DEPRESSÃO NA PISTA

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Por Antônio Teixeira

Ao pensar como a depressão se alterna com a exigência de satisfação nas rotas de felicidade que hoje se impõem na sociedade de consumo, ocorreu-me a imagem de uma outra intercalação. Eu pensei na alternância de asfalto e crateras das rodovias familiares a todos os mineiros que viajam de carro para o litoral nas férias, que nos obriga constantemente a fazer desvios e mudanças de faixas para chegar a nosso destino.

Conduzindo-me, então, por essa curiosa via, percebi que o problema, ali representado, adquire contornos ainda mais interessantes se pudermos supor, nessa mesma alternância, o caso nem tão inverossímil, sobretudo para quem viaja rumo ao sul da Bahia, passando por Nanuque, em que a extensão das crateras ultrapassa a extensão do asfalto. O que mais aborrece não são tanto os buracos, dizia-me, jocosamente, o motorista de caminhão com quem travei diálogo num posto de abastecimento; o pior mesmo são os pedaços de asfalto que sobram ali dentro. Somos obrigados a nos desviar constantemente dos restos de asfalto que permanecem nas extensas crateras que agora ocupam o lugar das estradas.
Não foi por acaso que resolvi tratar dessa versão extrema para pensar o problema das variações de humor. Ela me pareceu surpreendentemente condizente com a fala de um senhor de cinqüenta anos que se apresentou a mim como um deprimido grave, ao mesmo tempo em que se queixava de sua melhora clínica. Esse sujeito efetivamente depressivo, mas ao mesmo tempo fortemente apegado a sua desgraça, orgulhoso, por assim dizer, do pessimismo que enaltecia como sinal de profunda lucidez, um dia se pôs a comentar, com curiosa desolação, os efeitos de sua recente melhora de humor, na semana em que nascera o seu primeiro neto. “A minha tristeza”, ele me confessava, “é que a desgraça não é permanente e completa, há sempre alguma coisa que insiste em me deixar transitoriamente feliz.” A infelicidade do pessimista, como esse caso exemplarmente ilustra, é que as coisas não vão tão mal assim. Ele parecia perceber, naquele momento, que era preciso se desviar dos restos de contentamento que insistiam em se apresentar, de maneira sempre esparsa, na cratera da depressão em que ele havia configurado sua dor de existir.

Se adotarmos, então, ainda que provisoriamente, o ponto de vista desse interessante paciente, tão afeito a seu sombrio pessimismo, podemos afirmar que a posição depressiva, longe de ser um transtorno do funcionamento mental, como fazem crer os manuais de psiquiatria, pode ser efetivamente concebida como uma experiência de lucidez. Maria Rita Kehl acerta ao dizer que, a rigor, o sujeito depressivo não deixa de ter razão. O depressivo nos expõe, em sua cogitação ruminante, a inconsistência e a precariedade dos laços que nos prendem à ilusão da rodovia sobre a qual se apoia nossa intencionalidade subjetiva. Pois o depressivo bem sabe que o asfalto, para prosseguir nessa comparação, é, quando muito, a materialização transitória e perecível de um semblante de pista, uma improvisação precária e inconstante do que supomos ser um caminho, o qual, no fundo, não passa de um manto provisório de piche que logo se irá com as primeiras chuvas. O que existe, no fundo, como real, em definitivo, é a cratera que se revela na erosão contínua da pista, é a terra lamacenta que ao asfalto se mistura até torná-lo dela completamente indistinto, é o pó, como se diz no Eclesiastes, a que mais cedo ou mais tarde retornaremos todos.

Mas, seja qual for a margem de razão de nosso deprimido, é perceptível que a adoção desse modo de certeza implica numa tomada de posição particular, frente ao real, determinada como uma paixão pelo definitivo, pelo que sempre retorna na figura do mesmo. Tal como se ilustra no caso mencionado por Freud, em seu ensaio sobre a transitoriedade, do triste poeta que deprecia toda beleza da paisagem florescente do verão, por sabê-la fadada ao desaparecimento no inverno, o sujeito depressivo se recusa a usufruir do transitório por antecipar que só a extinção tem permanência. De sorte que quando ele reafirma, em sua retórica sombria, que, no fundo, a verdade da pista é a erosão da terra, que, no fundo, só resta a dispersão inexorável da poeira e a expansão contínua do buraco, o emprego recorrente da locução adverbial “no fundo” não deixa de chamar nossa atenção. Essa recorrência claramente revela sua necessidade sintomática de se ater ao real como constância inevitável do pior, sob as superestruturas ficcionais da linguagem que sempre variam. Ao tomar o real como o que se revela ineludível e constante, o depressivo aferra-se à certeza escatológica de que somente têm realidade os escombros que restam quando todas as operações do semblante terão finalmente se desvanecido.
Dessa paixão pelo resto, enquanto real definitivo, deriva, por sua vez, os efeitos de lassidão ou de negligência em relação a tudo que se assemelhe a uma pista, que convoque algum tipo de intencionalidade. Essa negligência, que na época medieval receberia dos pais da Igreja o nome de acedia, manifesta-se na dispersão ou na falta de adesão do deprimido que tudo observa descompromissadamente, sempre antevendo, nos esforços de construção da estrada, a poeira que jaz sobre a pista erodida. É importante, todavia, não confundir essa dispersão negligente com a atitude alheia do flaneur presente na lírica de Baudelaire. Ali, o comportamento errante do dandi traz consigo o desígnio secreto de se distinguir dos demais, de não pertencer à multidão com a qual se mistura. Já a negligência depressiva diz antes respeito à evasão da mente, descrita por Agamben, em “o demônio do meio dia”, como condição do sujeito que se tornou incapaz de perseverar ou de aderir a qualquer projeto, disperso no discorrer de fantasia em fantasia.
Pode-se, aliás, encontrar uma representação contemporânea dessa evagatio mentis nos Ensaios de Escola, de Teodoro Assunção, quando ele descreve a experiência do telespectador insone, armado de seu telezapping, que troca incessantemente de canal sem conseguir se fixar em programação nenhuma. Interessa-nos particularmente notar, na descrição dessa experiência múltipla, que o signo que se revela no leque absurdamente diversificado de programações da TV a cabo, seja mais uma vez a repetição do mesmo: “No interior (ou mais precisamente na superfície) de um universo variado de imagens e falas regido pela pressão mercadológica de produzir novidades, está a triste sensação de mesmidade. Dos fragmentos assim recortados, a memória que resta no dia seguinte é opaca e confusa e se assemelha estranhamente à memória de qualquer outra madrugada no zapping televisivo”.

A multiplicidade de informações variadas que a sociedade de consumo oferta ao culto contemporâneo da distração, resume-se assim na uniformidade monótona da massa de fragmentos marcada precisamente, como nota Teodoro Assunção, pela ausência ou nulificação de qualquer virtude informativa. Nesse sentido, se a finalidade da cultura de massa é efetivamente, como já observara S. Kracauer, a de nos manter ao máximo distraídos, amarrados à periferia das informações dispersas, para que não nos precipitemos no vazio dessa nulificação, a queda na condição depressiva, a seu modo, revela a falência ou a insuficiência desse evitamento periférico. Não deve, por esse motivo, nos causar espanto que a sociedade de consumo se recuse a recolher na experiência depressiva qualquer tipo de ensinamento, tratando-a ora como um transtorno a ser corrigido quimicamente, ora como um padrão adaptativo errôneo. A negligência do deprimido traz à tona a verdade subjacente ao culto da distração do qual a ideologia do consumo não quer saber, no sentido em que ela expõe, sob a vertente das direções múltiplas ali ofertadas, a mesmidade tediosa e nula da direção nenhuma.
Mas como pensar, então, desde a perspectiva psicanalítica, o problema da condição depressiva, seja no que diz respeito ao valor de verdade que essa experiência encerra, seja no que concerne à posição que a ela mesma adota em relação à percepção contemporânea da depressão? Diríamos, para irmos direto ao ponto, que a psicanálise efetivamente não reprova a depressão, como o faz o conjunto atual de nossa sociedade de consumo, que de fato ela concede sua margem de razão ao sujeito deprimido. Mas, não sem acrescentar que muito embora reconheça o valor de verdade que o sofrimento depressivo revela, no que concerne à condição de desamparo inerente ao ser falante, nem por isso a psicanálise deixa de formular um julgamento ético sobre a depressão. Esse julgamento ético diz respeito ao questionamento endereçado à lassidão depressiva, a propósito da paixão escatológica pelo mesmo, na forma da ruína, que o sujeito tomado por sua verdade pretende exibir no fundo de toda experiência.

Pois, ainda que a psicanálise consinta, até certo grau, com a posição depressiva, afirmando que efetivamente nada na vida e no mundo faça por si só sentido, que toda geração de sentido certamente se suporta de algum tipo de ficção discursiva contingente e provisória, ou ainda, que toda estrada, para voltarmos à ilustração do cartaz, nada mais é do que a materialização precária e variável de algum tipo de semblante, esse mesmo semblante nem por isso deve ser negligenciado pelo psicanalista. O semblante do qual o depressivo descuida, por ser variável, contingente e transitório, deve ser objeto de cuidado do psicanalista por essas mesmas razões. Se ao analista importa expor a natureza de semblante das determinações discursivas que definem o modo de existência do analisante, é pela razão prática de que somente ao trazer à luz a contingência dessas determinações que ele permite ao sujeito tanto desconstruí-lo, como se reposicionar mediante o agenciamento de novos modos de configuração. Mas isso não significa que a psicanálise desqualifique o semblante por ser necessariamente ficcional, contingente ou transitório, nem tampouco que ela pretenda, em sua prática, produzir um sujeito desancorado de qualquer relação ao semblante. Assim como, para Freud, seria um erro supor que a transitoriedade de alguma coisa implica sua perda de valor, como faz crer o jovem poeta pessimista mencionado em seu ensaio sobre a Transitoriedade, incapaz de usufruir da paisagem de verão por antecipar sua extinção no inverno, o psicanalista sabe, em sua prática, que é precisamente por ser ficcional, contingente e transitório que o semblante admite ser desconstruído, mas que nem por isso ele deve deixar de ser objeto de zelo e atenção. De sorte que, ali onde o deprimido, em sua paixão pelo permanente e definitivo, desapega-se dos valores ficcionais transitórios e contingentes, enunciando a conhecida fórmula deceptiva: isso não passa de um mero semblante, o analista responde com a advertência: atenção, frágil, esse lado para cima; isso pode ser desmontado, mas cuidado: parece ser um semblante banal, mas pode também ser um espécime raro de semblante, em vias de extinção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, G. [1942]. Estâncias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
ASSUNÇÃO, T. Ensaios de escola. Belo Horizonte: 7 Letras, 2003.
FREUD, S. [1915]. “Vergänglichkeit”. In G. W. Londres: Imago, t. X., 1999.
KRAKAUER, S. [1963]. O ornamento de massa. São Paulo: Cosac Naify, 200

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