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por Antônio Teixeira

A cena ocorre, verossimilmente, no ambulatório de clínica geral de um serviço público, onde o médico recebe, para consulta, uma moça provinciana de aspecto sofrido e olhar ingênuo que a ele se dirige, timidamente, limitando-se a queixar de uma dor que, embora profunda, ela não consegue localizar:

_ Onde você sente essa dor?, pergunta-lhe o médico, impaciente, pensando na interminável fila de atendimentos que o aguardam no corredor do ambulatório.
_ Não sei dizer, responde-lhe ela, desconcertada.
_ Como não sabe?!, replica-lhe o médico, visivelmente irritado.
_ Não sei onde dói, só sei que dói, e que dói muito…

Se reproduzo aqui esse provável diálogo, inspirado numa passagem de A hora da Estrela, de Clarice Lispector, é porque nele se enuncia exemplarmente, em sua simplicidade, o fenômeno clínico a que Lacan daria o nome, no escrito Kant com Sade, de “dor de existir” (LACAN, 1966, p. 777). Essa dor de existir, que meus alunos do curso de medicina apelidaram afetuosamente de “existalgia”, seria, por assim dizer, a ressonância sensível de uma condição subjetiva à qual os filósofos existencialistas deram o nome de “o absurdo” ou de “o injustificado da existência”.

“Existir é se beber sem sentir sede”, escrevia Jean-Paul Sartre, em L’Âge de Raison, destacando paradoxalmente, na dor de existir, uma anestesia referida à própria condição. Sua apresentação se atesta como uma ausência de sensibilidade que acomete o sujeito incapaz de localizar, no mundo, um valor que justifique sua presença. Carente de algo que possa lhe dar sentido, o sujeito se vê privado da tensão essencial ao desejo que confere a percepção do mundo uma intencionalidade própria. É por isso que nos vemos às voltas, na clínica da depressão, com indivíduos que se mostram apáticos, desprovidos de intencionalidade, pessoas que num certo momento se vêem incapazes de localizar, na superfície extensa e tediosa que para elas se tornou a realidade, a tensão que imprime ao mundo a verticalidade do desejo.

Pois já se foi o tempo em que se podia estilizar a depressão, em que se podia dar à tristeza a dimensão de valor estetizada no gesto do poeta romântico do século XIX. Nosso momento é outro: o discurso contemporâneo não quer mais saber da depressão enquanto valor, ele não mais se encanta pela tristeza. Incapaz de dar ao lamento uma forma sublimada, nossa época trata os afetos tristes como uma deficiência a ser corrigida. Diante do imperativo obsceno de otimismo, no mundo atual, diante da ditadura da alegria e dos corpos saudáveis que hoje se impõe, a tristeza não comporta mais nenhum valor socializante. A civilização que valoriza a competição e as conquistas do mercado não mais tolera seus deprimidos (SOLLER, 2005, p. 73-74).
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