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Colaboradores | Darlan Montenegro

Por Darlan Montenegro*

Há dois tipos de discurso anti-Copa. Um é de esquerda, anticorporações. O outro é despolitizado e conservador. E o diabo é que se misturam. E isso produz confusão.

O primeiro se opõe à Copa (e aos megaeventos) por seus efeitos evidentemente deletérios para grandes parcelas das populações mais pobres das cidades, em especial as remoções e a reconcentração de recursos e equipamentos nas áreas mais favorecidas dessas mesmas cidades. Junta-se a isso o regime efetivamente de exceção (suspensão dos direitos constitucionais, em favor do “direito” da Fifa de “gerir os seus negócios”, durante a Copa). O governismo acrítico finge que nada disso existe. E se engaja na genuflexão boboca da “palavra de ordem” do “vai ter Copa”.

Mas o outro lado também é preocupante. Em primeiro lugar, o discurso de que, por conta da Copa, não há dinheiro pra saúde e educação é, por princípio, desinformador e, como consequência, despolitizante. Ele desinforma e despolitiza porque atribui a algo que é efêmero e, comparativamente, custa muito pouco (a Copa) uma carência de recursos que, na verdade, se deve a um gargalo estrutural da política macroeconômica brasileira, que é a submissão ao capital financeiro através do pagamento da dívida. Ou se discute a dívida pública, ou não se discute qualquer transformação importante nesse país. Quase tudo o mais em que se possa mexer é cosmético. Aquilo que de mais significativo os governos petistas conseguiram fazer foi justamente aquilo que permitiu aumentar os gastos do Estado. E não fizeram mais do que fizeram justamente porque não enfrentaram o tema da dívida e do superávit primário seriamente.

Insistir na ideia de que é a Copa que drena esses recursos ajuda a escamotear o problema central, que é muito mais sério e de dificílimo tratamento. Requer força social unificada e apoio popular. Não é de um evento que se trata. É de uma política longamente construída. Negar esse fato é despolitizar a questão.

Há um outro aspecto profundamente conservador num certo discurso anti-Copa: estão requentando a oposição entre “consciência política” e o gosto pelo futebol. Circula, desde o dia em que o Felipão anunciou a convocação final, uma imagem que substitui, num campo de futebol, os nomes dos jogadores por palavras de ordem como “educação de qualidade”, “saúde para todos” e coisas assim, na linha do “essa é a verdadeira seleção que precisamos!”. Isso é bobagem. É perfeitamente possível gostar de futebol, torcer pela seleção e ir pra passeata, defender mais gastos em saúde e educação e xingar o governo.

Junto com essa imagem, circularam, também, várias mensagens, na linha do “ah, como seria bom se o povo soubesse votar como sabe criticar escalação…”. Essa é totalmente na velha linha preconceituosa do “povinho estúpido que só entende de futebol”. Demofobia disfarçada de politização. Um troço horroroso.
O curioso é que um monte de gente de esquerda compartilha essas sandices. A mesma gente de esquerda e de classe média que não abre mão dos seus próprios escapismos, mas que acha que escapismo de pobre é atestado de ignorância política. Não é.

A mistura desses dois tipos de discurso tem produzido um monte de maluquices, quando o assunto é a Copa. E essas maluquices favorecem a direita (seja em que campo ela estiver, inclusive no campo governista) porque impedem que se foque a crítica nas características evidentemente reacionárias dos megaeventos.

 

*Darlan Montenegro é doutor em ciência política pelo Iuperj professor de teoria política da UFRRJ.

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