arquivo

Arquivo da tag: Guilherme Dable

por Fátima Pinheiro

Guilherme Dable (1976) artista gaúcho que vive e trabalha em Porto Alegre, é o meu entrevistado deste número da coluna “ O artista por ele mesmo”. Iniciou o seu trabalho artístico em 2005, um de seus trabalhos pertence à coleção Gilberto Chateaubriand / MAM- RJ, e é um dos artistas selecionados para o “Rumos Itaú Cultural” /2011-13. Guilherme Dable trabalha com desenho, pintura, vídeo e performance, e demonstra através de seu depoimento ser inteiramente dedicado ao seu fazer artístico revelando com clareza as questões que envolvem o seu trabalho. Impregnados de sua experiência com a música os seus desenhos possuem uma “instabilidade silenciosa”, como se refere o artista, traduzindo a poética de seu processo que se abre para novas possibilidades no campo da arte contemporânea.

Fátima Pinheiro: O que levou você para a arte?

Guilherme Dable: Tive a sorte de crescer em uma família interessada em arte. Meus pais sempre frequentaram museus e me levavam junto. Tive a oportunidade de morar fora do país quando era criança e lembro de ser muito estimulado nesse sentido, visitando museus e locais históricos – e lembro-me de gostar muito disso, de achar fascinante estar naqueles lugares. Depois disso, o interesse seguiu naturalmente, mas só fui focar nas artes visuais como uma possibilidade de prática a partir de 2005. Antes disso, trabalhei no mercado publicitário e fui baixista de diversas bandas. Até meus catorze anos eu desenhava muito, mas parei de desenhar quando descobri o rock. Ao deixar a Tom Bloch [banda que eu integrei entre 1998 e 2004], me voltei novamente para o desenho, e em seguida fui cursar a graduação em Artes Visuais na UFRGS, onde recentemente concluí o mestrado. Agora, o que me levou para a arte foi uma saturação da vida que eu levava trabalhando com publicidade. Estava ficando muito claro que as questões que me interessavam e que eu gostava de estudar, não eram compatíveis com a minha profissão. Após a decisão de deixar a banda, o desenho foi ocupando espaço na minha vida de tal maneira que a possibilidade de trabalhar com isso, em tempo integral, passou a fazer muito sentido. E a partir de então entrei em um processo de mudança, encontrando maneiras de ganhar dinheiro com desenho enquanto estudava arte. Trabalhei [e ainda trabalho] como ilustrador, para o mercado editorial, que é um ótimo respiro para a minha prática de ateliê.

F.P.: Como se deu a sua entrada no circuito artístico?

G. D.: Encontrei, no primeiro dia de aula no Instituto de Artes, um ex-colega da faculdade de comunicação, Túlio Pinto. Conversando, ele me contou que tinha acabado de alugar um espaço para trabalhar, junto de mais alguns amigos, e este espaço ficava perto de onde eu morava [descobrimos que éramos, também, praticamente vizinhos]. Poucos meses depois, eu passei a dividir este espaço, que acabou tornando-se o Atelier Subterrânea. O primeiro trabalho que apresentei foi o Carbonos Perfeitos, no final de 2006, três comprimidos gigantes feitos de tecido e fibra de silicone, em um salão de artes aqui em Porto Alegre. Não muito tempo depois, fui selecionado como destaque entre os candidatos da Bolsa Iberê Camargo. Mas o mais importante nessa entrada, foi a experiência de dividir a Subterrânea desde 2006, que nos oportunizou contatos com muita gente do país inteiro. Outro ponto, além da formação na faculdade, foi ter estudado com Charles Watson em 2007, um período muito intenso, mas que me ajudou a apontar e sistematizar muita coisa em meu processo. De lá pra cá, foi um processo de construção, que se acelerou a partir de 2011 com a seleção para o projeto Rumos Artes Visuais, com a coletiva que participei no final de 2011, no Rio, na galeria Coleção de Arte, e daí em diante. Antes disso, já havia uma base construída aqui no Rio Grande do Sul, onde certamente a atuação da Subterrânea ajudou muito.

F.P.: Você é um artista que trabalha com o desenho, com a pintura, a performance, e o vídeo. Como você situa o seu processo artístico e o que você pensa sobre a sua arte?

G. D.: Essa pergunta sempre é muito difícil! Eu penso que meu trabalho é uma tentativa que faço de reorganizar o mundo através da maneira que eu o vejo. É uma maneira de tentar entendê-lo, mas acho que, no fim, é uma tentativa de eu me entender, de apaziguar alguma coisa interna. Uma vontade de ver como as coisas seriam se fossem da maneira que eu imaginei. Ou também uma maneira de tentar me enxergar, me adequar nesse mundo. Mas, ao olhar para a minha produção, enxergo uma vontade de discutir o temporal dentro das artes visuais, em trabalhos como a série Tacet, por exemplo. Há, ali, um tensionamento da ideia de tempo entre a performance, que produz simultaneamente dois registros distintos, e esses registros, que apesar de terem sido produzidos simultaneamente, não dividem mais esta característica na montagem. Há o tempo da música, que soa no espaço da exposição, e outro dos desenhos, que referem-se àquele evento passado [a performance]. Dos Ombros dos Gigantes é outro trabalho que toca nessa questão. Os livros são produzidos a partir de livros que eu li e sublinhei. Os que produzi carregam aqueles trechos em potência, mas não de fato. O tempo da leitura está de alguma forma, presente nos metros de papel que formam a sanfona do miolo do livro. Mas o desenho encontrado nas páginas do livro que produzi refere-se a outro tipo de tempo. Eu gosto muito de pensar a forma em que o tempo se deposita sobre as coisas – isso é uma questão presente no trabalho de muitos artistas, e me interessa desde muito antes de eu pensar em trabalhar com arte.

F.P.: Você realizou um trabalho em 2011 sobre tela, sem título, que hoje faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand. Neste trabalho você utiliza cores em áreas densas e traços muito leves, através do desenho, criando uma heterogeneidade expressiva e bastante instigante, além de algo da ordem do inacabado. Você concorda sobre o aspecto da heterogeneidade e do inacabado? O que você tem a dizer sobre isso?

G. D.: Concordo, sim. Em uma das conversas com amigos, no ateliê, ouvi que havia algo na minha produção que era, para este amigo, instigante. Segundo ele, os elementos dos desenhos estavam sempre ‘a ponto de desabarem’, mas isso não acontecia. Acho que existe um equilíbrio precário na maneira que eu resolvo visualmente os desenhos [e incluo aqui os trabalhos sobre tela, que eu não penso de modo diferente dos desenhos]. Um dos motivos que me levou a trabalhar sobre tela foi a maior resistência da tela em relação ao papel – já tive que descartar desenhos no ateliê por destruir o papel durante o processo, de tanta ação sobre ele. Nesse trabalho específico eu usei alguns procedimentos [acho que empolgado pela maior resistência da tela] que danificaram regiões na tela a ponto do pessoal do MAM, quando a recebeu, me ligar perguntando se era daquele jeito mesmo [e, no fim, optou-se por deixar assim mesmo]. Talvez, quando meu amigo se referiu a esse equilíbrio precário, estivesse se referindo a esses aspectos de heterogeneidade e inacabado. O inacabado é uma característica que certamente eu trago do desenho; é algo que me parece funcionar muito mais facilmente no papel do que na tela, mas tentar fazer isso acontecer sem parecer inacabado de uma maneira que comprometa o trabalho sobre tela é um desafio interessante. Ocorreu-me agora que talvez haja uma espécie de instabilidade silenciosa no meu trabalho. Vou pensar mais sobre isso…

F.P.: Quais os artistas que dialogam e/ou impulsionam o seu trabalho?

G. D.: Por um lado, tem os artistas que eu conheci pelos livros, ou pelas exposições. Disso, dá pra citar Jasper Johns, Richard Diebenkorn, Robert Rauschenberg, Terry Winters, Mondrian, William Kentridge, Matisse, Sean Scully, Brice Marden, Waltercio Caldas, Morandi, Mira Schendel, Jorge Macchi… Daria pra passsar o dia dando nomes, citando filmes, discos, livros. Mas, por outro lado, os artistas que eu tenho a sorte de conhecer e de trocar, conversar sobre trabalho, talvez sejam os que realmente impulsionam [lá vai outra lista!]. Os meus colegas de Subterrânea, com certeza, mas também Flávio Gonçalves, Cadu, Manoel Veiga, Gisele Camargo, Amélia Brandelli, Diego Silveira, Marina Camargo, Nik Neves, Carlos Asp, Carlos Pasquetti, Romy Pocztaruk, Evandro Machado, Daniel Senise, Ernani Chaves, Patrizia D’Angello, Gil Vicente, Lucia Laguna, Thomas Rohrer, Panda Gianfratti, Alvaro Seixas, Rafael Alonso, Maria Laet, Jimson Vilela, Luciana Paiva, Rogério Livi, Frantz, Ricardo Mello, Rafael Pagatini, Edith Derdyk… De novo, uma lista que tomaria páginas e páginas – nessas conversas e visitas aos ateliês as trocas também são muito intensas, e isso reverbera muito em mim. Tanto quanto estudar a obra de um artista monumental, às vezes até mais.

F.P.: Você é gaúcho e mora em Porto Alegre, o lugar que você vive assim como certos hábitos atravessam ou não o seu trabalho?

G. D.: Acho que não, em relação ao lugar. Uma coisa curiosa é que muitos dos desenhos de observação que faço e que servem como base para minha produção são feitos quando saio de Porto Alegre. Uma visita a São Paulo ou ao Rio me rende muitos desenhos, talvez por estar menos condicionado à paisagem desses lugares. Então, o fato de eu viajar com alguma frequência alimenta aspectos do meu trabalho, de modo bastante pontual, como extensão do ateliê [sem contar as possibilidades de frequentar exposições, museus, observar hábitos, que as viagens te proporcionam]. Por outro lado, talvez eu não tivesse conseguido executar a série Tacet em outro lugar, pois a colaboração do Diego Silveira, músico e amigo de longa data, foi fundamental para que ela acontecesse [isso contradiz eu achar que o lugar não influencia!]. Mas eu nunca me preocupei em alguma coisa do tipo “arte gaúcha”, que pra mim não faz o menor sentido pensar nesse termo. O fato de eu morar aqui não fez com que eu olhasse apenas para dentro das fronteiras locais para formar meu repertório, ou encontrar meus pares. Meus pais se divorciaram quando eu tinha oito anos, e meu pai viveu em São Paulo por mais oito anos depois disso. Eu e meus irmãos o visitávamos frequentemente, passávamos as férias escolares por lá, muitas vezes. Essa coisa de termos duas casas, duas turmas de amigos, uma em cada cidade, acabou sendo uma experiência muito rica. E entender o deslocamento como um movimento natural ajudou muito a entender a necessidade de olhar para fora, assim como a aprender a lidar com situações novas, fora de um ambiente familiar. Alguns dos meus melhores interlocutores moram fora de Porto Alegre, e conversamos frequentemente, seja por e-mail, telefone, ou nas viagens. Pensando bem, isso é ótimo, na medida em que são olhares que não são necessariamente familiares ao meu entorno. Eu acho que a falta de contexto local pode ser muito bem-vinda em alguns casos.

F.P.: Em “Tacet” (2012), o registro em vídeo, nota-se a precariedade e a leveza do traço, o som, um corpo que desaparece e depois se faz presente. Trata-se de uma poética?

G. D.: A precariedade é um aspecto que eu acho muito presente na série Tacet. Ela aparece no sistema de registrar os traços – carbono filme e papel japonês -, e segue na maneira em que eles são expostos, presos por alfinetes nas paredes. Os papéis muitas vezes acabam amassados, furados ou rasgados, por conta da ação dos músicos. Ao mesmo tempo em que isso aponta para uma precariedade do suporte, aponta para a questão “indicial” do desenho, a prova de que um corpo passou por ali e agiu sobre aquele suporte – esse corpo passou tempo em contato com esse suporte. E há, na música, em algum momento a correspondência desse tempo do som com a marca, mas não temos como encontrar o momento da correspondência – e precisa? Agrada-me deixar essa correspondência em suspensão, em tensão. Acho que todo corpo que desaparece se mantém presente, de alguma forma, no mundo. O mundo está cheio de desenhos feitos por situações que não tem como objetivo gerar um desenho. O insight da série Tacet ocorreu na troca das cordas do meu baixo, quando vi que os vinte anos de uso do instrumento tinham deixado marcas em pontos de seu braço; nisso, resolvi capturar esta ação de alguma forma. Mesas antigas de madeira guardam marcas de uso, desenhos que demoraram décadas para se formarem. Eu gosto de pensar a respeito do piso de lugares e de como eles acumulam história, e de que forma esse tempo acumulado pode me dar um desenho – por isso eu faço desenhos com uma enceradeira e pigmento em pó. No fim das contas, eu gosto de encontrar os desenhos que já estão prontos no mundo.

F.P.: O som ou a música são importantes no seu trabalho? Como você o/os incorpora?

G. D.: A música é importante na minha vida desde muito tempo – toco desde os 14 anos. Eu achei que desenhar ia me livrar de trabalhar com música, mas acabei desenhando com os instrumentos… É uma sina! Eu demorei um pouco pra incorporar o som em Tacet, mas hoje eu o entendo como tão importante quanto os desenhos. E a convivência com os músicos que fazem o trabalho comigo tem me servido para pensar o som de outras formas, e novos trabalhos devem surgir a partir disso.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: