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Retrato_Yayoi_Kusama_2011._Cortesa_Victoria_Miro_Gallery_London_Ota_Fine_Arts_Tokyo_and_Yayoi_Kusama_Studio_Inc._-_Yayoi_Kusama_baixa

Por Andréa Vilanova*

O que é um corpo? O que faz de um corpo um? De que é feito um corpo? As variações de uma interrogação acerca da natureza do corpo podem encher páginas de cogitações, mas não preenchem as lacunas inerentes a nossa possibilidade de conceber o corpo, em termos teóricos, quando se trata da experiência humana.

O próprio substantivo corpo exige que se lhe justaponha um segundo termo para que possa precisar algo e, então, circunscrever o campo semântico que nos interessa. Corpo de atores de uma companhia, corpo teórico, corpo anatômico, são versões que nos permitem vislumbrar a multiplicidade em torno das significações que o corpo pode comportar. No entanto, trata-se especialmente aqui de abordar aquilo a que nos referimos quando tomamos a designação corpo humano, a partir de uma certa perspectiva.

Por um lado o discurso científico nos oferece toda a sorte de suportes teóricos e materiais para assentar o corpo numa consistência que, a nosso ver, tal como nos informam Freud e Lacan, não passa de imaginária. O corpo radiografável, ecografado, capturado nas imagens da ressonância magnética, ou mesmo nas técnicas mais modernas de investigação virtual que oferecem imagens em tempo real de órgãos em funcionamento é um corpo mudo, inerte, está sob a mortalha de programas de computador que pretendem uma transcrição fidedigna de sua realidade.

No entanto, como sabemos, o leitor pode falhar na sua avaliação das imagens. A solicitação de um exame reenvia a outras tantas análises físico-químicas a busca de indícios que, agrupados, possam compor alguma hipótese diagnóstica. Aqui também a interpretação do clínico é crucial, as imagens e os índices não falam por si. Não há transcrição total dessa pulsação em imagens conclusivas.

Haverá algum modo de nos aproximarmos de uma leitura desse vivo que nos habita? Sabemos que aquilo que nos permitirá afirmar que um corpo seja humano será imediatamente sua forma. Desde a etologia à psicologia, inúmeros estudos e experimentos nos asseguram acerca do poder da imagem do semelhante em tantas espécies animais. Na experiência humana a composição que aos olhos se apresenta como uma unidade corrobora esta realidade, mas não a despeito de suas reentrâncias, dobras, perfurações anatômicas ou não, protuberâncias, cicatrizes, contornos que os corpos em movimento nos fazem perder de vista.

No encontro com a obra de Yayoi Kusama, na retrospectiva de 1950 a 2013, com mais de 100 peças, que esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de outubro a janeiro, no Rio de Janeiro, eu me surpreendi com o que a arte é capaz de promover reinventando o próprio olhar. Que o corpo é tema reiterado em sua obra, não há dúvidas, mas o que surpreendeu é o modo singular como o realiza desrealizando-o em sua criação. Obsessão infinita é o nome da exposição que traz, a meu ver, o infinito como índice de uma obra aberta, inconclusa, que fugazmente se materializa como obra com a presença do espectador que aí deixa de lado uma posição passiva de fruição e é convidado a compor a obra através de sua própria experiência.

A variedade de suportes utilizados pela artista e a estruturação proposta pela curadoria encontram-se em sintonia com o que parece ser o significante mestre da mostra: obliteração. Trata-se, segundo palavras da própria artista, de um efeito de sua obra sobre ela mesma, um efeito do fazer contínuo que a soterra no próprio processo. É evidente que, mesmo tratando de seus medos, como afirma, não estamos diante de um ‘eu’ e, portanto, sua obra não é um convite à contemplação.

Logo de início, uma pintura dos anos 50 convida pelo seu nome Corpses, ou seja, cadáveres. Vísceras enoveladas sobre si mesmas, amontoadas, mas ao mesmo tempo pendentes. Não estão circunscritas em uma cavidade abdominal e não são exatamente vísceras. Metonímia e metáfora se sobrepõem nessa obra. Trata-se de restos humanos, ao mesmo tempo em que, de tão humanos, basta este vestígio para que haja um corpo sob os contornos do enquadre da tela. Penso que a obra de Kusama nos oferece um modo de enquadramento que permite redesenhar os limites do corpo, sem nos fixarmos na forma unitária que tanto nos cativa.

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Corpses (1950)

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Vemos em Kusama uma desintegração (obliteração) onde o falo obsessivamente imaginarizado em diversas versões vem se decompor na própria imagem, como por exemplo, nos mil falos infinitizados no jogo de espelhos, na obra Sala de Espelhos Infinitos – Campo de falos. Dentro da obra, somos mais um elemento na cena móvel que não encontra contornos definidos. Ali experimentamos, nos confundimos, nos multiplicamos, nos perdemos de vista. Nesse jogo íntimo e estranho com a nossa própria imagem, que se faz tendo em cena esse elemento fantasmático adornado por bolinhas, pequenos pontos que nos interrogam: onde está o olhar? Trata-se de uma questão de ângulo.

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Na obra Agregação – Mil barcos, 1963, o cartaz anunciando a instalação nos apresenta uma imagem sugestiva, a certa distância, de um pênis anatomizado como numa radiografia. Mais uma vez o órgão fora do corpo encontra no coração / na criação da artista uma ancoragem em formas que brincam com o olhar, recriando unidades inusitadas, unidades compactas em sua fragmentação. Não se trata do corpo despedaçado, como algumas experiências subjetivas nos revelam, uma reintegração responde diante do impossível de integrar o falo no corpo, como sua obra nos expõe.

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                                                                                                                                                                                       Kusama-Aggregation-One-Thousand-Boats-Poster

The Boat

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Kusama dá um tratamento artístico ao fantasmático que se reitera na experiência humana frente a esta libra de carne que a linguagem abocanha em nossa imersão no mundo. De um suporte a outro, da tela às esculturas maleáveis, flexíveis ou não, passando pelas superfícies e pelos próprios corpos encarnados em performances, registrados em fotografias e vídeos experimentais, Kusama nos oferece uma subtração da forma.

A artista nos dá acesso a uma outra dimensão, interna ao próprio imaginário, que de tão inimaginável nos oferece uma via de imaginarização do corpo, meio de soslaio. Comportando a pulsação da vida que habita a criação, a obra de Kusama nos ensina sobre o corpo com esse toque de irrealização necessário, se nos interessa pensar o corpo sob os contornos da psicanálise.

*Andréa Vilanova é psicanalista e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de psicanálise

 

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2- Fábio Magalhães-Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 190 x 190 cm - 2013

Por Fátima Pinheiro*

O corpo foi desde sempre objeto de interesse para os artistas, tendo recebido tratamento diverso ao longo da história da arte. Concebido como perfeito, pela civilização grega e pelo pensamento judaico – cristão, o corpo foi moldado a partir do ideal associado a valores espirituais e elevados do homem. Na modernidade, transcendendo a maneira clássica, o corpo não mais está comprometido com as questões e princípios que o concebiam como uma unidade. A invenção da psicanálise por Sigmund Freud, com o advento da sexualidade, introduz um corpo fragmentado, um corpo animado por pulsões, transpassado pela vida e pela morte. Ao contrário de ser um corpo entendido como unidade, ele é um corpo único, não só por sua constituição biológica, mas por ser atravessado pela linguagem. E é isto que lhe confere uma língua própria, marca do humano por excelência.

Na arte, as vanguardas do século XX (dadaístas, surrealistas, expressionistas) realizaram a fragmentação da figura humana. O corpo foi, então, distorcido pelo afeto, pelo sofrimento. Picasso, entre outros artistas, evidencia esse aspecto, de forma contundente, ao decompor as figuras, mostrando assim a força da ruptura através da sua revolução cubista.

Hoje a arte contemporânea, no sentido estrito do termo, a arte do agora, parece se encontrar envolta com as questões onde o corpo cada vez mais evidencia a perda da totalidade tão bem encarnada na arte renascentista, marcando assim a sua transitoriedade e finitude. E de algum modo pode-se dizer que o corpo da contemporaneidade se encontra alijado de certas marcas identificatórias que dariam a ele consistência. Por outro lado observa-se, muitas vezes, como aponta o psicanalista Éric Laurent, em seu texto recente Falar com o seu sintoma, falar com o seu corpo: que “os corpos parecem se ocupar deles mesmos, se alguma coisa parece se apoderar deles, é a linguagem da biologia.” Produto e efeito dessa linguagem são os corpos operados, amputados, transformados e à mercê de um real diverso daquele afetado pela língua.

A arte toca o real e o artista é aquele que com o seu “saber-fazer”, expressão cunhada por Jacques Lacan,  mostra a inquietante e única maneira de recolher um pedaço de real, extraindo algo novo. Para testemunhar sobre esse novo que a arte inaugura convidamos o artista baiano Fábio Magalhães, para falar de seu trabalho, neste número de “O artista por ele mesmo”. Fábio faz parte do grupo de artistas brasileiros selecionados pelo Itaú Cultural no Programa Rumos (2011/2013), e que está expondo, atualmente, na Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro, a série intitulada “Retratos Íntimos”. Fábio Magalhães trabalha com o que recolhe de suas observações do cotidiano, e com algo, como ele afirma, que escapa ao entendimento lógico, e é com essa matéria que ele cria a surpreendente “visceralidade” de sua obra. Confiram, a seguir, a entrevista, e seus principais trabalhos.

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1- Fátima Pinheiro: Que corpo você visa com sua arte?

Fábio Magalhães: Trata-se da construção de um corpo imagético/ficcional, em que parto da minha própria estrutura física, e através de metáforas visuais, crio condições inconcebíveis de serem retratadas, senão por meio de artifícios e distorções da realidade. O corpo não é pensando desassociado do Ser, ele torna-se seu habitat. Sou levado a refletir sobre as condições do humano e da vida pelo meu desejo de transformar a memória deste Corpo/Ser em práticas visuais das mais plurais, por meio de associações e relações temporais e espaciais com a minha própria Identidade. Acredito que isso não é determinado pelo o que é externo, e sim pelo que reside dentro do homem, daquele que se reconhece através do seu próprio corpo, do seu comportamento, dos seus sentimentos e de suas paixões, em busca de se inventar a cada momento. Isto faz com que eu arraste todas as reações deste Corpo/Ser como objeto de estudo.

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2- F.P.: Como se dá o seu processo criativo?

F. M.: Trabalho em uma persistência poética da pintura autoreferencial, neste sentido, parto da imagem como índice fotográfico para desembocar numa outra realidade, a pintura. Nesta, encontro possibilidades para inserir uma carga subjetiva e simbólica, necessárias às minhas intenções como artista. Procuro criar um jogo de metáforas visuais, ao qual se configura uma atmosfera carregada de situações que, talvez, possam informar algo que escapa ao nosso entendimento. Assim, crio em pintura, um espaço para expor a coexistência de realidades referentes ao humano. Deste modo, o trabalho se aproxima de um processo de autoconhecimento, é como libertar algo do interior da alma.

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6- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela 100 x 130 cm -  2012

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3- F.P.: Você utiliza o seu próprio sangue para realizar os seus trabalhos?

F. M.: Sim, isso faz parte do meu processo de criação, como falei anteriormente. Crio um ato inicial no ateliê, que diz respeito à elaboração de uma cena para atender a um ato fotográfico que termina em pintura. A fotografia é processual, pois apenas captura a imagem, não faço uso de fotografia pré-existente em meu trabalho, e depois que os quadros estão prontos, eu as destruo. Para essa obra em questão, “Retratos Íntimos”, convidei um enfermeiro que veio ao meu ateliê, onde fizemos a coleta do sangue, que posteriormente, foi utilizada na simulação do coração.

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4- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 150 x 150 cm - 2013

3- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 150 x 150 cm - 2013

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4- F. P.: A sua arte é bastante impactante e desafia/problematiza a equivalência arte=belo. O que você tem a dizer sobre isso?

F. M.: Essa relação Arte/Belo já foi banida da Arte há muito tempo atrás, e isto teve início com os Expressionistas. Segundo Artur Danto os dadaístas foram os principais responsáveis pela morte da Beleza na Arte. Penso que não seja necessário travar discussões como essa em minha obra.

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8- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 140 x 190 cm - 2013

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5- F. P.: Em sua opinião qual é o lugar dado ao corpo na cultura contemporânea?

F. M.: Essa é uma pergunta cuja resposta pode ser bem ampla. A contemporaneidade não traz um novo corpo para ser habitado, mas um corpo que passa a ser visto, e entendido dentro de um processo histórico, e não se resume a uma simples massa, uma vez que ele é atemporal. Entretanto, este corpo tenta acompanhar às mais novas invenções tecnológicas, da era digital, em meio de uma corrida desenfreada, onde se vislumbra uma significativa mudança nas relações humanas. Entre diversos modos, comportamentos de consumo, fobias, ansiedades, stress, evidencia-se um corpo fraco, vinculado à cultura do descartável, do consumo que relaciona homem-objeto-mercadoria.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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