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Cara leitora, caro leitor,

O Blog da Subversos mudou de endereço. A partir de março de 2015, 

publicaremos no endereço 

subversos.com.br

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Existem escritores que fazem da escrita um campo da palavra, outros um campo da letra. Esses últimos são aqueles que operam com as letras a tal ponto que marcam na escrita algo do impossível da língua em relação aos efeitos de sentido. Homero Mattos Jr é um escritor que leva às últimas consequências o limite entre a letra e o nada, algo que Banchot definiu como “o ponto onde o infinito coincide com lugar nenhum, escrever é encontrar esse ponto”[1].
Esse ponto ocorreu-me chamá-lo de haumscritos[2], uma vez que todo um é suscetível de se escrever como uma letra, aquilo que diz respeito ao irredutível, aquilo que não se diz, que não se pensa e que a escrita tenta encontrar.

A coluna in situ: o artista por ele mesmo do blog da Subversos fecha o ano de 2014, com muita alegria e presenteia os seus leitores com algo muito especial, a escrita de Homero Mattos Jr, ensaísta paulista, que escreve em dois blogs Koyaanisqatsi e Sintaxeamentos, e que de maneira singular, com a sua arte, nos faz ser tocados com o que se desprende de suas letras. Boa leitura e felizes festas!

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[1] Maurice Blanchot. O espaço literário. Rio de Janeiro:Rocco, 1987, p.42

[2]Maria Fátima Pinheiro- O saber do artista e a prática da letra. Tese de doutorado/UERJ- 2014

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¿tal qual?

[ coraçao na mao poe edgar dormindo quando menina-o o chao das batatinhas ]
l.wittgensteinrue the rose sunk
paris-áustria
telefone 19091981novesfora

KITAB AL-BULHAN OR BOOK OF WONDERS (LATE 14THC.)

KITAB AL-BULHAN OR BOOK OF WONDERS (LATE 14THC.) – Via Pere Salinas

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. vindo ou indo giramundo o mundo vira porquanto rodopia alinhando letrâncias desviantes posto regra nenhuma tem este que em casos de permanente só o vigir plural do não perpétuo faz evolver tal qual o quê ao feitiço atrativo do amor decorre  como de exemplo exemplar lhe aconteceu querendo o querer de imensas inquietações das que por não vezes acontecer soi onde o só falar de liberdade em condicional diz o dizer de modo a viver o sim o se faz e não o se pensa é isto assim no presente imperativo condicional no dizer tudo isso palavras outras de incerto passado nu falou ó teu olhar oculto lo mirar y comer quererei e quis e ¡quero porque ¡quisô! pois assim ajuda melhor entender os sentimentos por direta experiência por dar se aprendendo alegre ou triste por não condizer modo algum de normalidade tamanha e tanta empatia foi que mais ler quis não temendo se espatifar esse ser frágil coisa eterna cuja sagração secreta é se manter mudando sempre o imperfeito infinito mutável fluxo agitado porque letra é seu inconsciente como escura noite real a encobrir indefinidos por iguais alvorecer ou crepúsculo no curto tempo ao menos modo tornar se impossível saber se de momento em qual está [¼]si[½] reverso no tamborilante rimbaumbar poético do dois em um musical esferado girante terrenar rotundo ou lunando negro três vezes dez trinta ou trinta + uma branca shining cheia moon is hoje !?! me instrua amanhã talvez depois ? quando… o sol o segundo rimbaumbando chegar além no amanhã onde lá bambam estes sidney o sheldon y conejón el mágico prestidigitador lo mismo querem saber ? there is more ¡aleluia aleluia aleluia! ¿acabou? ou tem mais de cositas ôtras muchas pequititicas de fato o feito é que do saber querer pretenso em palavras por assim expressar desejou as ele como tais apenas doidas literariamente ainda que mesmo tais propriamente não as descrevo aqui porém repare[½]emoção[¼] a pendular fez muitas letras focar

 

 , Dear

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[½ ] puesto los sábios dan por sentado ser cosa absolutamente impossible haber cristalino espejo que una baiana no lo pueda enviar de parte cualquier

[¼]  somewhere there was once a flower, a stone, a crystal, a queen, a king, a lover, and his beloved, and this was long ago, on an island somewhere in the ocean five thousand years ago… such is love, the mystic flower of the soul. this is the center, the self. nobody understands what I mean. only a poet could begin to understand.

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Escrivata

para teclado&monitor
em menor Solmaior maior e  Simaior

Al-Sufi, Book of Fixed Stars, Iran 1675, The David Collection (Copenhagen)

Al-Sufi, Book of Fixed Stars, Iran 1675, The David Collection (Copenhagen) – Via Pere Salinas

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Pere Salinas - Visión china de la bóveda celeste

Visión china de la bóveda celeste – Via Pere Salinas

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adágio bandido

me escreve ela pediu e ele então começou a escreve-la kent de seus nevers knowns befores e cools de já vis de outras tantas franças impressionistas amáveis e revoltosas marias de sal e rosaromáticas espanhas de ouros a matar mouros e touros a paus copas e espadas de irredentas itálias e indomáveis brasis amantes só escrevendo escrevendo escrevendo o tempo todo escrevendo. e beijando. beijando beijando escrevendo escrevendo beijando e escrevendo escrevendo escrevendo até de tanto  escrever mais não poder.

parado neste instante[½]

guardando letras pra mais muito masmuito mais tempo preservar o não perder o si impassível possível sem deixar explodir o crescendo que já de novo quer outra vez escrever agora si orientando mais zen menos zoom de cabeça pra baixo e pernas pro ar mais lentamente ir escrevendo explorando incensado sensato nem tanto escrevendo escrevendo beijando sobre e sob tântricas índias suaves nippons evanescentes cochinchinas sussurros e cantos gemidos de nãos consentidos e sins sem sentido beijando escrevendo escrevendo escrevendo todas as línguas do mundo luxuriando per caracterem ó sic mea fata canendo dolor escrevendo escrevendo escrevendo escrevendo  oh me ! oh my ! esse se perde se acha do si deixando se ir nesse verlieren den kopf  puf schrupppp krupp sukiaky aranjuez aranjuez ! mon amour beijando escrevendo beijando escrevendo escrevendo beijando escrevendo beijando beijando beijando escrevendo mais não vai dapraguentá meu deus isto é quero mais tanto tanto si dar-te segurar não dá mas mais mais é páragora !
e foi por fim assim no final exaustada toda escrita ele a deixou.

Em maio de 2010, o Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro e a Seção-Rio da Escola Brasileira de Psicanálise organizaram o colóquio Figuras Lacanianas da Crueldade: Segregação, Ódio e Gozo, coordenado por Marcus André Vieira e Romildo do Rêgo Barros. Participaram do colóquio Antônio Teixeira e Ram Mandil, psicanalistas de Belo Horizonte, Ana Lucia Lutterbach Holck e Cristina Duba, psicanalistas do Rio de Janeiro, Cláudio Oliveira, filósofo da UFF  e o sociólogo Luiz Eduardo Soares. Do trabalho ali realizado, entre os textos apresentados e um vivo debate, tensionados entre o extremo da clínica psicanalítica e impasses da civilização, surgiu a ideia de se confeccionar um livro, Ódio, segregação, e gozo publicado pela Subversos em parceria como o Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro em 2013.

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Ódio, segregação, gozo, ato, capitalismo, burocracia… pontos limites que foram costurados por um fio de delicadeza.

Convidamos nossos leitores a revisitar estas figuras lacanianas da crueldade em um evento preparatório para o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: trauma nos corpos, violência na cidade:

Cartaz Prep OSG 3

Gabriel-Garcia-Marquez-FB

Por Luiz Dolino*,
Outono, 2014

Em dois momentos desfrutei do convívio com esse gênio da literatura.

A primeira vez ocorreu em Havana, 1988. Estava em Cuba acompanhando uma missão comercial, quando, num domingo preguiçoso, fomos almoçar num paladar, como são chamados alguns locais em que nada denuncia o seu perfil comercial – na verdade um restaurante familiar. Nesses ambientes, o cliente desfruta do que de melhor é possível produzir numa cozinha precária e sem acesso a farto ou mesmo variado material para o consumo.

Tudo transcorria como previsto. A casa dispunha de jardim com um amplo gramado e o nosso grupo foi acomodado debaixo de um caramanchão polvilhado de hibiscos floridos – eramos os únicos. Iniciados os trabalhos, mojitos, mani, jogávamos conversa fora. Eis que identifico, atravessando o prado, um casal. Ela de vestido branco comprido, certamente de origem mexicana. Ele com a indefectível gayabera, camisa típica da região caribenha. Não tive dúvida e anunciei: está chegando o Gabriel Garcia Marques.

Tranquilos, silenciosos, ocuparam uma pequena mesa a curta distância da nossa. A partir daí acometeu-me a dúvida: falo ou não falo. Respeitarei ou não a privacidade? Difícil escolher. Como deixar passar uma oportunidade como essa? Decidi depois de amplas consultas ao grupo. Escreveria um bilhete e pediria ao rapaz que estava nos atendendo que levasse o torpedo. Assim foi feito. Na posição em que me encontrava à mesa não dispunha de ângulo que favorecesse a visão da cena. Esta me foi descrita por um amigo do lado aposto ao meu: entregou, ele colocou os óculos, leu, guardou no bolso da blusa. Portanto, nada a fazer.

Lembro que, no meu recado, eu caprichei no castelhano para dizer: sou fulano, seu admirador, de profissão pintor. Queria cumprimentá-lo, mas, sobretudo, respeito a sua privacidade. Como não logrei sucesso, confesso que acabei esquecendo da ilustre presença às minhas costas. Nosso festim seguiu seu curso natural, muita conversa, muita risada e boa comida, regada com o melhor rum da ilha.

Estávamos nos licores quando percebi que uma mulher se encaminhava para o portão no fundo do jardim. O assunto da vizinhança com Gabo voltou à baila e eu percebi, ato contínuo, uma presença ao meu lado. Era ele quem perguntava: quem é o pintor brasileiro que me mandou um bilhete? Sorridente me identifiquei. Nesse momento chegava a bandeja com mais bebida e café. Convidei-o para um brinde.

Na verdade, a resposta do escritor não foi nada simpática. Ele olhou para o próprio pulso e disse que tinha 5 minutos para nós. Em condições naturais de temperatura e pressão, eu teria arranjado um jeito de dispensar. Mas, como se tratava de quem, preferi insistir. Ele aceitou um cálice raso e brindou conosco. Não sei como, a partir desse instante mágico, engrenamos numa conversa. Depois de muitos 5 minutos, meia hora talvez, sem remédio, vi que a mulher retrocedeu, até porque o marido já estava abancado às gargalhadas conosco.

Quando Gabo se chegou a nós, eram 4 horas, talvez. Anoitecia quando ele disse: agora me vou! Onde vocês estão hospedados? No Hotel Nacional. Pois bem, amanhã, por volta das 11 horas, passo por vocês para seguirmos juntos para visitar San Antonio de los Baños. Iríamos conhecer a escola de cinema mantida pelo escritor.

O dia seguinte foi ainda mais rico que o anterior. Gabo, com mil compromissos, foi generoso em nos levar, mas, no local, nos deixou a cargo de um guia. Foi ótimo assim mesmo. Nesse encontro, dei-lhe uma gravura. Agradeceu e disse: seu trabalho vai ficar aqui na escola.

Dez anos passados, estava na Índia.

Fui hóspede de uma farm house, distante, portando, do centro do Nova Deli. Lá, tinha a meu serviço exclusivo um empregado a quem nada tinha para pedir. Ele me acompanhava silencioso como uma sombra. Chegava a ser incômodo. Fiquei uns dez dias. No último, tinha que pegar um voo tardio rumo à Europa. Nessa noite, precisei do serviçal. Confessei-lhe não saber dobrar camisas e pedi ajuda, sendo prontamente atendido.

Estabelecido o diálogo mínimo, sou surpreendido pela pergunta: o senhor é artista, não? Sim. Ele disse num inglês precário: eu sei, tem um quadro seu na sala do patrão e vi também um livro sobre o seu trabalho editado em francês e inglês. Sorri. E o jovem prosseguiu: você é amigo do Gabriel Garcia Marques, não? Disse que não, provocando uma expressão de perplexidade no seu rosto ingênuo.

O rapaz então tentou explicar a sua incompreensão ante o fato de eu ter uma foto no meu livro abraçado ao escritor sem que fosse amigo. Contei que, entre nós, na nossa cultura, essa imagem possivelmente não tem o peso, a mesma importância que tem entre os hindus. Senti, no entanto, que não convenci. Deixando de lado esse aspecto absurdo para ele, continuou: você já leu Cem anos de solidão? Disse que sim. Ele então me contou que encontrou o livro na biblioteca do patrão e que a sua leitura tinha modificado a vida dele, a ponto de convertê-lo em escritor… Queria saber se Gabo teria escrito outros romances em inglês. Esclareci que a obra foi toda produzida em espanhol e que certamente havia tradução de tudo.

Agora, era a minha vez. Perguntei-lhe em que idioma escrevia. Disse que em pradesh, língua falada na remota região em que havia nascido.

Imediatamente ponderei sobre a dificuldade daqueles que se expressam por meio de idiomas periféricos, como no nosso caso. Ele, não se dando por vencido, argumentou que essa limitação seria transitória, dado que, no futuro, ele encarnaria alguém com uma possibilidade maior de comunicação.

Eu precisava calar-me. Não consegui. Achei que ele merecia a minha opinião sincera. Disse então que, como procedíamos de culturas tão diferentes, ele teria que aceitar a opinião de que, no meu caso, a hora é essa. Sem chance de outra rodada. Ele ficou estupefato. Parecia dizer: que besta, que primata! Fazer o que?

Mais alguns anos, voava de Bogotá para Cartagena das Índias.

Quem adentra no avião? Gabo.

De novo a mesma sensação – falo, não falo. Falei.

Depois da decolagem, cheguei mais perto, me identifiquei, logo dizendo que ele não deveria se recordar de que em Cuba… Ele cortou e disse que sim, lembrava. Lembrava até da gravura que deixamos em San Antonio.

Disse-lhe então que tinha vivido na Índia uma experiência extraordinária e que gostaria de contar. Autorizado, prossegui com a novela. Esperava que o escritor se comovesse. Afinal, nos confins do mundo para nós, latino-americanos, um jovem pradesh modificou o curso dos seus sonhos após o contato com a sua obra. Nada. Gabriel Garcia Marques apenas sorriu. Inconformado, perguntei: você não acha toda essa história fabulosa? Não, respondeu seco. Acrescentando, depois de uma pausa teatral: é que sou como esse moço…

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*Luiz Dolino é artista plástico – http://www.dolino.net – e escrever pro Blog da Subversos.

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