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Existem escritores que fazem da escrita um campo da palavra, outros um campo da letra. Esses últimos são aqueles que operam com as letras a tal ponto que marcam na escrita algo do impossível da língua em relação aos efeitos de sentido. Homero Mattos Jr é um escritor que leva às últimas consequências o limite entre a letra e o nada, algo que Banchot definiu como “o ponto onde o infinito coincide com lugar nenhum, escrever é encontrar esse ponto”[1].
Esse ponto ocorreu-me chamá-lo de haumscritos[2], uma vez que todo um é suscetível de se escrever como uma letra, aquilo que diz respeito ao irredutível, aquilo que não se diz, que não se pensa e que a escrita tenta encontrar.

A coluna in situ: o artista por ele mesmo do blog da Subversos fecha o ano de 2014, com muita alegria e presenteia os seus leitores com algo muito especial, a escrita de Homero Mattos Jr, ensaísta paulista, que escreve em dois blogs Koyaanisqatsi e Sintaxeamentos, e que de maneira singular, com a sua arte, nos faz ser tocados com o que se desprende de suas letras. Boa leitura e felizes festas!

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[1] Maurice Blanchot. O espaço literário. Rio de Janeiro:Rocco, 1987, p.42

[2]Maria Fátima Pinheiro- O saber do artista e a prática da letra. Tese de doutorado/UERJ- 2014

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¿tal qual?

[ coraçao na mao poe edgar dormindo quando menina-o o chao das batatinhas ]
l.wittgensteinrue the rose sunk
paris-áustria
telefone 19091981novesfora

KITAB AL-BULHAN OR BOOK OF WONDERS (LATE 14THC.)

KITAB AL-BULHAN OR BOOK OF WONDERS (LATE 14THC.) – Via Pere Salinas

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. vindo ou indo giramundo o mundo vira porquanto rodopia alinhando letrâncias desviantes posto regra nenhuma tem este que em casos de permanente só o vigir plural do não perpétuo faz evolver tal qual o quê ao feitiço atrativo do amor decorre  como de exemplo exemplar lhe aconteceu querendo o querer de imensas inquietações das que por não vezes acontecer soi onde o só falar de liberdade em condicional diz o dizer de modo a viver o sim o se faz e não o se pensa é isto assim no presente imperativo condicional no dizer tudo isso palavras outras de incerto passado nu falou ó teu olhar oculto lo mirar y comer quererei e quis e ¡quero porque ¡quisô! pois assim ajuda melhor entender os sentimentos por direta experiência por dar se aprendendo alegre ou triste por não condizer modo algum de normalidade tamanha e tanta empatia foi que mais ler quis não temendo se espatifar esse ser frágil coisa eterna cuja sagração secreta é se manter mudando sempre o imperfeito infinito mutável fluxo agitado porque letra é seu inconsciente como escura noite real a encobrir indefinidos por iguais alvorecer ou crepúsculo no curto tempo ao menos modo tornar se impossível saber se de momento em qual está [¼]si[½] reverso no tamborilante rimbaumbar poético do dois em um musical esferado girante terrenar rotundo ou lunando negro três vezes dez trinta ou trinta + uma branca shining cheia moon is hoje !?! me instrua amanhã talvez depois ? quando… o sol o segundo rimbaumbando chegar além no amanhã onde lá bambam estes sidney o sheldon y conejón el mágico prestidigitador lo mismo querem saber ? there is more ¡aleluia aleluia aleluia! ¿acabou? ou tem mais de cositas ôtras muchas pequititicas de fato o feito é que do saber querer pretenso em palavras por assim expressar desejou as ele como tais apenas doidas literariamente ainda que mesmo tais propriamente não as descrevo aqui porém repare[½]emoção[¼] a pendular fez muitas letras focar

 

 , Dear

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[½ ] puesto los sábios dan por sentado ser cosa absolutamente impossible haber cristalino espejo que una baiana no lo pueda enviar de parte cualquier

[¼]  somewhere there was once a flower, a stone, a crystal, a queen, a king, a lover, and his beloved, and this was long ago, on an island somewhere in the ocean five thousand years ago… such is love, the mystic flower of the soul. this is the center, the self. nobody understands what I mean. only a poet could begin to understand.

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Escrivata

para teclado&monitor
em menor Solmaior maior e  Simaior

Al-Sufi, Book of Fixed Stars, Iran 1675, The David Collection (Copenhagen)

Al-Sufi, Book of Fixed Stars, Iran 1675, The David Collection (Copenhagen) – Via Pere Salinas

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Pere Salinas - Visión china de la bóveda celeste

Visión china de la bóveda celeste – Via Pere Salinas

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adágio bandido

me escreve ela pediu e ele então começou a escreve-la kent de seus nevers knowns befores e cools de já vis de outras tantas franças impressionistas amáveis e revoltosas marias de sal e rosaromáticas espanhas de ouros a matar mouros e touros a paus copas e espadas de irredentas itálias e indomáveis brasis amantes só escrevendo escrevendo escrevendo o tempo todo escrevendo. e beijando. beijando beijando escrevendo escrevendo beijando e escrevendo escrevendo escrevendo até de tanto  escrever mais não poder.

parado neste instante[½]

guardando letras pra mais muito masmuito mais tempo preservar o não perder o si impassível possível sem deixar explodir o crescendo que já de novo quer outra vez escrever agora si orientando mais zen menos zoom de cabeça pra baixo e pernas pro ar mais lentamente ir escrevendo explorando incensado sensato nem tanto escrevendo escrevendo beijando sobre e sob tântricas índias suaves nippons evanescentes cochinchinas sussurros e cantos gemidos de nãos consentidos e sins sem sentido beijando escrevendo escrevendo escrevendo todas as línguas do mundo luxuriando per caracterem ó sic mea fata canendo dolor escrevendo escrevendo escrevendo escrevendo  oh me ! oh my ! esse se perde se acha do si deixando se ir nesse verlieren den kopf  puf schrupppp krupp sukiaky aranjuez aranjuez ! mon amour beijando escrevendo beijando escrevendo escrevendo beijando escrevendo beijando beijando beijando escrevendo mais não vai dapraguentá meu deus isto é quero mais tanto tanto si dar-te segurar não dá mas mais mais é páragora !
e foi por fim assim no final exaustada toda escrita ele a deixou.

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Por Fátima Pinheiro*

As coisas são feitas de esquisitices, nos diz Lacan, quando se pergunta se este não seria o caminho futuro esperado pela psicanálise – o de se dedicar suficientemente à esquisitice [1] . A arte contemporânea não só nos aproxima das esquisitices como nos convida a interrogar sobre elas.

Neste ensaio vamos indagar sobre o corpo na arte e seus limites, encontro que leva as últimas consequências a operação que joga com a presença e a ausência dos semblantes. Confluência que pode induzir ao pior ao mostrar um real sem véu, a partir do corpo despojado de qualquer semblante.

Nas décadas de 60 e 70 a arte produziu um paradoxismo de estilos[2], o que significa que não era preciso nem mesmo ser um objeto visual palpável para ser considerada uma obra de arte visual, assim como não havia uma forma especial para a aparência das obras de arte. Exemplo disso é a não diferença entre a Brillo Box de Andy Warhol e as caixas de Brillo do supermercado. Os artistas ao afirmarem uma ideologia libertária se sentiam livres para fazer arte da maneira que desejassem. Este foi o momento fecundo para o aparecimento da body-art ou arte do corpo, que embora esteja associada à performance não trata de produzir representações sobre o corpo, como se observa em toda a trajetória da história da arte, mas ao contrário apresenta o corpo de forma fragmentada, evidenciando a perda da totalidade encarnada pela arte renascentista. Embora a body-art tenha surgido somente em 1969 já havia artistas que trabalhavam o corpo como suporte para intervenções, representantes de uma linhagem radical de vertente sado- masoquista como, por exemplo, os do Acionismo Vienense (1965), Wiener Aktionsgruppe, ou o “Grupo de Acção de Viena”, onde se destacaram Arnulf Rainer (1929), Hermann Nitsch (1938), Günter Brus (1938) e Rudolf Scwarzkogler (1940-1969) [3].

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Esses artistas inicialmente trabalhavam o corpo como extensão do campo pictórico, passando aos poucos a utilizar substâncias reais em suas intervenções: o sangue jorrado sobre corpos humanos ou de animais fazia parte de suas ações[4]. Mais tarde realizaram ações transgressoras de tabus sociais, assim como ações ritualísticas que tangenciavam questões sexuais, onde enfatizavam as funções orgânicas, tais como: urinar, defecar, vomitar revelando o excesso de gozo no corpo. De forma frequente o corpo era submetido a queimaduras, sodomizações, ferimentos, marcando um limiar tênue entre a vida e a morte.

Rudolf Scwarzkogler foi um dos artistas do Wiener Aktionsgruppe que se destacou por explorar os limites do corpo através de suas ações performáticas realizadas entre 1965 e 1966. A primeira, Casamento, foi realizada frente a uma plateia, mostrando uma espécie de ritual invertido. No lugar de fórmulas socialmente aceitáveis de troca de anéis, votos de fidelidade e assim por diante – ele evoca imagens de contaminação (com a cor ‘clean’ azul) a partir da separação, de lesões, tortura e morte. As ações subsequentes foram executadas apenas para uma câmera. Nelas retirava camadas de sua pele com uma lâmina e depois se fotografava, enfaixado. Basicamente, as ações de Schwarzkogler, tais como os dos demais acionistas, têm uma forte conotação política, onde o corpo é alvo da crueldade, da repressão, humilhação e dor pela asfixia promovida pelo Estado capitalista.

Aos 29 anos, em 1969, Schwarzkogler, suicida-se criando um mito em torno desse fato, que alguns especulam como sendo uma passagem ao ato devido à automutilação, a amputação do seu próprio pénis diante do público em uma performance. Outros dizem que por ele ter sido bastante influenciado pela obra de Yves Klein teria simulado o Saut dans le vide (Salto no Vazio) famoso trabalho fotográfico do artista. Estas versões, porém, foram desmentidas por Keith Seward na Revista Artforum em 1994, alegando que o suicídio de fato ocorreu, contudo distante de uma plateia.

O que nos parece fundamental situar, finalmente, a partir dessas versões, é que a obra do artista, para além do próprio artista, produz efeitos no Outro, cria um espaço ficcional, resituando o corpo dentro do discurso. A resposta que a obra do artista faz surgir, portanto, é da ordem de uma produção, de um fazer, de uma ficção, que como afirma Miller [5] , está marcada pelo recanto do semblante. Assim a arte além de revelar de forma surpreendente os modos de gozo de nossa época nos aponta para o que ressoa do campo do Outro.

 

[1] Lacan, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2005, p.64.
[2] Danto. A. Após o fim da arte- A arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.
[3] http://www.tate.org.uk/art/artists/rudolf-schwarzkogler-4823

[4] Matesco, V. Corpo, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2009.
[5] Miller, J.A.”Coisas de fineza em psicanálise”. Documento de trabalho para os seminários de leitura da Escola Brasileira de Psicanálise, 2009.
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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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Por Fátima Pinheiro*

Renato Rezende (1964) é escritor, poeta, tradutor, artista visual, e participou recentemente, juntamente com Cláudio Oliveira (filósofo) e Ana Lucia Lutterbach Holck (psicanalista) de uma atividade preparatória para as XXII Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ, intitulada “Nós e o corpo do texto”, organizada, conjuntamente, pela Coordenação das Jornadas, pela Comissão de Biblioteca da Seção-Rio e pela Unidade de Pesquisa Práticas da letra. Autor de vários livros, entre eles: Passeio (Record, 2001), Ímpar (Lamparina, 2005), prêmio Alphonsus de Guimarães, Noiva (Azougue, 2008), e Amarração (Circuito, 2012), Renato Rezende nos concedeu uma entrevista especial sobre o seu livro Caroço (Azougue, 2012), obra que faz parte de uma trilogia, onde revela de forma impactante a sua experiência radical e singular com a escrita e o corpo. Essa entrevista é um convite direto às palavras do escritor/poeta, que tão bem as situou em seu livro, através de um personagem, como sendo “minha marca, de fogo, indelével, uma marca que diz: eu escrevo”. Vamos, então, a ela. Veja aqui a entrevista

*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

Por Fátima Pinheiro

Lucíola Freitas de Macêdo nasceu em Fortaleza- CE (1970) e mora em Belo Horizonte-MG. É poeta e psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, e dirige a coleção de psicanálise Estudos Clínicos, pela Editora Scriptum/BH. Desenvolve, atualmente, uma pesquisa de doutorado em Estudos Psicanalíticos na UFMG, e publicou Vida Esperança (Salvador: Contemp, 1985).

Soante, o segundo livro de Lucíola Freitas de Macêdo, recentemente publicado pela editora Scriptum, é ímpar, mesmo que não ocupe uma posição numérica que o situe como tal. Ímpar porque soante, assim o li. E o que o faz ser soante? Talvez seja pelo “ruído sibilante do corte, de onde advém o imprevisível da poesia”, como bem o disse Ruth Silviano Brandão, ou como nos mostra Isaura Pena, que de forma contundente, através de seus desenhos, retira da palavra algo da ordem do traço, do signo e o faz soar na página branca. Mas, sobretudo, é soante, eu diria, pelo som que produz o vazio, como somos tocados por sua poesia em incarn´ato:

o vaziopleno sonoro

esburacando seu tecido

fazendo o verbo

ex-istir ao som

separado do sopro

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É com prazer que apresento a entrevista que realizei com Lucíola Freitas de Macêdo, na qual vocês poderão observar a sua arte, por meio de suas respostas e, em especial, por meio de sua poesia. Através de soante podemos nos interrogar sobre o inquietante uso das palavras, feito pela poeta, em sua prática da letra, e quem sabe até, ao sermos surpreendidos por ela, chegar a dizer: este livro é algo para apreendermos com os ouvidos, tal qual a psicanálise nos faz experimentar, pois a poesia de Lucíola é feita de restos, de restos sonoros, como vamos conferir. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

2- Fábio Magalhães-Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 190 x 190 cm - 2013

Por Fátima Pinheiro*

O corpo foi desde sempre objeto de interesse para os artistas, tendo recebido tratamento diverso ao longo da história da arte. Concebido como perfeito, pela civilização grega e pelo pensamento judaico – cristão, o corpo foi moldado a partir do ideal associado a valores espirituais e elevados do homem. Na modernidade, transcendendo a maneira clássica, o corpo não mais está comprometido com as questões e princípios que o concebiam como uma unidade. A invenção da psicanálise por Sigmund Freud, com o advento da sexualidade, introduz um corpo fragmentado, um corpo animado por pulsões, transpassado pela vida e pela morte. Ao contrário de ser um corpo entendido como unidade, ele é um corpo único, não só por sua constituição biológica, mas por ser atravessado pela linguagem. E é isto que lhe confere uma língua própria, marca do humano por excelência.

Na arte, as vanguardas do século XX (dadaístas, surrealistas, expressionistas) realizaram a fragmentação da figura humana. O corpo foi, então, distorcido pelo afeto, pelo sofrimento. Picasso, entre outros artistas, evidencia esse aspecto, de forma contundente, ao decompor as figuras, mostrando assim a força da ruptura através da sua revolução cubista.

Hoje a arte contemporânea, no sentido estrito do termo, a arte do agora, parece se encontrar envolta com as questões onde o corpo cada vez mais evidencia a perda da totalidade tão bem encarnada na arte renascentista, marcando assim a sua transitoriedade e finitude. E de algum modo pode-se dizer que o corpo da contemporaneidade se encontra alijado de certas marcas identificatórias que dariam a ele consistência. Por outro lado observa-se, muitas vezes, como aponta o psicanalista Éric Laurent, em seu texto recente Falar com o seu sintoma, falar com o seu corpo: que “os corpos parecem se ocupar deles mesmos, se alguma coisa parece se apoderar deles, é a linguagem da biologia.” Produto e efeito dessa linguagem são os corpos operados, amputados, transformados e à mercê de um real diverso daquele afetado pela língua.

A arte toca o real e o artista é aquele que com o seu “saber-fazer”, expressão cunhada por Jacques Lacan,  mostra a inquietante e única maneira de recolher um pedaço de real, extraindo algo novo. Para testemunhar sobre esse novo que a arte inaugura convidamos o artista baiano Fábio Magalhães, para falar de seu trabalho, neste número de “O artista por ele mesmo”. Fábio faz parte do grupo de artistas brasileiros selecionados pelo Itaú Cultural no Programa Rumos (2011/2013), e que está expondo, atualmente, na Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro, a série intitulada “Retratos Íntimos”. Fábio Magalhães trabalha com o que recolhe de suas observações do cotidiano, e com algo, como ele afirma, que escapa ao entendimento lógico, e é com essa matéria que ele cria a surpreendente “visceralidade” de sua obra. Confiram, a seguir, a entrevista, e seus principais trabalhos.

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1- Fátima Pinheiro: Que corpo você visa com sua arte?

Fábio Magalhães: Trata-se da construção de um corpo imagético/ficcional, em que parto da minha própria estrutura física, e através de metáforas visuais, crio condições inconcebíveis de serem retratadas, senão por meio de artifícios e distorções da realidade. O corpo não é pensando desassociado do Ser, ele torna-se seu habitat. Sou levado a refletir sobre as condições do humano e da vida pelo meu desejo de transformar a memória deste Corpo/Ser em práticas visuais das mais plurais, por meio de associações e relações temporais e espaciais com a minha própria Identidade. Acredito que isso não é determinado pelo o que é externo, e sim pelo que reside dentro do homem, daquele que se reconhece através do seu próprio corpo, do seu comportamento, dos seus sentimentos e de suas paixões, em busca de se inventar a cada momento. Isto faz com que eu arraste todas as reações deste Corpo/Ser como objeto de estudo.

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2- F.P.: Como se dá o seu processo criativo?

F. M.: Trabalho em uma persistência poética da pintura autoreferencial, neste sentido, parto da imagem como índice fotográfico para desembocar numa outra realidade, a pintura. Nesta, encontro possibilidades para inserir uma carga subjetiva e simbólica, necessárias às minhas intenções como artista. Procuro criar um jogo de metáforas visuais, ao qual se configura uma atmosfera carregada de situações que, talvez, possam informar algo que escapa ao nosso entendimento. Assim, crio em pintura, um espaço para expor a coexistência de realidades referentes ao humano. Deste modo, o trabalho se aproxima de um processo de autoconhecimento, é como libertar algo do interior da alma.

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6- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela 100 x 130 cm -  2012

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3- F.P.: Você utiliza o seu próprio sangue para realizar os seus trabalhos?

F. M.: Sim, isso faz parte do meu processo de criação, como falei anteriormente. Crio um ato inicial no ateliê, que diz respeito à elaboração de uma cena para atender a um ato fotográfico que termina em pintura. A fotografia é processual, pois apenas captura a imagem, não faço uso de fotografia pré-existente em meu trabalho, e depois que os quadros estão prontos, eu as destruo. Para essa obra em questão, “Retratos Íntimos”, convidei um enfermeiro que veio ao meu ateliê, onde fizemos a coleta do sangue, que posteriormente, foi utilizada na simulação do coração.

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4- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 150 x 150 cm - 2013

3- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 150 x 150 cm - 2013

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4- F. P.: A sua arte é bastante impactante e desafia/problematiza a equivalência arte=belo. O que você tem a dizer sobre isso?

F. M.: Essa relação Arte/Belo já foi banida da Arte há muito tempo atrás, e isto teve início com os Expressionistas. Segundo Artur Danto os dadaístas foram os principais responsáveis pela morte da Beleza na Arte. Penso que não seja necessário travar discussões como essa em minha obra.

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8- Fábio Magalhães - Sem Título (Série Retratos íntimos) Óleo sobre Tela - 140 x 190 cm - 2013

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5- F. P.: Em sua opinião qual é o lugar dado ao corpo na cultura contemporânea?

F. M.: Essa é uma pergunta cuja resposta pode ser bem ampla. A contemporaneidade não traz um novo corpo para ser habitado, mas um corpo que passa a ser visto, e entendido dentro de um processo histórico, e não se resume a uma simples massa, uma vez que ele é atemporal. Entretanto, este corpo tenta acompanhar às mais novas invenções tecnológicas, da era digital, em meio de uma corrida desenfreada, onde se vislumbra uma significativa mudança nas relações humanas. Entre diversos modos, comportamentos de consumo, fobias, ansiedades, stress, evidencia-se um corpo fraco, vinculado à cultura do descartável, do consumo que relaciona homem-objeto-mercadoria.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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Por Fátima Pinheiro*

Este número de “O artista por ele mesmo” traz a entrevista que realizei com Luiz Dolino (Macaé-1945) que vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Artista que se utiliza da geometria para criar novas realidades a partir de seu cotidiano, Luiz Dolino expôs individualmente em vários países desde 1968, além de participar de diversas exposições coletivas neste período. Sua obra faz parte de acervos de importantes instituições do mundo. Para além da pintura realizou também trabalhos de capa e ilustrações em livros de Carlos Drumond de Andrade, e atualmente é colunista do blog da Editora Subversos.

O seu trabalho provém da influência do discurso concretista que o artista Max Bill no início dos anos 50 produziu a partir de sua chegada ao Brasil, e que teve como um dos grandes expoentes o artista Ivan Serpa, com quem Luiz Dolino estudou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As relações que o artista evidencia em seus trabalhos partem da matemática, mas revelam que o seu trabalho não está focado unicamente em uma pesquisa formal, uma vez que não trata de entender os sistemas de forma ordenada ou funcional. Ao contrário, os sistemas com que o artista trabalha não estão regidos pela complementariedade e equilíbrio. Este aspecto torna a sua obra voltada para uma poética que, como ele mesmo diz, não está remetida a “uma fórmula mágica”, e acrescenta: “o que se pode de fato chamar de mágico é o espaço branco, vazio que nos desafia, atrai, e por vezes rejeita”. Nessa entrevista, através do depoimento e de imagens de alguns dos trabalhos do artista, pretendemos transmitir algo de sua poética e da sua trajetória, permitindo assim não dissociá-la da linguagem que a constitui.

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Paisano

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1- Fátima Pinheiro: Você estudou com Ivan Serpa que foi um artista concretista até os anos 60 e que a partir daí voltou-se para o expressionismo, sendo considerado um dos primeiros artistas do abstracionismo geométrico no Brasil. Qual foi a influência que ele exerceu no seu trabalho?

Luiz Dolino: Serpa era, como professor, uma figura muito singular. Ele atuava julgando o tempo todo. Levávamos um ou mais trabalhos ao MAM, ele passava os olhos. Criticava. Em geral, comentava desconstruindo a obra. Quando terminava o discurso, a gente sentia que não tinha sobrado nada… Mas isso não era tão mal como pode parecer; muito ao contrário, ele nos ensinava a perseguir a excelência, descartar o óbvio, conquistar a linguagem.

2- F. P.: Para você o que significa a pintura?

L. D.: A pintura é uma forma de expressão não verbal. É uma possibilidade de organizar nossas emoções por meio de uma gramatica própria que contempla basicamente a forma e a cor

3- F. P.: Certa ocasião você revelou que se inclui entre aqueles artistas que ao iniciarem um trabalho não teriam outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido possível. Por que você quer se livrar de forma rápida do seu trabalho?

L. D.: Eu sinto que a necessidade de expressar alguma coisa nasce de um incômodo primordial que não machuca e nem ofende muito num primeiro momento, mas que, com o passar do tempo, vai criando volume; vai se tornando algo de impossível convivência. Chega então um momento em que a necessidade de dizer se torna insuportável, então o que fazer? Botar pra fora correndo, caso contrário a gente morre.

4- F. P.:Como você percebe que um trabalho seu finalizou?

L. D.: O trabalho está pronto, acabado, fechado, quando eu sinto claramente que qualquer acréscimo será supérfluo e que insistir seria uma forma de corrupção da ideia original. No caso da pintura geométrica, no meu caso, planista, com superfícies muito determinadas, penso que esse primado fica ainda mais ostensivo.

5- F. P.: Muitos de seus trabalhos, entre eles Sabará (2004), Tapera (2004) e Altair (2011) apresentam uma geometria em desequilíbrio, revelando uma não complementariedade entre as partes que o compõem. O que você pode nos dizer sobre este aspecto do seu trabalho?

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L. D.: Como forma tentativa de elucidar a questão, acho que posso dizer muito pouco sobre o aspecto posto em destaque na pergunta. O que posso acrescentar é que, nas três obras citadas, forço ou enfatizo uma necessidade de deixar um rastro de algo que sobrevive a custa de um equilíbrio muito precário, ao contrário de outros trabalhos, talvez a maioria, onde não deixo margem a dúvidas sobre o que concerne à divisão áurea do espaço.

6- F. P.: Você realizou várias exposições fora do Brasil. Como foi a experiência de apresentar o seu trabalho em lugares tão diferentes do Brasil como a Tunísia, San José e Suiça, por exemplo?

L. D.: A experiência foi muito plural, naturalmente. Quando você menciona esses três países, passamos a tratar de culturas diversas como a do mundo árabe; a da nossa vizinhança latino-americana e a da racionalidade da matriz europeia, generalizando um pouco. No ambiente islâmico, onde a figura humana, por exemplo, é algo fora de cogitação, exibir, como no meu caso, uma arte ancorada fortemente na matemática, estamos nos aproximando com uma linguagem muito apreciada por esse público, o que assegura desde a primeira hora uma sensação de conforto. Por outro lado, a vizinhança hispânica nos faz sentir em casa em um primeiro momento, mas em seguida, em termos de expressão, se instala uma estranheza, fruto de um mundo mágico que permeia a percepção dos povos ameríndios. A Suíça me fez sentir como um invasor bárbaro. É que lá me pareceu que o visitante se acerca do trabalho de um artista brasileiro esperando encontrar algo que se identifique com a ideia de um ambiente surreal, no mínimo. No entanto, no meu caso, ao se verem diante de obras que são primas-irmãs das criações de Max Bill, Mondrian ou de Rothko, apenas como citação, o olhar do espectador confessa uma expressão de desconforto, como se eu fosse um fraudador que se apropriou sem qualquer cerimônia daquilo que lhes pertence de maneira inalienável. Claro está que tudo isso é passageiro, mas é a primeira impressão que costuma ficar.

7- F. P.: Você trabalhou, também, como curador em algumas exposições. Uma delas foi realizada em San José, com trabalhos de Ana Bella Geiger, Ana Letícia e outras. Como foi para você esta experiência de curadoria?

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L. D.: A experiência de curadoria é das mais enriquecedoras. Isto porque todas as vezes que me submeto a essa tarefa ficou a mercê de uma disciplina que me obriga mergulhar em profundidade em temas muitas vezes fora do meu universo mais cotidiano. Foi assim para realizar O Tempo sob medida, que celebrou os 200 anos do Banco do Brasil; uma exposição que abarcou um acervo milionário de máquinas, equipamentos, símbolos, pinturas, um pouco de tudo aquilo que ajudou o Homem a avaliar e medir as horas. Eu encarei o desafio de forma precária, mas tive a chance de estudar, falar com quem sabia e ficar um pouco mais esperto no tema. Tudo isso se repetiu, em grande estilo, ao fazer a curadoria da mostra Rabin Ajaw. Com a proximidade do fim do mundo, fui instado a me aproximar da Cultura Maya, que apregoava o fim dos tempos para dezembro de 2012. Para mim, foi mais uma aventura deslumbrante e mais espetacular ainda foi o resultado do trabalho, ao mostrar um pouco da cosmogonia maya. No caso da exposição em San José da Costa Rica – Confrontaciones – atendi a um projeto do Ministério das Relações Exteriores, celebrando o Ano Internacional da Mulher. Para esse evento, convoquei a fina flor da arte brasileira no campo da gravura, onde as damas assumem uma posição de grande destaque. Assim, tive ocasião de formar um acervo múltiplo como linguagem e técnica, reunindo nomes de primeira linha como Maria Bonomi, Renina Katz, Fayga Ostrower, Anna Letycia, Ana Carolina, Anna Bella Geiger, Tereza Miranda, receita infalível de sucesso.

8- F. P.: Dentre os seus trabalhos existe algum, em especial, que expresse com maior intensidade a sua relação com a arte?

L. D.: Não, nem me parece justo indicar. Seria uma indelicadeza com os fiéis parceiros de minha solidão. A cada momento, a cada obra que realizo tenho, na sua epifania, um relacionamento particular, íntimo e singular com aquele trabalho que acaba de surgir e que, a partir daquele momento, vai estar ao meu lado na hora que eu precisar enfrentar o mundo.

9- F. P.: Você é conhecido como um excelente contador de histórias, e eu tive a oportunidade de constatar este seu talento ao introduzir esta entrevista, quando você se referiu ao tempo de convivência com o escritor Pedro Nava. Vc tem uma forma pictórica de contar histórias. Você poderia eleger uma breve história para nos contar, e assim podermos ter o prazer de nos deliciar com ela, para além de suas pinturas?

L. D.: Olha, eu deveria fugir dessa provocação. Realmente, tenho alguns amigos que me estimulam a contar… Pedro Nava era um deles; George Vidor, outro. Fernando Barbosa Lima chegava ao cúmulo de pedir que eu repetisse essa ou aquela; tinha as suas preferidas. Eu, na verdade, gosto é de brincar com a minha memória. Não busco na palavra, jamais, uma forma adicional de expressão, é só o que os franceses chamam de divertissement. Mas, como sou audacioso, vou me arriscar: no início dos anos 70, eu vivia no México. Um dia perdi uma aposta que consistia em pagar um jantar no mais famoso e caro restaurante da cidade. Não tive remédio. O escolhido foi o luxuoso Rivoli, então centro da badalação local. Como não me concentro no noticiário esportivo – e não esquecer de que estamos no início dos anos 70, Brasil campeão – não tinha tomado conhecimento de que Pelé tinha chegado ao México naquela manhã e pela primeira vez desde a conquista da Copa do Mundo, na qual ele foi o maior astro.
Marquei o restaurante para aquela mesma noite em nome do sr. Nascimento, que é o meu último sobrenome. Ao chegar ao Rivoli, nem sequer me causou estranheza a grande movimentação no local, dado que ali era o point da noite mexicana. Apresentei-me com a reserva feita em meu nome. O maître, entre gentil e perplexo, perguntou: e o sr. Nascimento onde está? Disse-lhe: aqui, sou eu mesmo. Só então, diante de uma avalanche de repórteres e câmaras de tv, me dei conta de que o Rivoli esperava pelo Rei. Aliás, diga-se, o local era digno daquela majestade. Foi um anticlímax geral, mas apesar disso conseguimos comer muito bem…

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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Por Fátima Pinheiro* 

Rosana Ricalde ( Niterói, 1971) formada pela EBA/RJ (1994) é uma artista que trabalha no Rio de Janeiro e em Rio das Ostras(RJ) onde reside. Suas principais exposições individuais foram realizadas no Rio de Janeiro, em Madri, Oslo, Miami, Lisboa, São Paulo, e Havana. Possui trabalhos que fazem parte da coleção Gilberto Chateaubriand- MAM (2006-2007) e participou de projetos de residências artísticas em São Tomé e Príncipe (2008), Ilha de Susak, Croácia (2008) e em Rotterdam, Holanda (2005).

Ao situar em seus trabalhos um litoral entre a palavra e as coisas, Rosana Ricalde tece através do desenho, da pintura, e de objetos um campo impregnado pela poesia. Nesta entrevista, realizada em seu atelier, pudemos acompanhar imagens de seus desenhos inéditos mais recentes, registros, esboços das ideias elaboradas durante seu processo de criação, livros cuja leitura instigou seu trabalho, enfim, pudemos observar um ambiente de trabalho imantado por suas experiências do cotidiano, revelando, assim, ser uma artista inteiramente dedicada ao seu fazer artístico. Do livro em sua materialidade, da literatura e de narrativas orientais, Rosana Ricalde retira as letras e os nomes, filigranas delicadas, com que constrói a sua linguagem poética, como veremos a seguir.

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1 – Fátima Pinheiro: Quem é Rosana Ricalde?

Rosana Ricalde: Essa é uma pergunta bem difícil, mas me vejo como uma pessoa comum, que tem a rotina de uma mulher normal. Eu até gosto disso, de ser um pouco invisível, de poder observar sem chamar atenção. Administro a casa, cuido dos filhos…e também sou uma artista – que trabalha bastante.

2- F.P.: Vários de seus trabalhos, dentre eles cito: Cidades Invisíveis (2007), Marítmo (2008), Globo (2005) Viagens de Marco Pólo (2009) Mar do Japão (2009) Mar do Mundo (2005) Marés (2008) são trabalhos bastante orgânicos, onde se observa um campo geográfico bastante expressivo em que a geografia ganha corpo a partir das palavras. O que você pode nos falar a respeito desses trabalhos?

R.R.: Vou falar numa ordem cronológica, pois é a partir da série de trabalhos dos mares, que o desenho surge no meu trabalho de maneira mais expressiva – criando uma relação hora de tensão, hora de complemento ao texto.

Para esclarecer esse interesse, gosto de citar meu fascínio por alguns livros, o primeiro foi a Bíblia. Eu cresci numa casa bem simples, e com poucos livros, mas cercada de árvores, montanhas. Enfim elementos que permitiam e até forçavam minha imaginação. Criei desde muito cedo estórias incríveis dentro desse ambiente. Mas voltando ao livro – essa Bíblia também me despertava muita curiosidade… até que bem mais adiante conheci seu conteúdo. E o Verbo desde então me fascinou. Outros dois livros muito importantes para a composição da minha obra, são: o dicionário e o atlas. A idéia de que todos nossos atos, pensamentos e deslocamentos podem estar aí contidos, me instiga.

Falando, mais detalhadamente, como esses dados me levaram a esses trabalhos, poderia dizer que foram a partir dos desenhos do mar. Minha ideia sempre foi dar visibilidade ao texto, permitir que este me apontasse a imagem, e nesse caso não existe um esboço preenchido pelo texto, a escrita vai me conduzindo, quase como um mantra, e vou repetindo o nome dos mares que vão formando ondas.

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Nas Cidades Invisíveis, primeiro descobri o livro que também deu nome ao trabalho, fiquei pensando quantas camadas se sobrepõem à uma cidade, e também, como o desenho, no caso o mapa, restringe, delimita, domestica a Terra – a cidade, que é tão diversa, tão particular. A idéia de recobrir as ruas pelas frases do livro era como dar visibilidade a essas camadas, revelar essa multiplicidade de caminhos a percorrer.

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3- F.P.: Você realiza também em Cidades e memória (2006) fluxos, deslocamentos a partir de um campo geográfico em que a memória da cidade se presentifica através do nome de ruas, dos nomes dos habitantes, localizando um tempo que a memória conserva. É muito interessante essa relação entre espaço e tempo porque ela perturba a geografia, desfazendo-a de certa maneira, aproximando-a de algo que seria da ordem do afeto. O que levou você a realizar este trabalho?

R.R.: Fui convidada a participar de uma exposição intitulada Primeira Pessoa – esse convite foi legal pois eu já queria fazer a muito tempo esse trabalho, desde que li o livro As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, mas sabia que ia ser algo ligado mesmo ao afeto, um remexer na memória… Daí, primeiro tentei esboçar um mapa mental dos meus trajetos na cidade, e junto com minhas irmãs e minha mãe, fomos lembrando dos moradores, de histórias que compunham essas figuras, e nisso pude perceber essas camadas que compoe a cidade, e principalmente o tempo, pois cada uma de nós tinha um foco diferente, lembranças diferentes. Enfim fiz o meu mapa, pontuando todas as casas das quais nos lembramos e seus moradores. Um tempo depois consegui o mapa e ele era completamente semelhante ao que existia na minha memória.

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4- F.P.: No trabalho “Os 7 mares”(2008-2009), série de 7 fotografias de diversas praias do mundo, assim como no trabalho ”Horizonte azul” (2005) a areia do mar ganha relevo e cria paisagens diferentes. Como você pensou estas paisagens de areia?

R.R.: Não posso deixar de lembrar O Livro de Areia, do Jorge Luiz Borges – e todas as metáforas ligadas a areia, a tentativa fracassada de quem tenta retê-la… Daí a idéia de pensá-la como um pixel, cada grão compondo a imagem…Numa viagem a Fortaleza, tive a oportunidade de acompanhar a feitura dos desenhos nas garrafinhas, a maneira como os desenhos eram feitos me chamou atenção, pois era uma espécie de escultura que no fim ficava plana… Esse processo me deu várias idéias, primeiro foi o Horizonte Azul, onde eu usava diretamente a garrafinha, apenas excluí alguns elementos que os artesãos utilizavam em seus desenhos.

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Depois fiz uma série de desenhos de paisagens num formato que se asemelhava a foto Polaroid. Eu queria aí explicitar esse contraste, do desenho construido com o grão de areia e da fotografia instantânea.

Essa idéia também me motivou a fazer os 7 mares – só que nesse caso crio esculturas efêmeras que serão levadas imediatamente pela água, mas que a fotografia trata de paralizá-las antes desse instante.

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5- F.P.: Você tece uma relação muito delicada e instigante, em muitos de seus trabalhos, entre dois campos diferentes; o das artes visuais e o da literatura. Em As palavras e as coisas (2004), você utiliza as páginas do livro de Foucault para formar cubos de dimensões variadas, em Labirinto (2009) as linhas do livro As mil e umas noites são usadas na construção de um desenho de um labirinto. O que é mais importante nestes trabalhos a sua relação com a literatura ou com a materialidade do livro?

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as palavras e as coisas    labirinto

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R.R.: Eu tenho mesmo um fascínio pelo objeto “livro” – para além de lê-lo gosto de tê-lo. Isso se repete em meu trabalho, esse desmebramento do livro, onde o desencaderno, recorto, colo e o transformo em outro objeto, onde seu conteúdo encontra outra forma, para mim, mais adequada. Mas mesmo assim eu diria que o conteúdo do livro é o fio condutor de tudo.

6- F.P.: Há na Série todos os nomes (2006) um cuidadoso inventário de nomes femininos e masculinos, uma verdadeira coleção de nomes. Walter Benjamin tem uma frase especial que situa bem o lugar do colecionador: “a posse é a mais íntima relação que se pode ter com as coisas, não que elas estejam vivas dentro dele, é ele quem vive dentro delas”. Podemos traduzir algo dessa poética na Série todos os nomes?

R.R.: Creio que sim, esse trabalho fiz quando iniciei a leitura de Todos os Nomes – do Saramago, um livro inteiro onde apenas um personagem tinha seu nome pronunciado. Quando construo uma imagem toda composta por nomes, imagino quantas histórias estão ali contidas, quantos passados, presentes e futuros. Na verdade coleciono possíveis histórias. Gosto de imaginar o que de fato está por trás do nome. Nós precisamos nominar, senão seria impossível estabelecer contato, mas o nome próprio, encerra em si graus distintos de subjetividade. Quando tive meus filhos essa foi para mim um incrível experiência, eu teria o poder de decidir como duas pessoas se chamariam, e como escolher ou inventar… dentre milhões de possilidades. Esse trabalho trata um pouco disso, de tudo que um nome compõe.
Vejo esse trabalho para além de sua visualidade, quando em uma exposição o público é tentado a ler os nomes, um após o outro, onde a sua sonoridade, seu ritmo, também ganham forma e dão a idéia dessa multidão contida na obra.

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todos os nomes

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7- F.P.: Tive o prazer de conviver com você e com o seu trabalho desde o final dos anos 90. Lembro bem da instalação Sabão Rio realizada em Santa Teresa, ali a letra já se fazia presente, encravada no sabão, como signo. Esta instalação consistia em um muro feito de pedras do sabão “Rio” que com a ação da chuva se diluiria lavando as ruas de Santa Teresa. Podemos ver reunido neste seu trabalho elementos tais quais: a letra enquanto marca, a água, e os efeitos de diluição que também se apresentam em muitos de seus trabalhos. Qual a importância desses elementos em sua obra?

R.R.: Esse trabalho eu fiz em parceria com o Felipe Barbosa e a Andreia Di Bernardi. Nós ainda não estávamos no Rio, nem tínhamos uma relação muito próxima com o bairro, mas ao vermos o terreno, essa idéia de construir um muro que tornasse a favela invisível, foi imediata… Claro que logo pensamos também no sabão Rio, que trazia a imagem do Cristo, e a palavra Rio… eram muitas metáforas ali contidas, além da barra ser muito semelhante ao tijolo.
Pensamos em algo que tivesse para além de tudo humor e questionamento.

Foi uma obra em que cada um contribuiu com suas referências, mas vejo sim alguns elementos que continuam presentes no meu processo de trabalho.
Em quase tudo que faço existe o momento de apreciar a imagem e ler o contéudo que forma a imagem. O muro oferecia ao espectador leituras diversas conforme sua proximidade. O público primeiro via o muro, a barreira, depois percebia o sabão, o texto. Ele também funcionava com esse movimento do outro, o perto e o longe, o ver e ler, já estavam ali.
O muro após alguns dias foi desfeito, para além da espuma o sabão, se diluiu quando doamos as barras e elas deixaram de ser parte desse texto-muro e voltaram a ser sabão.

8- F.P.: O seu último trabalho, em processo, Lápis Lázuli que tive a oportunidade de ver, agora, é um desenho extremamente delicado, feminino, inspirado em sua viagem à Istambul. Cada desenho é um desenho em si, e se agrupados, cada desenho fará litoral com outro desenho, mas isto não implica uma correspondência entre eles, embora os elementos sejam da mesma natureza. É um trabalho bastante sofisticado com a letra, e embora não se trate propriamente de nomes e palavras observa-se um desenho que podemos aproximar da caligrafia árabe, são arabescos delicadíssimos. Como surgiu este trabalho? Ele é um marco de um novo direcionamento de sua obra?

R.R.: Bom, essa viagem a Istambul foi mesmo muito reveladora – ver o que eu conhecia por livros foi muito bom. As formas da escrita, as cores e espaços. Pude de fato vivenciar uma relação diferente com a escrita. Paralelo a isso, por conta do livro As mil e uma noites, também nutria uma curiosidade pelo oriente, a maneira como lidam com suas estórias e as contam.

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istambul I

istambul

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Fiz esse ano uma mostra que intitulei Histórias que cabem na palma da mão – ou poemas suspensos onde apresentei diversos desenhos inspirados nos desenhos de henna, os mehendis, comecei a abordar algumas questões que já estavam formigando dentro de mim, desde de minha mostra A Beleza e A Verdade, onde descobri algumas figuras mitológicas como Penélope e Aracne. Confesso que me fizeram observar minha própria maneira de trabalhar, o funcionamento do meu ateliê, e até a minha maneira de lidar com as questões. E a figura feminina no oriente é cercada literalmente de véus…

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fio de ariadne

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Eu me interessei por esse universo. Tenho pesquisado a poesia árabe, os desenhos…E obviamente essa viagem me fez chegar aos tapetes, onde essas estórias e histórias se encontram, tecidos por mulheres, alguns inclusive no ambiente doméstico mesmo. Eles me mostraram uma nova maneira do texto se revelar, sem necessariamente usar a palavra. Por conta dessa viagem também descobri um autor e particularmente um livro (Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho) que fala justamente da relação da imagem e escrita, e relata o universo dos miniaturistas… Com tudo isso tenho pesquisado esses tapetes e utilizado seus desenhos cheios de simbolismo para reviver e recontar, à minha maneira, suas estórias.

Talvez seja, um momento onde o trabalho ganha novos ares, vejo que estou envelhecendo e procurando, também, ter cada vez mais prazer com o trabalho. Observo que há 10 anos atrás o texto se apresentava de maneira crua, quase insolente nos meus trabalhos, e hoje ele não é mais rebatido diretamente para o público. Eu sou o filtro, primeiro ele me atravessa e daí desponta com outro conteúdo, com a minha leitura, com a minha própria história. Nessa série dos tapetes, que chamo Lapis Lazuli, fazendo referência a pedra azul encontrada na “Persia”, que serviu de pigmento, amuleto…Revivo os desenhos e mais uma vez repito e repito, até que suas formas e conteúdos envolvam meu corpo, e não apenas meus olhos e mãos, possibilitando que aquelas estórias também sejam minhas, ao conseguir lê-las e recontá-las.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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