop_8732

|

Pedro Kosovski: Há dois aspectos implicados na sua pergunta que se articulam, e mais uma vez retomam a contradição entre as imagens da profundidade e as imagens da superfície. O primeiro aspecto remete à tese nietzscheana em que a música é apontada como gênese da tragédia. O segundo remete ao formato que a indústria do divertimento empacota os espetáculos musicais. A apresentação de Edypop é mais a de um show de rock e menos a de um espetáculo musical. Essa é a ideia: conduzir tragicamente o formato “espetáculo musical”, com sua cafonice e mau gosto intrínsecos até a anarquia e o despojamento do show de rock. A música é o elemento que opera esse percurso. Além disso, outras questões aparecem como, por exemplo, pensar a banda de rock sob o signo do coro grego.

6 – Fátima Pinheiro: O complexo de Édipo está ligado de maneira estreita à descoberta do inconsciente para Freud. Essa concepção, a do inconsciente leva em conta a atemporalidade, uma vez que passado, presente e futuro não estão situados dentro de uma perspectiva linear. Em Edypop você faz operar algo muito instigante a partir da atemporalidade, me parece, uma vez que você produz uma síntese entre momentos descontínuos e experiências diversas que não estão ordenados em uma linearidade temporal. Como, por exemplo, vemos a inclusão dos black- blocs na ágora grega criada na peça. O que você pensa a esse respeito?

Pedro Kosovski: Acho que esse pergunta se articula com o modo como penso o contemporâneo e suas correlações de tempo. A singularidade de nosso tempo possibilita despojar toda uma herança cultural de milênios – de Sófocles e Freud, por exemplo – nas expressões mais imediatas, como é o caso dos Black-blocs, sem que esses termos se reduzam entre si e sem que haja sínteses. O que se produz a partir dessas articulações “impróprias” de espaço-tempo são estranhamentos. O estranho é algo que captura minha atenção.

*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

Anúncios
2 comentários
  1. Sarita Olga Gelbert disse:

    Querida Fatima Que entrevista interessante! Fiquei interessada em ver as pecas e acompanhar o trabalho do autor Ele fala de Edipo com leveza e traz novidades Amei! Bjus,Sarita

    Enviado via iPad

    • Fatima Pinheiro disse:

      Sarita, o trabalho de dramaturgia do Pedro é muito interessante, a peça é muito instigante, ele situa um Édipo contemporâneo e pop. bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: