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O texto a seguir é a transcrição de uma fala não revisada mas gentilmente cedida pelo autor, realizada durante a mesa preparatória das XXI Jornadas Clínicas da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio (EBP-Rio) e do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (ICP-RJ) chamada Mulheres de hoje – excessos e sutiliezas do sintoma na psicanálise que ocorreu dia 5 de outubro no RDC da PUC-Rio.

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Pablo Picasso – Les Demoiselles d’Avignon, 1907

Por Rodrigo Lyra*

Boa tarde. Gostaria de começar agradecendo ao coordenador da mesa, Guilherme Gutman, e ao Departamento de Piscologia da PUC-Rio pelo convite. Na verdade, agradeço não somente o convite, mas por terem aceitado o pedido feito por nós da coordenação das XXI Jornadas Clínicas da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio (EBP-Rio) e do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (ICP-RJ) que consistiu em organizar uma mesa preparatória para esse evento aqui na PUC. Assim, além de agradecer o convite feito pelo Departamento e, mais especialmente, aos colegas de pesquisa do Prof. Marcus André Vieira, aproveito para também convidá-los a participarem das XXI Jornadas Clínicas da EBP e do ICP. Para que isso não fique muito abstrato, queria apresentar a vocês o tema da Jornada e compartilhar um pouco do que pensamos, um pouco do que a comissão organizadora pensou quando escolheu esse tema e, mais especialmente, esse subtítulo, isto é, o que justifica uma Jornada chamada Horizontes do Feminino – excessos e sutilezas. Vamos tentar, se for possível, falar dos ditos ‘excessos e sutilezas’ e quem sabe tentar chegar na questão do sintoma que seria, mais propriamente dito, o tema de hoje.

Freud e o feminino

Eu pensei retomar a questão lá de trás pois, a princípio, segundo a teorização freudiana mais clássica, falar em excesso com relação ao feminino não é nada evidente. A princípio, poderíamos dizer que existem em Freud duas linhas de reflexão sobre o feminino. Existiria uma principal que seria a inveja do pênis e, às margens disso, outras observações, conceitos, ideias e falas que não se encaixam tão bem nesse Freud que centraria sua teorização em torno do falo, também dito falocentrico.

A questão da inveja do pênis coloca a mulher numa posição de quem não tem alguma coisa. Esta seria uma das razões possíveis pra explicar uma certa clínica da revindicação, da desvalorização feminina etc. Vou citar uma passagem de Freud que separei mas poderia citar várias outras:

“Observa-se com facilidade que as meninas compartilham plenamente a opinião que seus irmãos têm do pênis, elas desenvolvem um vivo interesse por essa parte do corpo masculino, interesse que é logo seguido pela inveja, as meninas julgam-se prejudicadas e quando uma delas declara que preferiria ser um menino já sabemos qual a deficiência que desejaria sanar, a deficiência de não ter o falo”.

Isso é um ponto. Ao mesmo tempo, sabemos que existe, em Freud, uma série de outras ideias em torno do feminíno como, por exemplo, associar as mulheres ao continente negro ou a conhecidíssima frase , já quase ao fim da vida, segundo a qual “ainda não conseguiu saber o que querem as mulheres”, motivo de uma certa ironia, de uma certa chacota. Isto dito, o que se vê é que, caso ficássemos absolutamente no campo da inveja do pênis, seria mais ou menos fácil responder à pergunta de Freud sobre o que quer uma mulher: ela quer um falo. Todo o campo da maternidade, por exemplo, é um pouco justificado por essa via. O que vamos tentar situar um pouco hoje é o quê estamos chamando de feminino e que extravasaria um pouco a lógica fálica, também presente em Freud mas talvez não tão articulado assim. Freud tenta articular um pouco essas coisas, por exemplo, através da ideia segundo a qual as mulheres teriam um supereu menos desenvolvido justamente por não ter o temor da castração. Os homens, padecendo do complexo de castração, teriam, digamos assim, uma razão a mais pra se curvar às exigências do supereu o que não ocorreria no campo do feminino e que faria inclusive com que elas tivessem essa relação um pouco mais solta. Vemos, no entanto que isso não pode ser o final da discussão e que é preciso tentar ir além.

Considero que a grande virada se dá quando nos perguntamos: esse falo que as mulheres supostamente não tem, o que é? Essa é uma questão que Lacan situou e trabalhou durante anos a fio, ensinando seu auditório – e nós também – a sair de uma associação muito firme entre falo e pênis, que situa definitivamente a mulher no lugar de quem não tem alguma coisa.

Assim, a questão de Freud seria o pênis. Mas se o pênis é um sinal de potência, de gozo, o valor fálico de símbolos de poder etc., o pênis não é só isso. O pênis é também aquilo que não comparece como deveria, aquilo que depois do prazer, precisa de um tempo sem prazer. É aquilo que, na prática, para um homem, se apresenta, sim, como poder, mas também como aquilo que limita o prazer. Assim, a lógica fálica ou, o falo, passa a ser tomado por Lacan, não como órgão em si mas como o símbolo do que está associado ao prazer limitado, circunscrito.

Da falta ao excesso

O gozo fálico é então um certo modo de prazer, dito masculino, gozo fálico, que acontece e que depois de acontecer precisa parar. Trata-se, então, de uma regulação importante do campo pulsional. Já se vê que, associado a isso, vem a ideia de que o campo pulsional por si só não encontra, propriamente dito, uma ordenação, um limite e que isso pode ser transbordante a menos que alguma operação em torno disso venha dar contornos a coisa. O falo passa a ser, portanto, o nome desse regulador de gozo. Nesse sentido a coisa se subverte: ao invés de dizermos “quem não tem o falo está em falta” – o que seria, supostamente, a teorização mais clássica –, chegamos em um “quem não tem o falo está em excesso”. Está em excesso por não ter tão à mão assim esse regulador de gozo, essa função que permite lidar com o transbordamento da pulsão de uma maneira mais ou menos controlada. É isso que permite, por exemplo, Lacan dizer: “à mulher nada falta” ou “nada falta à mulher”. Essa afirmação, feita por ele em 1963, no Seminário X, é, de certa forma bombástica, pois é, sim, uma certa retificação da lógica freudiana, ainda que não de toda lógica freudiana. É uma retificação de uma certa maneira de compreender, por exemplo, aquela passagem que eu trouxe, “as mulheres tem inveja de alguma coisa”. Lacan diz: “às mulheres nada falta”. O problema delas é, ao contrário, um certo excesso por, justamente, não ter grande intimidade com essa função fálica.

Assim como trouxe uma passagem de Freud, trago agora uma de Lacan para fazermos uma contraposição embora eu não queira ir muito longe nessa contraposição. É uma frase longa que não vou trabalhar a fundo, mas que permite pegar um pouco “o clima”:

A mulher revela-se superior no campo do gozo uma vez que seu vínculo com o nó do desejo é bem mais frouxo, a falta, o sinal menos com que é marcada a função fálica do homem e que faz com que sua ligação com o objeto tenha que passar pela negativização do falo e pelo complexo de castração é isso que não constitui para a mulher um nó necessário.

Vocês veem a completa subversão da ideia anterior. O próximo passo, já entrando um pouco no assunto que o Guilherme Gutman trouxe, seria esse: a questão de “quem tem o falo” e “quem não tem o falo” precisaria ser relativizada. Esse “quem” não pode ser absoluto. Não podemos separar o mundo entre “pessoas que tem” e “pessoas que não tem”.

A ideia é, num certo sentido e como está escrito no argumento que tem no nosso folder, que, para psicanálise, a questão do feminino não é uma questão de gênero, isto é, não é uma questão de dividir a sociedade humana entre dois sexos: homens e mulheres. A ideia é: tem alguma coisa que a gente está chamando de feminino e que um homem certamente experimenta ou pode experimentar. Inversamente, também não há mulher alguma que não recorra também ao falo para situar seu gozo. As mulheres talvez estejam, sim, um pouco mais próximas desse transbordar do gozo, tenham que se haver um pouco mais com esse gozo transbordante não fálico. Isso não quer dizer que não haja recurso ao falo, mesmo que ela tenha que buscar o falo do Outro, mesmo que seja através do desejo do Outro. Tomemos, por exemplo, o campo da teorização da histeria. Trata-se de um campo muito centrado em torno do falo, ou seja, histeria não é sinônimo de feminino e sim uma das maneiras possíveis desse feminino se organizar e, frequentemente, isso passa pelo valor fálico da mulher no desejo do Outro.

A psicanálise nos tempos atuais: os excessos….

Separamos então nossa questão da questão do gênero, o que nos permite entrar na questão do excesso. O subtítulo da nossa Jornada, ‘excesso’, não é, propriamente, um conceito. Não tem uma definição precisa, não é um conceito freudiano, nem lacaniano. Se estamos associando isso ao feminino é porque esse gozo transbordante característico das mulheres teria uma certa relação com ele. Além, disso, há uma hipótese segundo a qual isso também apareceria como uma das características importantes do nosso tempo. Localizaríamos isso, por exemplo, nos sintomas marcados por um transbordamento de gozo e por uma satisfação incessante, excessiva, como nas toxicomanias, nas compulsões alimentares, nas compulsões por compras, nas compulsões amorosas e por aí vai. Um dos grandes temas que estamos propondo nessas Jornadas é justamente tentarmos nos perguntar sobre o quê a psicanálise faz com esse excesso tão característico dos tempos atuais. De fato, há toda uma lógica da psicanálise centrada na ideia de que o sujeito goza de menos em função de uma proibição do pai, de uma proibição da civilização e de que é em torno dessa proibição que os sintomas se formam – pretendo voltar a falar sobre o sintoma propriamente dito mais pra frente. Isto posto, o que vemos hoje é um cenário muito diferente: a psicanálise precisa lidar com uma sociedade onde o gozo, a princípio proibido, se torna obrigatório. Estou fazendo divisões estanques que não são absolutas mas que desenham alguma coisa, a saber, que isso coloca uma série de novos problemas e novas questões pra psicanálise. A questão então seria: diante desse excesso, diante desse excesso pulsional tão marcado na nossa época, o que faz a psicanálise? Ela funciona como um falo artificial? Ela vai buscar a boa medida, a temperança, o bom senso? A resposta é ,evidentemente, que não. Ao mesmo tempo, é preciso que alguma outra coisa ela faça que não seja ir na uma contramão do que era o pai, do mito paterno, da ideia de que alguém em algum lugar proíbe que o sujeito faça o que queira. Esse é um ponto importantíssimo nas questões de transformações sexuais e dos múltiplos gozos que os sujeitos desejam ter hoje. Quando se vive numa época em que se pode supor que alguém proíbe alguma coisa, é mais fácil ter a fantasia de que se ninguém proibisse, tudo seria melhor, todos teriam direito plenamente ao seu próprio gozo, a ideia de uma sociedade libertária etc.

O que vivemos hoje é justamente a falência dessa ideia ou dessa fantasia pois, a partir do momento em que tudo é permitido, em que tudo é possível, vemos que por trás da proibição paterna , o que há de fato é uma impossibilidade inerente à satisfação, é o fato de que esta nunca é idêntica ao sujeito que diz a ter. Quando lidamos com a satisfação, passa-se muito rápido da falta para o excesso. Na medida em que se pode tudo, o transbordamento, a pulsão de morte etc. se tornam a tônica das compulsões, cadeia infinita de objetos na qual nenhum deles é exatamente isso que se busca.
Busquemos agora situar o segundo termo do subtítulo: “a sutileza”.

…e as sutilezas

O que seria isso que estamos chamando de sutileza. Como eu disse, não é a boa medida, nem é temperança. Não é o sutil no sentido de ser adequado, de ser correto, de saber se comportar, etc. É de um outro tipo de sutileza que estamos falando, dum tipo, sem dúvida, muito mais difícil de definir. Esse talvez seja o grande tema das Jornadas: há duas plenárias que serão inclusive em torno disso.
A primeira se chama: Como se escreve o feminino?. A ideia é que esse gozo escapa à possibilidade de ser nomeado e transborda o simbólico. Trata-se de algo do qual não se consegue falar e que puxa então a pergunta: como se escreve? É verdade que essa pergunta já coloca uma afirmação, uma tomada de posição: isso se escreve. Mas como isso se escrever, não é nada óbvio. Teremos então, durante as jornadas, um tempo especial dedicado a isso. Buscaremos abordar a questão tanto no campo da literatura como no campo do fim de análise, nos relatos ditos de Passe.

O passe, talvez vocês saibam, é uma maneira da Escola pensar o final de análise, a passagem a analista e como isso se materializa. Essa materialização do excesso é que a gente está chamando de sutileza. Embora eu saiba que eu estou falando de alguma coisa ainda vaga, podemos adiantar que se trata de uma sutileza que guarda íntimas relações com o excesso. Não e a pulsão de morte em sua plenitude, mas também não é seu oposto. Trata-se de alguma coisa difícil de situar. Assim, justamente, a segunda plenária se chama: “O analista e a mulher”, pois parte de uma certa hipótese segundo a qual essa sutileza, que, por sua vez, está ligada ao uso feminino, também tem muito a ver com a posição do analista, com aquilo que faz o psicanalista. Há uma passagem de Lacan que está sendo muito citada e usada na Escola em função do fato do tema do feminino estar muito em voga e que é a seguinte: “As mulheres são as melhores analistas quando não são as piores”. Isso dá bem a ideia do quanto que a sutileza fundamental para uma analista pode também estar próxima do excesso transbordante. É algo que precisa estar lá mas que também tem íntimas relações com aquilo que é devastador, com aquilo que é despersonalizante, com aquilo que é caótico etc. A grande questão das Jornadas seria talvez: como passar do excesso para sutileza sem recorrer ao falo? É uma questão muito ampla que, na verdade, coloca em xeque o que é a própria psicanálise e, mais especialmente, o que é a psicanálise hoje. Como passar do caos à singularidade sem recorrer a boa medida, a temperança, a esquemas mais ou menos prontos, ao analista como aquele que sabe, que tem a sua experiência, que vai ajudar o analisando a dar uns bons contornos pra isso. Isso tudo está presente na clínica, faz parte dela mas não é o fundamental da coisa. Coloca-se então a questão do que acontece nesse lugar.

O sintoma ontem e hoje

Pra tentar rapidamente chegar na questão do sintoma, pra tentar situar em torno do sintoma, isso que imagino ser o problema, me perguntei, ao ver que, justamente, essa mesa preparatória se daria em torno da questão do sintoma, a respeito da possibilidade de como articular o excesso ao sintoma e me dei conta – é pelo menos assim que eu queria tentar ler com vocês ou colocar isso em debate – que, a princípio, a invenção freudiana da psicanálise se deu em torno da ideia de que o sintoma é decorrencia de um excesso que aconteceu em algum lugar. A teoria do trauma segundo Freud é: esse sintoma existe porque em algum lugar houve um excesso de gozo. Mesmo Freud tendo, em 1898, abandonado a teoria da sedução, quando diz não acreditar mais na sua histérica etc., preserva-se, ainda assim, a ideia de que o excesso não se deu de fato, a idéia de que, na realidade, não houve, de fato, sedução. Isto posto, o excesso teria sido “desejado”, teria se manifestado psiquicamente como desejo, como intenção. Alguma coisa teria então proibido essa satisfação e o sintoma surgiria como satisfação substitutiva. Mas essa satisfação implicaria um sofrimento. Isso da conta do quanto o sintoma está ligado, não apenas a uma disfunção, mas também a essa satisfação, ou seja, o excesso é situado inicialmente como uma suposição, supõe-se que alguém em algum lugar gozou demais, que alguém em algum lugar gozou cedo demais e que isso deu problema. Em uma análise aposta-se na palavra como uma maneira de chegar a isso. Nesse caminho, encontram-se as sutilezas. Mas o que seriam estas sutilezas? Seriam as maneiras diversas de abordar isso que teria sido um excesso, seria abordar as pequenas parcelas de gozo de um sujeito, as singulares maneiras através das quais alguém goza, alguém foi gozado etc. Ainda que isso nunca seja encontrado de maneira absoluta, uma análise vai levando um sujeito a encontrar isso de diversas maneiras, a nomear isso de diversas maneiras mesmo que não muito claras. A própria presença do analista está ali para materializar o fato de que isso, o gozo, nunca é completamente nomeável. Sua presença sustenta um pouco esse relançamento da questão sobre o gozo e sobre essa outra presença que cabe mas não cabe nas palavras. Ao longo de uma análise, com meia dúzia de sutilezas, é possível desenhar um excesso. Com meia dúzia de sutilezas materializadas, tem-se uma ideia de qual é a maneira excessiva de um sujeito obter satisfação e que é difícil de ver, que é difícil de encarar sendo, por isso mesmo, encarado através de sutilezas. Não estou querendo dizer com isso que o excesso não se apresente, até porque a sutileza em questão é excessiva, mas acho que dá para organizar um pouco assim. Este seria sintoma dito clássico e a forma como seria tomado numa análise, o que não é mais o caso, ou pelo menos não é o caso sempre, ou pelo menos não é o caso dos sintomas que estamos pesquisando e que estão, também, se apresentando, hoje, na clínica.

Nestes últimos, o excesso é o sintoma. O excesso é justamente a impossibilidade de dar um contorno à satisfação, de dar um contorno à devastação que se apresenta de maneira nua e crua. Isso muitas vezes complica bastante o que seria, a princípio, o início de uma análise. Aqui, não teríamos mais o excesso como uma suposição. Já não seria possível fazer dele a causa de uma busca de sentido. Mesmo quando se diz que Freud buscava o sentido do sintoma, o que de fato buscava era o sentido do excesso, era o sentido muito ligado ao excesso e não um sentido qualquer. Se ele dissesse a uma histérica cuja perna se encontrasse paralisada: “a sua paralisia se deu porque um carro buzinou na rua”, estaria dando um sentido qualquer, não haveria uma certa articulação desse sentido com a satisfação excessiva. Isso se perde ou pelo menos isso se torna muito menos utilizado quando os sintomas são sintomas transbordantes de gozo. Vemos, por exemplo, na clínica das toxicomanias, uma aderência muito grande ao uso de substancias. É muito difícil fazer disso um desejo de saber. É muito difícil dizer ao um toxicômano: “vamos encontrar a razão disso”, “vamos encontrar o porquê disso”, “fale mais sobre isso” etc. Sabemos que a clínica analítica fracassa ao se posicionar desse modo.
Muitas vezes, não parece ser mais possível adiar o excesso ou a sutileza. Este é um dos grandes temas de pesquisa das Jornadas. Teremos uma mesa redonda inteira em torno da clínica dos excessos, pessoas que trabalham com isso, trazendo as suas hipóteses, debatendo entre si, se perguntando como faz a psicanálise hoje com isso, etc. Mas para não deixar apenas para as Jornadas e para finalizar, acho que o que se subverte na teoria do início de análise ou na clínica do início de análise é: às vezes é preciso encontrar já uma sutileza; é preciso produzir uma sutileza pra que a própria questão sobre o gozo se coloque. Não é possível mais que o analista faça um convite à associação livre como convite vago, como convite de que fale, apostando, junto ao paciente, que em algum lugar e em algum momento algo será encontrado. Isso muitas vezes não encontra eco, não fisga o sujeito, não fisga o gozo. Acho então que se existe alguma coisa de urgente. O que se chama de emergência nessa clínica mais grave talvez não seja o fato de que o sujeito vai morrer, de que é urgente porque a situação é grave. Entendo a urgência aí como: há uma certa urgência em materializar esse gozo excessivo através de uma sutileza e a partir daí, talvez, uma pergunta possa ser colocada sobre isso.

Para saber mais sobre as XXI Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ, clique aqui.

*Rodrigo Lyra é psicanalista, correspondente da EBP-Rio e coordenador das XXI Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ.

Por Ana Lúcia Lutterbach Holck *

O que quer uma mulher? Freud adianta que só há libido masculina. O que quer dizer isso? – senão que um campo, que nem por isso é alguma coisa, se acha assim ignorado. Esse campo é o de todos os seres que assumem o estatuto da mulher – se é que esse ser assume o que quer que seja por sua conta. Além disso, é impropriamente que o chamamos a mulher, pois, a partir do momento em que ele se enuncia pelo nãotodo, não pode se escrever. Aqui o artigo a só existe barrado. Esse /A tem relação com o significante A enquanto barrado.[1]

A mulher não existe.

Por que Antígona não seguiu os conselhos de Ismênia? Por que Diadorim não revelou seu segredo a Riobaldo? Por que Ana Karenina se jogou debaixo de um trem e Virgínia Woolf no rio? Por que Duras escreve? Por que Lol se calou? Porque não há A.

De um lado da humanidade estão aqueles que exis­tem, fazem saber. Com o saber fazem indústrias, pontes, coador e fraldas descartáveis, guerras, bebês de proveta, remédios, bombas, carros, tortura, fortuna, doenças, fast-food e charuto. E de outro estão as que não existem e só sabem fazer com o impossível, desafiando a Deus: desespero, suicídio, traição, paixão, loucura, ferocidade, ficção, poesia, êxtase. Por quê? Porque não há A.

O que faziam as mulheres na Grécia antiga? Sexo e amor eram assuntos importantes e, junto com a verdade e a guerra, eram para serem tratados entre os homens. Parece que eles também não estavam interessados em educá-las, e muito menos em tê-las como educadoras. A educação era dos homens para os homens. Para os assuntos domésti­cos, ti­nham os escravos. Elas estavam excluídas também da política. Parece que os antigos deixaram as mulheres à parte. Devia ser uma espécie de campo sagrado, melhor não mexer.

O que será que as mulheres faziam quando estavam entregues a si mesmas, entre si? Chico Buarque acha que as mulheres de Atenas teciam esperando os seus maridos. Homero, com Penélope, também. Elas teciam e esperavam. Esperavam a guerra para tecer. Freud achava que tecer era o melhor que as mulheres podiam fazer. Era isso que as mu­lheres faziam, teciam. Os homens iam para a guerra e as mulheres esperavam. Esperavam, tecendo ter paz, em paz.

É isso, tecem ou insistem até o limite da morte em enterrar seus irmãos.

Tecer. É isso o que as mulheres fariam se fossem entregues a sua solidão. As mulheres gostam de tecer. Tecer fios e ficções. Só que nunca inventaram uma tecelagem para enviar as mulheres quando elas começam a não querer comer, ficam paralíticas, mudas, apaixonadas ou cegas.

Na época de Freud elas eram mandadas para as clínicas de repouso. Achavam que elas precisavam de repouso, que estavam cansadas. Cansadas de quê? Seria um cansaço de tentar ser homem? Ou tentar fazer existir a mulher? Ou eram os homens que ficavam cansados de vê-las, assim, tão nãotodas. Lá elas poderiam tecer na solidão.

Quando será que inventaram que a mulher devia fazer parceria com algo mais que a solidão? Quando será que inventaram que a mulher tinha que existir? É um desastre porque elas não sabem existir direito. E os homens reclamam.

Não sei quando foi que inventaram isso tudo, mas a Segunda Guerra foi um grande salto neste sentido. Será que foi o mercado e as feministas que inventaram que a mulher tinha que existir? Será que inventaram que a mu­lher tinha que fazer coisa de homem na mesma época que inventaram as indústrias de assassinato em massa?[2]

É isso. Foi o mercado e a burocracia que decretaram, ao mesmo tempo, a morte de Deus, a indústria da morte organizada e racionalizada; a construção de um muro, a guerra fria, a existência da mulher e o amuro. Foi preciso Lacan dizer que a mulher não existia justamente porque insistiam em sua existência.

Sobrevivemos à morte de Deus, à guerra e ao muro, mas se a mulher tomar existência será o fim do mundo, o fim do buraco sobre o qual se pode tecer. O fim do nãotodo. Seria como propor o fim do zero.

Mas o que aconteceria se fossem deixadas em sua solidão, como as mulheres de Atenas e de Tebas? Elas iriam tecer, tecer palavras e como são nãotodas, iriam escrever, escrever até chegar a escrever sem gramática, até chegar à não-escritura:

Haverá uma escritura do não-escrito. Um dia isso acontecerá. Uma escritura curta, sem gramática, uma escritura
só de palavras. De palavras sem gramática de sustentação. Desgarradas. Escrever. E deixar em seguida.[3]

E aí os homens poderiam ler o jornal, assistir ao jogo, trepar, fazer negócios, viadutos e guerras, em paz.

Claro que essa separação não diz respeito à anatomia e cada um se postaria, como já acontece, do lado que pudesse.

A sexualidade se manteria, mas sem almejar a relação.

Só restaria a poesia.

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* Ana Lúcia Lutterbach Holck é a autora de Patu – A Muher Abismada, publicado pela  Subversos. O presente texto é a apresentação deste seu livro.

[1] Lacan, J. O Seminário 20, Mais ainda [1972-1973]. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1982, p.108.

[2] “Essa nova face da morte organizada, racionalizada, descoberta na Alemanha, desconcerta antes que indigna. […] acaba de assassinar onze milhões de seres humanos da mesma maneira metódica, que uma industria de estado.” Duras, M. La Douleur. Paris : Gallimard, 1985, p. 65. Livre tradução da autora.

[3] Duras, M. Écrire. Paris : Gallimard, 2003, p. 86. Livre tradução da autora.

Acompanhe abaixo o início do bate-bola entre Antônio Teixeira e Ana Lucia Lutterbach Holck. Por ocasião do lançamento de Patu – A mulher abismada, pedimos a Antônio que elaborasse algumas questões para a autora.

***

Antônio Teixeira: Ana, no final de sua primeira incursão, você afirma que sobrevivemos à morte de Deus, à guerra e ao muro, mas que se a mulher tomar existência será o fim do mundo, o fim do buraco sobre o qual se pode tecer. O curioso é que, aos olhos de Jean-Claude Milner, esse fim do mundo já se apresenta, na forma do liberalismo americano, como triunfo justamente do regime do não-todo, cuja erótica você aborda no segundo ensaio. É o que se conclui quando ele afirma, no final de seu comentário sobre Eyes wide shut, de S. Kubrick, que hoje cabe à mulher, e não ao homem, tomar a iniciativa e pronunciar a palavra “fuck“, maître-mot contemporâneo que se desdobra nos seguintetermos:

i. há uma relação sexual, que é uma relação de produção;

ii. a relação sexual, se existe uma (ora, há uma, mas somente a mulher pode garanti-la), é a pedra angular da sociedade;

iii. uma sociedade que faz da relação sexual sua pedra angular é também uma sociedade que faz de toda espécie de relação ao mesmo tempo seu elemento e seu limite: a sociedade começa e termina onde existem relações;

iv. para que do sexo surja qualquer relação, é preciso a família;

v. pensar que o homem é dela o único garantidor é ser reacionário (Bush pai ou filho); pensar que a mulher é dela a garantia é ser progressista (Clinton, marido e mulher);

vi. a mulher existe, tanto e mais do que o homem.
Eu gostaria de ouvir o que você tem a dizer, a partir dessa observação, a respeito da sociedade atual em que o Múltiplo da relação floresce no ocaso do Um, gerando, como você descreve, um conjunto aberto definido pela impossibilidade de circunscrever uma totalidade.

 

Ana Lucia Lutterbach Holck: Quando prevalece o falo, a mulher fica dividida entre duas identificações, a fálica e a não-toda. “O fim do mundo” seria a mulher existir, ou seja, seria o privilégio da identificação fálica e a mulher passar a ocupar o lugar que tradicionalmente é ocupado pelo homem. Como parece que foi a proposta de um certo feminismo, já ultrapassado.

Parece que o comentário de Milner aborda outra perspectiva, ou seja, a prevalência do não-todo, a prevalência do feminino, a pulverização dos gozos, portanto é justamente o inverso da ordenação fálica.  

O risco é agora o surgimento de uma mulher “descrente” do falo, que passa a denunciar a posição masculina como impostura, um semblante entre outros. Como disse Miller:

As novas [mulheres] sabem que [o homem] não é mais que um semblante, não o tomam a sério: é a feminilidade sem complexos. Uma Sarah Palin não reconhece nenhuma falta, não tem medo de nada, cria filhos enquanto maneja um fuzil, se apresenta como uma nova força que vai, um pitbull com os lábios pintados.

Bem, estamos diante do ocaso do Um, floresce o múltiplo e por enquanto só posso dizer que se o mundo torna-se feminino, as soluções também devem ser encontradas aí. Sara Palin é a versão da descrença no falo, mas no lugar da referência única, o feminino é o lugar das invenções singulares, do savoir y faire com o sintoma, e entre uma invenção e outra, caos esporádicos, evanescentes e pontuais.

Antônio: Com relação à comparação magistral que você faz entre Ana Karenina e Lol V. Stein, chama atenção o fato de que, no primeiro caso, embora a protagonista seja levada a um desfecho trágico, sua evolução se encontra esteticamente emoldurada pelo brilho do arrebatamento que a acompanha,

ficando em segundo plano a estabilização pequeno-burguesa assumida pela personagem de Kitty. Em Lol, evidencia-se antes o arrebatamento duro e seco, como você se exprime, do love stein, do amor petrificado na estática do fantasma, que se segue a uma estabilização imaginária da qual Duras expõe, sem rodeios, o que ela comporta de patético e derrisório. Você acha que poderíamos dizer que essa saída contemporânea, representada por Lol, estaria relacionada ao fato da inexistência do Outro como sentido possível da sublimação, inexistência que se traduz, no dizer de F. Bacon, pelo fato de que o homem finalmente se descobre como um acidente desprovido de sentido?
 

Ana Lucia: Sua questão está muito condensada, mas traz em seu bojo a resposta nesta citação de Bacon, que sintetiza bem o momento atual. Mas eu faria aí uma distinção entre a solução forjada pelo personagem Lol e a escrita de Duras. Prefiro me deter na saída encontrada na escrita de Duras, exemplar de uma sublimação sem o Outro. Não há mais a referência comum que garantia uma moldura estável, permitindo uma certa presença do real nas soluções estéticas. A Coisa não é cingida, não há véu, não há o que desvelar.

Antônio: Com relação à discussão sobre o feminino e o espaço sexual, você esclarece a formulação, extraída de Lacan, de que Don Juan seria um fantasma feminino na medida em que Don Juan justamente dispensa o limite do fantasma como condição de desejo. Ao percorrer todas as mulheres, uma a uma, Don Juan não deixar seu desejo estancar na inscrição perversa do gozo masculino, que se interrompe diante da mulher suposta conter o objeto a. Eu gostaria que você esclarecesse porque esse homem hors série vem constituir um fantasma feminino.

 

Ana Lucia: Na verdade, no seminário da angústia, Lacan se refere à D. Juan como um sonho feminino. Bem, em primeiro lugar é um sonho feminino porque só uma mulher pode supor um gozo masculino sem o limite da fantasia, a experiência do homem não lhe permite ter o mesmo sonho. D. Juan não inspira o desejo, ele se infiltra na cama das mulheres, como diz Lacan, sem que ele, nem ninguém, saiba como. É o sonho feminino porque, assim, não produz angústia, o angustiante para a mulher é sentir-se o objeto que está no centro do desejo.

Maricia CiscatoPor Maricia Ciscato

Maricia CiscatoNesse artigo, Maricia Ciscato se detém em Baudelaire e sua aproximação entre o feminino e a modernidade.
Maricia Ciscato

Com uma breve retomada da descrição de Baudelaire sobre o Belo, que contempla o eterno e o transitório, Maricia nos leva ao seguinte ponto: essa dualidade, aludida no texto também por meio da posição feminina, dá contorno ao impossível na experiência do Belo. Essa espécie de terceiro elemento não sobrevive à tentativa de separação entre o eterno e o transitório. Tal tentativa levaria à extinção do que cria e é criado na junção que resulta no Belo, justamente o impossível.

Maricia Ciscato

Entre a modernidade como berço da psicanálise e a mulher como uma espécie de ponto cego do texto freudiano, a partir das considerações de Baudelaire, chegamos a esse inapreensível que Maricia explora como uma espécie de segredo feminino não todo falado. É que ele não se faz de conteúdo. Como diz Marisa Monte em Infinito particular, “é só mistério, não tem segredo”.

Maricia Ciscato

A idéia de que é o grito que faz surgir o silêncio, de que é o contorno do jarro que faz surgir o vazio, sustenta também o lugar que o feminino possui. A mulher, ao mesmo tempo em que vela, através de seus olhares e ornamentos, o inacessível, também o faz existir. Segundo Serge André: “A mulher só pode ser atingida ou designada pelo viés de um semblante”. Diante da falta de uma essência significável, ela só pode se afirmar através de artifícios. Ao mesmo tempo em que são os artifícios femininos que fazem surgir o enigma do inacessível, do inapreensível.

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