A artista por ela mesma: Marie Cècile Conilh de Beyssac

Por Fátima Pinheiro*

Marie Cècile Conilh de Beyssac é uma artista francesa que vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formada em Arquitetura em Paris, estudou pintura, fotografia, cerâmica, mixed media, instalação e arte interativa. Entre suas principais exposições destacam-se:  Men in Boxes, Design Gallery, Tóquio, 2011; From Above, Gallery Nomadica, Tóquio, 2012; Afetos&Saberes, Escritório de Arte Matha Pagy, Rio de Janeiro, 2013 ; Arte, uma Política Subversiva TAL/TechArtLab gallery, Rio de Janeiro, 2013.

_______________________

IMG_4296

Da série “CREATIONS-TRADITIONS.JP”

|

1-Fátima Pinheiro: Você nasceu na Alemanha, tem nacionalidade francesa e chegou ao Brasil à pouco tempo vinda de Tóquio onde morou durante o período de sete anos. Fale-nos um pouco dessas experiências de viver em vários países e de como se deu a sua entrada na arte.

Marie Cècile Conilh de Beyssac: Eu nasci na Alemanha de onde não tenho nenhuma memória. Do contrário, minha infância no sudoeste da França, com suas florestas, me fizeram amar a solidão; Madrid me deu o amor pelas festas, o Canadá pela natureza, o Japão pelos humanos, e hoje o Brasil me faz amar, por sua vez, a loucura da esperança. Eu sou profundamente francesa o que implica uma certa curiosidade pelos outros. De toda forma, o que é determinante na minha atração em exprimir o indizível, são os momentos mágicos entre dois lugares de migração, os filtros subjetivos do exílio voluntário, a posição muito particular de um estrangeiro que olha sem fazer parte. Eu desejava falar da relação íntima que estabeleço com um novo território e a maneira que ele habita então o meu cotidiano. Foi esse processo que me levou para a Arte, abandonando a arquitetura por essa necessidade de tratar desse estado de “habitar” e mais ainda o de “viver”.

|

Parte central do tríptico %22 wake up%22 - 80cm x 80cm oilo sobre madeira

Parte central do tríptico “Wake up” – 80cm x 80cm olho sobre madeira

|

2-Fátima Pinheiro: O seu trabalho apresenta uma multiplicidade de suportes. Você trabalha com pintura, fotografia, instalações, cerâmica. Em sua casa-ateliê podemos transitar de um ambiente a outro e perceber a riqueza dessa variação de suportes. Como se dá o seu processo criativo, e o que faz você entrar e sair de um suporte?

Marie Cècile Conilh de Beyssac: Essa é uma questão que esta se resolvendo com felicidade, a cerâmica, a pintura abstrata e figurativa, as instalações e meu trabalho conceitual… sinto a certeza de que eles se encontrarão um dia de forma mais evidente. Hoje, eles se encontram, flertes tímidos, mas eu tenho confiança no desenrolar dessas relações. Meu último projeto junta de maneira natural a fotografia, novas mídias digitais (Giff), instalação e, pela primeira vez, a cerâmica junto, tudo a serviço do conceito. No meu cotidiano, os estados de criação de cada técnica, cada mídia, me proporciona o contato com energias diferentes às quais eu não pretendo renunciar, ao contrário disso, eu aspiro fundir essas técnicas e linguagens na minha produção. Por que abrir mão de uma de uma ferramenta ou um material para construir? Na arquitetura falamos: “O arquiteto e artista no tempo da escolha” . Para mim é a multiplicidade de escolhas que me torna criativa. A dificuldade é ter uma linguagem coerente e sensível para conseguir essa união de forma bem sucedida, estou trabalhando neste sentido.

|

Paisagens de atelié, série refllexões 2013 fine art print 42 x 59 cm

Paisagens de atelié, série refllexões 2013 fine art print 42 x 59 cm

|

3-Fátima Pinheiro: É muito interessante a maneira que você dá início aos seus trabalhos aqui no Brasil, através do próprio espaço de sua casa. Você retoma a sua assinatura que é composta de dois pequenos retângulos negros, desenvolvida no Japão, os ten-ten cujo significado é pausa na imagem e a transporta para a paredes de sua casa. Fale-nos como foi essa experiência para você.

Marie Cècile Conilh de Beyssac: Na época em que eu era estudante de arquitetura eu conheci um artista plástico, François Seigneur que colaborava com Jean Nouvel. Me tocava particularmente a forma dele de revelar em seus trabalhos traços de vidas anteriores. Suas fotos e suas intervenções retraçavam o espectro de um móvel, um quadro na parede, um sofá… esses trabalhos me provocaram uma enorme emoção, que me remetia às minhas partidas e chegadas. Esse momento sagrado e suspenso, que acontece no momento de entrar em uma casa vazia, silenciosa, que guarda ainda a memória dos outros… ou a casa que você está deixando com seus próprios traços secretos que só você pode reler. É essa relação intima, e introspectiva com meu ambiente imediato que eu quero explorar, me apropriar.

O que é curioso em relação a este artista é que ele acabou por trabalhar com arquitetura, e eu me tornei artista, enfim, no fim das contas tivemos percursos simétricos. Hoje em dia os trabalhos dele são difíceis de encontrar, eu mesmo passei horas a procurar em vão…

|

"Ausência aguda presençia" SESC Copacabana, Rio de Janeiro, 2013

“Ausência aguda presençia” SESC Copacabana, Rio de Janeiro, 2013

|

4-Fátima Pinheiro: Grande parte de seus trabalhos partem de situações cotidianas, feitas de apagamentos e vazios projetados em paredes, janelas, espelhos, como os trabalhos que você apresentou no Sesc, na mostra Ausência, aguda presença (2013). A casa é o seu suporte maior?

Marie Cècile Conilh de Beyssac: O apagamento, o vazio, a sombra, o esquecimento…. esses são temas que me tocam particularmente. Na Ásia eu tive um reencontro com partes que já eram minhas, um reconhecimento desses valores. Essa consciência de que a acumulação, o cheio, a transparência, o excesso de informações são valores pouco qualitativos. Eu gosto do filtro que me oferece o a mudança de cenário , eu gosto desse lugar construido pela mudança, a leveza que o esquecimento traz. Na França nós utilizamos a palavra bagage – bagagem – para experiência… é uma carga! É engraçado mas para mim o ideal é 1m² por pessoa… guardar o essencial, se autorizar a não compreender tudo, a não saber tudo, não ter tudo! Pegar aquilo que te faz progredir e avançar em si. A casa é sim meu primeiro território e logo vou precisar partir, eu gosto de me saber assim. É essa condição do vazio que me permite ocupar o lugar. Era lógico para mim criar esse diálogo com a casa e esse espaço interno primeiro no Brasil, eu não falava ainda o idioma !!! Agora posso sair, falo portugues (ou quase !) e vou enfim ter agora minha dupla nacionalidade !

 

|

COCOONS3 (1)

Da série “Cocoons”

|

5-Fátima Pinheiro: Você transita também sobre uma variação de escalas em seu trabalho. O primeiro trabalho seu que vi possuía uma escala muito pequena, o que me instigou a pensar em resíduos, fragmentos, como se fossem letras. Você também deposita em saquinhos os restos de seus trabalhos criando assim novos objetos. Isto é algo muito instigante, a meu ver, no seu trabalho, dos restos você cria a sua arte. Como isso se dá ?

Marie Cècile Conilh de Beyssac: O cotidiano e a intimidade é feita de resíduos, de banalidades, de pequenas coisas. Para mim o que importa não é a obra em si mas o seu processo. É como se o trabalho final contivesse esse caminho que uma outra pessoa pode comprar, levar e colocar na sua parede. Esses fragmentos invisíveis constroem meu trabalho ao longo das obras. Dentro dos pequenos sacos, estão os panos com resíduos da minha pintura, eles são leves e em si não valem nada no entanto eles contém elementos importantes da continuação do caminho a seguir.

Para o que trata de escala, e obviamente o japão que me ensinou a olhar os detalhes com especial atenção, as pequenas coisas que fazem a beleza das grandes. Essa relação íntima, reservada, retida. A economia do espaço para deixar o campo livre ao vazio do outro. O Brasil me deu uma grande vontade de abrir os braços, de me libertar, mas é muito cansativo !!! Então eu venho agora com a felicidade do cochicho, o prazer de ver os outros de perto. Eu escuto com alegria o barulho “carioca” e participo também disso com minhas pinturas que se tornaram grandes e coloridas !!

 

|

more details on the blog - Rio art project

Ten-Ten

|

6-Fátima Pinheiro: Você tem um projeto de intervenção em livros provenientes de incêndio, como também cria livros mínimos, que são pequenos objetos, relicários que podemos levar conosco. Esses pequeníssimos livros fazem com que tenhamos com eles uma relação de intimidade não só por conta das imagens contidas neles, mas também por conta da escala diminuta. O que você tem a dizer sobre esses projetos?

Marie Cècile Conilh de Beyssac: Você vai ficar decepcionada, eu não considero esses livros como relíquias, não, longe disso, é mais o contrário, eu queria meus trabalhos mais leves e portáteis… são apenas objetos, nada mais, mas são pesados a transportar, e portanto tento cada vez desmaterializar. Neste projeto, eu maltrato honestamente estes livros magníficos de arte sem nenhum respeito pelos grandes artistas dos quais eles contam histórias. Assim que eles me foram entregues, eu me joguei sobre as duas caixas para sentir a materialidade delas, seu peso, mas rapidamente elas foram um problema para oƒ meu atelier, uma intrusão, uma contaminação. Então comecei como na casa, comecei a inserir neles as mesmas marcas, o ten-ten, sem deixar me distrair pelo conteúdo deles, nem mesmo um olhar! Contaminação, apropriação, e surpresa, uma vez virando suporte, eles me permitiram uma conversa interessante e livre, é um processo em curso, eu ainda não entendi tudo ainda desse trabalho, vai vir com o tempo com próprio processo.

_________________________

*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: