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Coluna de Cinema 2012 BW

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Por Bernardo Oliveira*

A afluência de festivais de cinema, a explosão do cinema independente e da prática de “baixar” filmes vem abalando uma regra tácita para as listagens de fim de ano: convém levar em consideração os filmes que tiveram estreia em salas brasileiras. Neste exato momento, das 2200 salas de cinema em todo o Brasil, mais da metade estão ocupadas com o novo James Bond e mais um filme da saga Crepúsculo. Esta situação (a “situação colonial”?) torna a experiência do cinéfilo indisciplinado ainda mais truncada.

Quando um filme como Hahaha de Hong Sang-Soo estreia aos 45 do segundo tempo, em uma das poucas salas que restam, já foi visto, revisto, analisado através de arquivos .avi com resolução bastante “razoável”, catados aos montes nos blogs especializados. O cinéfilo mais rigoroso evita assistir os filmes dessa forma, preferindo aguardar as salas de cinema, mas nem sempre é possível fazer de outra maneira. Filmes importantes como Once Upon A Time In Anatolia (Nuri Bilge Ceylan), Tabu (Miguel Gomes), Take Shelter (Jeff Nichols) e O Cavalo de Turim (Béla Tarr) ou passaram correndo, ou não passaram pelos festivais. E não me perguntem se há previsão para estreia nas salas…

Por outro lado, é praticamente impossível sustentar uma instância avaliadora universal, sob pena de deixar passar muito do que vem sendo feito mundo afora. Assim, esta lista, como toda lista, é provisória, parcial e, sobretudo, afetiva. A minha, como manda o figurino mais tradicional, leva em consideração os filmes que estrearam em salas brasileiras, no Rio particularmente. Dos filmes sobre os quais já escrevi algo, selecionei trechos, bem como alguns comentários nas redes sociais e outros, lidos por ai.

Passemos à lista.

Bernardo Oliveira

Ps.: Não há ordem de preferência.

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Um alguém apaixonado [Like Someone in Love, Japão/França, 2012], de Abbas Kiarostami (Imovision). Gênero: drama. Elenco: Ryo Kase, Rin Takanashi, Tadashi Okuno. Duração: 109 min.

Um estudo bem humorado e, ao mesmo tempo, impiedosamente mordaz (como?) sobre relações interpessoais, mal-entendidos e comportamentos anômalos no Japão contemporâneo. Um leve mal-estar perpassa todo o filme, em virtude do absoluto desentendimento entre todos os personagens. Uma simples tarefa como ir na calçada e retornar ao carro não se completa sem uma interrupção incômoda — o inferno são os outros! Metáfora das relações interpessoais nos grandes centros urbanos? E me calo por aqui, pois trata-se de um filme repleto de surpresas.

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L’Apollonide – Os amores da casa de tolerância [L’Apollonide – Souvenirs de la maison close, França, 2011], de Bertrand Bonello (Petrini). Gênero: drama. Elenco: Hafsia Harzi, Noémie Lvovsky, Jasmine Trinca. Duração: 125 min.
“Trata-se de um ensaio sobre o sequestro do corpo e do desejo feminino no contexto de um prostíbulo francês na virada do século XX: a violência estampada no sorriso trágico da ‘mulher que ri’, a violência científica encarnada pelos prognósticos médicos, os movimentos maquínicos da mulher-boneca, a ressaca do ópio, o ar dolorosamente teatral que pesa sobre o ambiente, o contraste com a puerilidade brutal do desejo masculino e até mesmo as piadas (“Putain est un métier de putain…”), das quais elas se riem adoravelmente…”

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Cosmopolis [Cosmopolis, França/Canadá/Portugal/Itália, 2012], de David Cronenberg (Imagem). Gênero: drama. Elenco: Robert Pattinson, Paul Giamatti, Juiliette Binoche, Jay Baruchel. Duração: 100 min.
Um passeio de limo pelas neuroses espaço-temporais na era do cibercapital: “Ao endereçar suas questões a um futuro que é, antes de mais nada, depositado sobre o presente (o instante, o acontecimento), Cronenberg se vê obrigado a dar ao expectador mais do que um ‘sentido’ ou uma “representação’. Em cada plano, temos uma hipercomposição, que embora possa parecer excessivamente estética, se apresenta carregada de paradoxos.”

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Fausto [Faust, Rússia], de Aleksandr Sokurov (Imovision). Gênero: drama. Elenco: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, George Friedrich. Duração: 134 min.
“Misticismo algum pode ter valor”, afirma Sokurov, ao explicar a quarta parte de sua tetralogia sobre homens políticos — que Fausto seja o único personagem fictício já explica muita coisa… De fato, seu filme não se esconde, mas fede, apodrece, exala fumaça de enxofre para cegar e sufocar o espectador. Sokurov perpetra uma abordagem crua deste mito central na modernidade literária, mas opera de forma sutil nas fronteiras da linguagem, da imagem e da palavra — não seria toda a arte contemporânea “interessante” em virtude das sondagens desta condição limítrofe? Um filme que explora com engenho, cinismo e beleza, as entranhas das obsessões humanas.

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Hahaha [Coréia do Sul, 2010], de Sang-soo Hong (Pandora). Gênero: drama. Elenco: Yeo-jeong Yoon, Sang-kyung Kim, So-ri Moon. Duração: 116 min.
No calor e na descontração da mesa de bar, dois amigos põem a conversa em dia. Entre goles e petiscos, um brinde (“saúde!”)! É o refrão que pontua as histórias de uma viagem que ambos fizeram para o mesmo local, sem perceber que travaram relações diferentes com as mesmas pessoas. Mais um grande filme de Hong Sang-Soo, que cativa pela costura engenhosa, e pela sucessão de episódios imaginativos e com um forte grau de imprevisibilidade.

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Habemus Papam [Itália/França, 2011], de Nanni Moretti (Vinny Filmes). Gênero: drama. Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Margherita Buy. Duração: 102 min.

É uma comédia? Uma crítica? Um poema? Que importa?… E que grande ator é Michel Piccoli! Não me arrisco. Deixo com vocês o poema-crítica do Jean-Claude Bernardet, que se não resume o filme, mas nos dá os caminhos para compreendê-lo para além da comédia:

“O pânico do papa sabota o próprio papa; um filme sobre o desejo de um homem velho que o mundo continue a passar — mas, por favor, o deixe em paz. No camarote de um teatro ou num ônibus; um filme sobre a ineficiência da terapia psicanalítica na nossa sociedade; um filme sobre ansiolíticos. Embora mais complexo, é um filme próximo de Românticos Anônimos, que também falava da tribo Rivotril; um filme sobre o perigo de misturar ansiolíticos, soníferos e antidepressivos; um filme sobre a vergonha de estar dependente dessa medicação – é só se lembrar do rosto abaixado do cardeal que um dedo aponta.”

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Holy Motors [França/Alemanha, 2012], de Leos Carax (Imovision). Gênero: drama. Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue. Duração: 115 min.
Aparentemente mais um passeio delirante de limousine, desta vez pela Paris do século XXI. Mas a semelhança com Cosmopolis termina aí. Enquanto no primeiro tudo é questão de pele, temporalidade e desajuste, em Holy Motors quem dita as regras do jogo é o sonho, o “tudo pode” da imaginação, o não-lugar, a “desidentidade”, hiperficção. Em um dado momento, um dos “intermediários” (Michel Picolli) pergunta a Oscar (Denis Lavant, sensacional!) a razão pela qual ele segue seu trabalho. Oscar responde, como se explicasse o conteúdo do filme: “pela mesma razão que me fez começar: a beleza do gesto…

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O Homem que Não Dormia [Brasil, 2011], de Edgard Navarro (Pandora). Gênero: terror. Elenco: Bertrand Duarte, Evelin Buchegger, Fabio Vidal, Mariana Freire. Duração: 98 min.
Desde O Superoutro, o cinema de Edgard Navarro conserva duas direções gerais e simultâneas: a afirmação do tropicalismo, da antropofagia e da “questão nacional”, e a necessária superação destas ideias e seus dilemas. O Homem que não dormia é mais um filme formidável que reafirma a tensão entre essas duas direções — e vai além. As estratégias alegóricas apreendidas com Glauber Rocha, tornam-se metáforas pregnantes e auto-irônicas, misturando sexo, mito, política na cidade de Igatú, Chapada Diamantina, Bahia. A antropofagia não conduz necessariamente para a linguagem da cidade e do “desenvolvimento”, mas para o interior do Brasil, o interior como princípio e metáfora: “Falo, quase por parábolas, sobre um tesouro enterrado há tempo, mas que é, na realidade, um paralelo entre o mundo material e o espiritual.” (Edgard Navarro)

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Moonrise Kingdom [EUA, 2012], de Wes Anderson (Universal). Gênero: comédia. Elenco: Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton. Duração: 94 min.
Pierrot Le Fou reloaded no coração de uma pequena ilha localizada na costa da Nova Inglaterra: criancas desajustadas transformadas em heróis da poesia pelas mãos de um cineasta ambíguo. O parentesco com a obra-prima de Godard não cessa de se articular com toda as tendências costumeiras dos filmes de Anderson: a crítica social, o equilíbrio improvável entre graça e amargura, amor e violência, planos estrategicamente centralizados reforçando a condição central dos personagens. Aqui, como em Pierrot, o amor singelo, a visão idílica e poética do amor, distribui as cartas e recolhe a banca.

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Onde a coruja dorme [Brasil, 2010], de Márcia Derraik e Simplício Neto (RioFilme). Gênero: documentário. Duração: 71 min.
Conheço o “Coruja” — como é carinhosamente chamado pelos fãs — desde final dos anos 90, tanto na versão curta como na versão média. E posso afirmar que assistir sua estreia no cinema foi uma outra experiência. A principal virtude do filme é o olhar cuidadoso e a forma como se abre para a voz dos personagens. Sem demagogia, expõe e valoriza a linguagem criativa, a inteligência, a vida cotidiana e o talento de compositores como 1000tinho, Popular P e Moacyr Bombeiro. Cito uma frase de Mariana Mansur que explica de forma cristalina a importância fundamental do filme:

“É importante também lembrar que o lugar ocupado por Bezerra nunca foi preenchido após sua morte, e que ainda nas rodas de samba seu repertório é muito pouco tocado. Foram os rappers que colocaram Bezerra de novo nos ouvidos dos jovens, o samba ainda precisa reconhecê-lo.”

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*Bernardo Oliveira é professor de filosofia, colunista do Blog da Subversos e escreve sobre música no blog Matéria

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Por Bernardo Oliveira*

Cosmopolis é o melhor trabalho de David Cronenberg desde Naked Lunch (1991).
Embora ao longo desse período o diretor tenha realizado filmes relevantes, alguns
deles dignos do maior interesse — como por exemplo, A History of Violence e Eastern
Promises —, Naked Lunch e Cosmopolis me parecem definitivos. Não que o diálogo com
a literatura os favoreça especialmente, já que obras de J.G. Ballard, além de peças teatrais
e gibis forneceram argumentos para outros de seus filmes. Muito pelo contrário.

Ocorre uma ressonância evidente na conversão da palavra em imagem cinematográfica,
que justifica o destaque na filmografia do diretor. Ambos constituem exemplos da
peculiar concepção de ficção científica desenvolvida por Cronenberg. Como em outros
filmes (Gêmeos e Existenz, sobretudo), seu “futurismo”, sua avaliação sobre o impacto da
ciência na constituição do humano, é mais uma reflexão sobre a mobilidade temporal do
que um prognóstico.

Mas atenção para a reviravolta: ao endereçar suas questões a um futuro que é, antes de
mais nada, depositado sobre o presente (o instante, o acontecimento), Cronenberg se vê
obrigado a dar ao espectador mais do que um “sentido” ou uma “representação”. Em
cada plano, temos uma hipercomposição, que embora possa parecer excessivamente
estética, se apresenta carregada de paradoxos.

Em Naked Lunch, essa composição era liberada através da verossimilhança dos objetos
delirantes, que tinham por função nivelar, ainda que ilusoriamente, os desdobramentos
oníricos da realidade. Mas em Cosmopolis é o plano asséptico, “epidérmico”, o meio pelo
qual se instaura o paradoxo.

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O palavrório busca dar conta de uma série de “questões” expostas pelo livro.
Contudo, diante de um indivíduo oriental que ateia fogo às próprias vestes durante
um protesto, o personagem principal, um cibercapitalista frio e decadente, escuta sua
funcionária, “especialista em teoria”, declarar: “It’s not original…” Um suicídio na rua e
até mesmo um mero acontecimento urbano casual como um protesto, se transformam em
imagem, passível de julgamento estético.

Em Naked Lunch, baseado na obra homônima de William Burroughs, abordavam-se as
mutações do corpo, de como tudo se torna relativo quando a carne arde e as identidades
se dissolvem. Neste caso, a próstata apareceria com toda a sua assimetria, acoplada, por
exemplo, a uma máquina de escrever. Já em Cosmopolis, estamos expostos a uma dose
extra de “momento presente”, através do qual o livro de Don Delillo, em sua construção
essencialmente parasitária, expõe suas questões. E a próstata? Desigual, assimétrica,
permanece no plano da virtualidade absoluta, indicando as disfunções subterrâneas da
aparência.

E mais: o enquadramento propriamente dito é claustrofóbico, recortado em espaços
cercados por seguranças entrevistos pela janela de uma “limo”. No entanto, mesmo
nos momentos de perigo latente, o ambiente nos parece confortável, quase tranquilo. A
maquiagem o figurino, a entonação e o gestual dos atores é robótica, fria, mas eles estão
sempre à flor da pele, desestabilizados por algum distúrbio, alguma pressão psicológica.
Constata-se que a próstata é assimétrica, enquanto o ator discute com uma de suas
informantes, e a energia sexual irrompe em pleno exame.

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O diálogo entre o barbeiro e o chofer, ambos vivendo num passado entranhado,
paradoxalmente presente; o personagem de Pattinson, cravado no futuro, assiste aos
protestos que reivindicam este mesmo presente. No final, a potência do futurólogo frio e
calculista se torna impotente frente à impotência do ativista ressentido. Deseperado para
sentir algo além da expectativa dos “mercados futuros”, ele dispara contra a própria mão.
Antes já havia pedido um carga de alta voltagem, já havia se livrado de seus inseparáveis
seguranças. A câmera se torna refém de Juliete Binoche, que serpenteia pela limo… As
cenas de sexo não demonstram concentração, só se fala de outras coisas durante o sexo,
pois sexo é poder. Seu casamento se resume a um jogo de poder, igualado à conversa
sobre o Rothko, uma conversa sobre dinheiro. As imagens plastificadas de um rapper sufi
que morre ironicamente de “causas naturais”, humilhando seus amigos. O tédio sufoca,
porque só o futuro redime, mas não chega nunca: ele é sempre presente.

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Vejam: Cronenberg não oferece, como o livro de Delillo, uma interpretação sobre
o presente. Suas imagens já constituem o sentido mesmo da obra. Não se extraem
conclusões dessas cenas, as conclusões são as cenas mesmas, a pele do que expõe é
sua própria pele: fria, instável, arrojada, desigual, mas também porosa, texturizada
pelo digital, pelo fogo, pelas palavras de ordem — e pelas tortas… na cara da política
mundial.

*Bernardo Oliveira é professor de filosofia, colunista do Blog da Subversos e escreve sobre música no blog Matéria

Por Bernardo Oliveira

Esta não será propriamente uma coluna de crítica cinematográfica, mas o bloco de notas, imperfeito e esporádico de um cinéfilo moderado. Não esperem atualidades, nem grandes furos jornalísticos. Não esperem por observações acerca do filme mais comentado do momento, nem sobre o último êxito de bilheteria. Anotações soltas, observações, percepções, conclusões parciais ao sabor da sequência desordenada de experiências cinematográficas, quase sempre, volta e meia, “de quando em vez”…

Por outro lado, pretendo seguir rigorosamente o método enunciado por Nietzsche em seu escrito mais polêmico, Crepúsculo dos Ídolos, e efetivado brilhantemente por grandes mestres da síntese, como Beckett, Bresson, Mario Faustino e, nos dias de hoje, o crítico cinematográfico Inácio Araújo:

“minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro — o que qualquer outro não diz em um livro…” (Crepúsculo dos ídolos, IX, 51)

Excluindo-se o tom reconhecidamente passional (e bélico) do autor, trata-se, em outras palavras, de buscar a objetividade e a leveza sem abrir mão da profundidade. Escrever o mínimo possível buscando propor uma perspectiva concentrada sobre cada um dos filmes abordados. Ora, se a aparente pretensão da proposta causa alguma espécie de receio, devo lembrá-los que as metas não se destinam somente ao cumprimento, mas também fornecem um horizonte, uma agenda.

Uma última consideração: se a questão da imagem cinematográfica (a luz, o plano, a montagem) persiste a despeito das mutações estéticas e tecnológicas (o vídeo, o digital, o 3D…) — isto é, se o CINEMA persiste — pode-se presumir que sua história e seu presente ainda instigue algo para além da “maior diversão”. Estou atento a este “além”, ainda que, em última instância, devo assumir que é a diversão o alvo de uma cinefilia descompromissada, de uma militância às avessas, de um relaxamento que caracteriza o meu encontro com o cinema — e, ainda assim, aguardo ansiosamente o filme em 3D de Jean-Luc Godard! Em outras palavras, não faço nenhuma distinção entre pensamento e entretenimento, entre arte e diversão. Aos que toparem embarcar comigo, boa leitura.

Ps.: agradeço ao Sávio de Queiroz e a Witold Gombrowicz pelo nome da coluna.

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04 de Agosto, 2012

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L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância (L’Apollonide — Souvenirs de la maison close, Bertrand Bonello, França, 2011)

“Tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre o poder.” A célebre frase de Oscar Wilde me alerta para o fato de que L’Apollonide não é (não pode ser) de forma alguma um filme sobre a “prostituição”, muito menos um filme sobre “o sexo”. Sob esses dois pontos de vista, corre-se o risco de interpretá-lo moralmente, como se cada sentimento, cada gesto, cada reação das personagens remetessem a uma lacuna, a uma relação com a dimensão da (má) consciência, sublimando sentimentos de tristeza, culpa, desgraça.

Pois trata-se, antes, de um ensaio sobre o sequestro do corpo e do desejo feminino no contexto de um prostíbulo francês na virada do século XX: a violência estampada no sorriso trágico da “mulher que ri”, a violência científica encarnada pelo médico, os movimentos maquínicos da mulher-boneca, a ressaca do ópio, o ar dolorosamente teatral que pesa sobre o ambiente, a relação entre a craniometria e criminalidade, o contraste com a puerilidade brutal do desejo masculino e até mesmo as piadas (“Putain est un métier de putain…”), das quais elas se riem adoravelmente…

Toda a poesia do filme é extraída das mutações e apropriações deste corpo feminino, exposto à experiência coletiva, ao afeto desesperado, à sedimentação de uma interpessoalidade radical, ao tédio, à opressão e a uma certa “alegria”, que se confunde muitas vezes com a coragem para seguir adiante (a cafetina ri, diante das aspirações da jovem que chega: liberdade?)

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Essential Killing (Jerzy Skolimowski, Polônia, 2010)

Pode-se afirmar que o que há de essencial nos eventuais assassinatos cometidos por Mohammed, o personagem desempenhado por Vincent Gallo neste thriller dirigido por Jerzy Skolimowski, é o fato de que ele os cometeu sob pressão, para garantir sua própria sobrevivência. Mas o que chama a atenção em Essential Killing é que, para contar essa estória, o diretor polonês lançou mão de três filmes.

Primeiro, o polêmico filme de guerra, que se apresenta como crítica aos “campos de concentração” americanos. Após a fuga de Mohammed, inicia-se o filme de perseguição na floresta (como Rambo), porém com um toque cínico depositado sobre a sucessão de acontecimentos estapafúrdios, que parecem emprestados dos desenhos animados: o fugitivo despenca de um desfiladeiro, é preso por uma armadilha para lobos, mordido por um cão, alvejado por uma árvore que é derrubada por um lenhador (madeeeeeiraaa!). Finalizando o filme, o drama existencial, a incomunicabilidade, a acolhida mágica de uma mulher (a encenar o decantado simbolismo da “mãe-natureza), e, enfim, o apego à sobrevivência.

Contudo, entre o segundo e o terceiro filme, um momento sem precedentes: perdido em uma floresta gelada da Polônia, Mohammed percebe a passagem de uma mulher sobre sua bicicleta, carregando um recém-nascido no colo. Faminto, ele rende a mãe e bebe-lhe o leite, enquanto ela se debate, grita e resta desacordada na floresta. Seria este o crime primordial, bárbaro e “essencial”, a que alude o título?

06 de agosto, 2012

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13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku, Takashi Miike, Japão/Reino Unido, 2010)

13 Assassinos não é nem de longe comparável a filmes de samurai como Os Sete Samurais, ou até mesmo Zatoichi, dirigido por Takeshi Kitano em 2003. Mas tambem está anos-luz à frente de bobagens estereotipadas como O Tigre e o dragão e Herói. Porém, vale lembrar que há uma diferença evidente entre o filme de artes marciais e o filme de samurai. O segundo carece de maior densidade no que diz respeito à trama e aos personagens, retomando aquilo que de mais interessante o filme de samurai apreendeu dos faroestes: o drama de um indivíduo que vivencia a ética samurai.

Nos filmes de artes marciais sobra bordoada até mesmo para mulheres e crianças. Mas o que há de mais interessante em 13 Assassinos é o fato de que o diretor não abandona preguiçosamente a questão ética. O diretor reporta boa parte da carnificina que ocupa as mais de duas horas de projeção aos contrangimentos ocasionados pela fricção indesejada entre a satisfação dos desejos e sua correspondente expiação. Não há como deixar de reparar no sorriso orgulhoso do samurai diante da morte, sobretudo a morte em combate.

Em suma, em 13 Assassinos é o próprio samurai, sua força e vulnerabilidade, que se configura como tema. Ele padece por suas escolhas e forma de vida, característica que destaca o filme no panorama de filmes de luta e suas derivações anódinas — como na brutalidade vazia dos filmes de heróis ocidentais como Os Vingadores.

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