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por Antônio Teixeira

A cena ocorre, verossimilmente, no ambulatório de clínica geral de um serviço público, onde o médico recebe, para consulta, uma moça provinciana de aspecto sofrido e olhar ingênuo que a ele se dirige, timidamente, limitando-se a queixar de uma dor que, embora profunda, ela não consegue localizar:

_ Onde você sente essa dor?, pergunta-lhe o médico, impaciente, pensando na interminável fila de atendimentos que o aguardam no corredor do ambulatório.
_ Não sei dizer, responde-lhe ela, desconcertada.
_ Como não sabe?!, replica-lhe o médico, visivelmente irritado.
_ Não sei onde dói, só sei que dói, e que dói muito…

Se reproduzo aqui esse provável diálogo, inspirado numa passagem de A hora da Estrela, de Clarice Lispector, é porque nele se enuncia exemplarmente, em sua simplicidade, o fenômeno clínico a que Lacan daria o nome, no escrito Kant com Sade, de “dor de existir” (LACAN, 1966, p. 777). Essa dor de existir, que meus alunos do curso de medicina apelidaram afetuosamente de “existalgia”, seria, por assim dizer, a ressonância sensível de uma condição subjetiva à qual os filósofos existencialistas deram o nome de “o absurdo” ou de “o injustificado da existência”.

“Existir é se beber sem sentir sede”, escrevia Jean-Paul Sartre, em L’Âge de Raison, destacando paradoxalmente, na dor de existir, uma anestesia referida à própria condição. Sua apresentação se atesta como uma ausência de sensibilidade que acomete o sujeito incapaz de localizar, no mundo, um valor que justifique sua presença. Carente de algo que possa lhe dar sentido, o sujeito se vê privado da tensão essencial ao desejo que confere a percepção do mundo uma intencionalidade própria. É por isso que nos vemos às voltas, na clínica da depressão, com indivíduos que se mostram apáticos, desprovidos de intencionalidade, pessoas que num certo momento se vêem incapazes de localizar, na superfície extensa e tediosa que para elas se tornou a realidade, a tensão que imprime ao mundo a verticalidade do desejo.

Pois já se foi o tempo em que se podia estilizar a depressão, em que se podia dar à tristeza a dimensão de valor estetizada no gesto do poeta romântico do século XIX. Nosso momento é outro: o discurso contemporâneo não quer mais saber da depressão enquanto valor, ele não mais se encanta pela tristeza. Incapaz de dar ao lamento uma forma sublimada, nossa época trata os afetos tristes como uma deficiência a ser corrigida. Diante do imperativo obsceno de otimismo, no mundo atual, diante da ditadura da alegria e dos corpos saudáveis que hoje se impõe, a tristeza não comporta mais nenhum valor socializante. A civilização que valoriza a competição e as conquistas do mercado não mais tolera seus deprimidos (SOLLER, 2005, p. 73-74).
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Por Fátima Pinheiro.

Acossado pela perseguição nazista, Sigmund Freud deixa o apartamento da Bergasse 19, no nono distrito de Viena, e se muda para Londres. Antes da mudança da família Freud para Londres, o fotógrafo Edmund Engelman foi contratado para fotografar o apartamento e consultório da Bergasse 19, por sugestão de August Aichhorn. Apesar dos riscos para a execução deste trabalho, em função da ocupação nazista, as fotos foram feitas, e levadas a salvo para fora dos territórios ocupados.  Hoje as fotos se encontram expostas no mesmo endereço, no atual Museu Freud. Esse trabalho fotográfico é um registro detalhado do lugar onde nasceu a psicanálise, momentos antes do apartamento ter sido desmontado, e foi utilizado por Robert Longo (1953), artista americano para dar sustentação ao seu trabalho intitulado Ciclo Freud de 2000, apresentado na exposição The Freud Drawings em 2001. Este trabalho é constituído de 28 desenhos a carvão em uma grande escala e coloca em discussão, embora não pareça ser esta a questão principal veiculada pela obra, a trágica destruição impetrada pelo nazismo no século XX. Robert Longo, entretanto, não parece avançar por esse terreno, que pode resvalar para a via dos ideais, por mais que estas sejam relevantes à cultura. Longo marca no Ciclo Freud, ao contrário, o vazio como determinante em seu trabalho, demarcando sua afinidade com o real, e não com os ideais.

Longo revela em seu trabalho que há algo de inacessível no objeto de arte, e isso de acordo com Freud e Lacan, se deve ao registro da sublimação, como destino possível da pulsão, em que a Coisa estará sempre representada por um vazio. O lugar do vazio, na concepção freudiana, remete a ausência estrutural do objeto de satisfação, que é inaugural a toda subjetividade, uma vez que diz respeito ao sujeito, seu objeto e seu desejo.  Este objeto que nunca será reencontrado, mas que por sua ausência estrutura o sujeito, é a Coisa, das Ding, e será sempre representado por um vazio. Este objeto inapreensível desliza entre as palavras e as coisas, desmentindo a ilusão da correspondência entre elas, situando-se entre o real e o significante, como indica François Regnault em seu livro “El arte según Lacan” (1995). O que se observa na arte não é, portanto, algo da ordem de uma imagem revestida pelo sentido, mas aquilo que fora do sentido inscreve o vazio na obra.

Este aspecto ligado à imagem esvaziada de sentido foi determinante no Ciclo Freud. Desde o início da elaboração do trabalho em 1999, quando Longo conheceu o livro, trazido por um amigo francês, em Nova Yorque, ele foi tocado pelas sombras que se projetavam sobre os objetos. Ao tomar as fotografias da casa abandonada de Freud, Longo não utilizou as imagens de Engelman como ready-mades, no entanto a maneira que ele deu tratamento a essas imagens teve uma importância crucial no processo do trabalho. O caráter documental da fotografia desaparece dando lugar a cenários que materializam o tempo passado e o vazio da casa. Longo despreza de forma radical os objetos que povoavam a escrivaninha de Freud, como a coleção que se encontrava no tampo da mesa, e mostra a escrivaninha completamente vazia. Como observou Werner Spies, curador e professor alemão de história da arte, Longo simplesmente varreu os fragmentos arqueológicos e figuras antigas de Freud no desenho a carvão, tornando a imagem símbolo do vazio e do exílio. As imagens dos desenhos, em sua maioria, remetem a objetos ligados ao uso do corpo, e que se transformam em um corpo em si, como o travesseiro, o olho mágico da porta, a poltrona, a mesa com um jarro de flores, e especialmente a cadeira que foi desenhada por um arquiteto amigo da família Freud, e executada por um marceneiro para compor com a escrivaninha da sala de estudos de Freud. Este móvel, diferente dos outros da mobília da casa, foi desenhado para acolher com conforto quem ali se sentasse, e por esse motivo a sua forma é tão próxima de um corpo. E essa cadeira, talvez dentre todos os outros desenhos, seja o mais categórico, no aspecto da transformação em um corpo. Esse corpo que estende os braços para o vazio da escrivaninha é a evidência inquietante de que um corpo só é corpo se fizer contorno no vazio que o sustenta.

 

 

 

 

 

Veja os desenhos do Ciclo Freud em http://robertlongo.com/work/gallery/1073

Veja também: Revista Serrote/ Instituto Moreira Salles, número 8/ 2011.

(http://ims.uol.com.br/index.aspx?DID=730)

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Entrevista concedida a Emilio Granzotto

Publicada por Magazine Littéraire, Paris, n.428, fev/2004.

Tradução: Marcia Gatto

Emilio Granzotto – Fala-se cada vez mais freqüentemente de crise da psicanálise. Sigmund Freud, dizem, está ultrapassado, a sociedade moderna descobriu que sua obra não seria suficiente para compreender o homem nem para interpretar a fundo sua relação com o mundo.

Jacques Lacan – São histórias. Em primeiro lugar, a crise. Ela não existe, não pode existir. A psicanálise não encontrou exatamente seus próprios limites, ainda não. Ainda há tanto a descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise, não há solução imediata, mas somente a longa e paciente busca das razões. Em segundo lugar, Freud. Como julgá-lo ultrapassado se nós ainda não o compreendemos inteiramente? O que é certo, é que ele nos fez conhecer coisas extremamente novas, que não poderíamos nem imaginar antes dele. Desde os problemas do inconsciente à importância da sexualidade, do acesso ao simbólico ao assujeitamento às leis da linguagem. Sua doutrina colocou em questão a verdade, é algo que concerne a todos e cada um pessoalmente. Uma crise é outra coisa. Eu o repito: estamos longe de Freud. Seu nome serviu para cobrir muitas coisas, houve desvios, os epígonos nem sempre seguiram fielmente o modelo, confusões foram criadas. Após sua morte em 1939, alguns de seus alunos também pretenderam exercer a psicanálise de maneira diferente, reduzindo seu ensinamento a alguma fórmula banal: a técnica como ritual, a prática como restrita ao tratamento do comportamento, e como meio de readaptação do indivíduo a seu meio social. É a negação de Freud, uma psicanálise de conforto, de salão. Ele próprio o havia previsto. Há três posições insustentáveis, dizia ele, três tarefas impossíveis: governar, educar e exercer a psicanálise. Atualmente, pouco importa quem assume a responsabilidade de governar, e todo o mundo se pretende educador. Quanto aos psicanalistas, graças a Deus, eles prosperam, como os magos e curandeiros. Propor às pessoas ajudá-las significa um sucesso assegurado, e a clientela se acotovelando na porta. A psicanálise é outra coisa.

EG – O que exatamente?

JL – Eu a defino como sintoma – revelador do mal-estar da civilização na qual vivemos. Certo, não é uma filosofia. Detesto a filosofia, há tanto tempo ela não diz nada de interessante. A psicanálise também não é uma fé, e não me agrada chamá-la de ciência. Digamos que é uma prática e que ela se ocupa do que não está funcionando. Terrivelmente difícil porque ela pretende introduzir na vida do dia-a-dia o impossível, o imaginário. Ela obteve alguns resultados até o presente, mas ainda não tem regras e se presta a toda sorte de equívocos. É preciso não esquecer que se trata de algo totalmente novo, seja do ponto de vista da medicina, seja do da psicologia e seus anexos. Ela também é muito jovem. Freud morreu há apenas trinta e cinco anos. Seu primeiro livro, A interpretação dos sonhos, foi publicado em 1900 com muito pouco sucesso.  Foram vendidos, creio, trezentos exemplares em alguns anos. Ele tinha poucos alunos, tomados por loucos e nem mesmo de acordo com a maneira de colocar em prática e de interpretar o que tinham aprendido.

EG – O que não funciona hoje no homem?

JL – É essa grande lassidão, a vida como conseqüência da corrida pelo progresso. Através da psicanálise, as pessoas esperam descobrir até onde podemos ir carregando essa lassidão.

EG – O que empurra as pessoas a se fazer analisar?

JL – O medo. Quando lhe acontecem coisas, mesmo desejadas por ele, coisas que ele não compreende, o homem tem medo. Ele sofre por não compreender, e pouco a pouco cai num estado de pânico. É a neurose. Na neurose histérica, o corpo fica doente de medo de estar doente, e sem estar na realidade. Na neurose obsessiva, o medo coloca coisas bizarras na cabeça, pensamentos que não podemos controlar, fobias nas quais as formas e os objetos adquirem significações diversas, e que dão medo.

EG – Por exemplo?

JL – Acontece ao neurótico se sentir pressionado por uma necessidade assustadora de ir dezenas de vezes verificar se uma torneira está realmente fechada, ou se uma coisa está no lugar correto, sabendo entretanto com certeza que a torneira está como deve estar e que a coisa está no lugar onde ela deve se achar. Não há pílulas para curar isso. É preciso descobrir porque isso acontece conosco, e saber o que isso significa.

EG – E o tratamento?

JL – O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.

EG – Palavra de quem? Do doente ou do psicanalista?

JL – Em psicanálise os termos “doente”, “médico”, “remédio” não são mais justos que as fórmulas no passivo que adotamos comumente. Dizemos: se fazer psicanalisar. É um erro. Aquele que faz o verdadeiro trabalho em psicanálise, é aquele que fala, o sujeito analisante. Mesmo se ele o faz da maneira sugerida pelo analista, que lhe indica como proceder e o ajuda por suas intervenções.  Lhe é também fornecida uma interpretação. À primeira vista, ela parece dar um sentido ao que o analisante diz. Na realidade, a interpretação é mais sutil, tendendo a apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar-lhe através de sua própria narrativa que o sintoma, a doença digamos, não tem nenhuma relação com nada, que ela é privada de qualquer sentido que seja. Mesmo se na aparência ela é real, ela não existe. As vias pelas quais esse ato da palavra procede, reclamam muita prática e uma infinita paciência. A paciência e a medida são os instrumentos da psicanálise. A técnica consiste em saber medir a ajuda que damos ao sujeito analisante. Em conseqüência, a psicanálise é difícil.

EG – Quando falamos de Jacques Lacan, associamos inevitavelmente esse nome a uma fórmula, o “retorno a Freud”. O que isso significa?

JL – Exatamente o que é dito. A psicanálise é Freud. Se queremos fazer psicanálise, é necessário voltar a Freud, a seus termos e a suas definições, lidos e interpretados no sentido literal. Fundei em Paris uma Escola freudiana precisamente com esse objetivo. Há vinte anos ou mais que exponho meu ponto de vista: retornar a Freud significa simplesmente tirar o terreno dos desvios e dos equívocos da fenomenologia existencial por exemplo, como do formalismo institucional das sociedades psicanalíticas, retornando a leitura do ensinamento de Freud segundo os princípios definidos e enumerados a partir de seu trabalho. Reler Freud quer dizer somente reler Freud. Quem não faz, em psicanálise, utiliza uma fórmula abusiva.

EG – Mas Freud é difícil? E Lacan, dizem, o torna completamente incompreensível. A Lacan repreende-se falar e sobretudo escrever de tal maneira que somente muito poucos adeptos podem esperar compreender.

JL – Eu sei, tornam-me por um obscuro que esconde seu pensamento em cortinas de fumaça. Eu me pergunto por que. A propósito da análise, repito com Freud que é “o jogo intersubjetivo através do qual a verdade entra no real”. Não está claro? Mas a psicanálise não é um negócio para crianças. Meus livros são definidos como incompreensíveis. Mas para quem? Eu não os escrevi para todo o mundo, para que sejam compreendidos por todos. Ao contrário, nunca me ocupei minimamente de qualquer leitor que seja. Eu tinha coisas a dizer e as disse. É me suficiente ter um público que leia. Se ele não compreende, paciência. Quanto ao número de leitores, tive mais sorte que Freud. Meus livros são mesmo muito lidos, fico surpreso com isso. Também estou convencido de que em dez anos no máximo, aquele que me lerá me achará extremamente transparente, como  um belo copo de cerveja. Talvez até se diga então: “Esse Lacan, que banalidade!”

EG – Quais são as características do lacanismo?

JL – É um pouco cedo para dizê-lo, no momento em que o lacanismo ainda não existe. Sentimos dele apenas o cheiro, como pressentimento. Lacan, em todos os casos, é um senhor que pratica a psicanálise há pelo menos quarenta anos, e que há tantos anos a estuda. Eu creio no estruturalismo e na ciência da linguagem. Escrevi em meu livro que “aquilo a que nos leva a descoberta de Freud é à enormidade da ordem na  qual entramos, na qual nascemos, se podemos nos exprimir assim, uma segunda vez, saindo do estado chamado a justo título infans, sem  palavra”. A ordem simbólica sobre a qual Freud fundou sua descoberta é constituída  pela linguagem como momento do discurso universal concreto. É o mundo da palavra que cria o mundo das coisas, inicialmente confusas em tudo aquilo que está em devir. Há somente as palavras para dar um sentido completo à essência das coisas. Sem as palavras, nada existiria. O que seria o prazer sem o intermediário da palavra? Minha opinião é que Freud, enunciando em suas primeiras obras – A interpretação dos sonhos, Além do princípio do prazer, Totem e tabu –  as leis do inconsciente, formulou, como precursor, as teorias com as quais alguns anos mais tarde Ferdinand de Saussure teria aberto a via à lingüística moderna.

EG – E o pensamento puro?

JL – Ele está submetido como todo o resto às leis da linguagem. Somente as palavras podem engendrá-lo e dar-lhe consistência. Sem a linguagem a humanidade não daria um passo adiante nas pesquisas / buscas do pensamento.  É o caso da psicanálise. Qualquer que seja a função que possamos lhe atribuir, agente de cura, formação ou de sondagem, há apenas um meio do qual nos servimos: a palavra do paciente. E toda palavra merece resposta.

EG – A análise como diálogo, portanto. Há pessoas que a interpretam mais como um sucedâneo da confissão.

JL – Mas que confissão? Ao psicanalista confessamos um belo nada. Deixamo-nos ir a lhe dizer simplesmente tudo que se passa pela cabeça. Palavras, precisamente. A descoberta da psicanálise é o homem como animal falante.  Cabe ao analista ordenar as palavras que ele ouve e dar-lhes um sentido, uma significação. Para fazer uma boa análise, é necessário o acordo, o entendimento entre o analisante e o analista. Através do discurso de um, o outro procura imaginar do que se trata, e encontrar além do sintoma aparente o nó difícil da verdade. A outra função do analista é explicar o sentido das palavras para fazer compreender ao paciente o que se pode esperar da análise.

EG – É uma relação de extrema confiança.

JL – Mais uma troca, na qual o importante é que um fala e o outro escuta.  Também o silêncio. O analista não faz pergunta e não tem idéias. Ele só dá as respostas que ele quer realmente dar às questões que sua vontade suscita. Mas ao final, o analisante vai sempre aonde seu analista o leva.

EG – O senhor acaba de falar do tratamento. Há possibilidade de curar? Sai-se da neurose?

JL – A psicanálise tem sucesso quando ela limpa o terreno, sai do sintoma, sai do real. Quer dizer quando ela chega à verdade.

EG – O senhor pode enunciar o mesmo conceito de uma maneira menos lacaniana?

JL – Eu chamo sintoma tudo aquilo que vem do real. E o real tudo aquilo que não vai bem, que não funciona, que se opõe à vida do homem ao afrontamento de sua personalidade. O real volta sempre ao mesmo lugar. Você sempre encontrará lá, com os mesmos semblantes. Por mais que os cientistas digam que nada é impossível no real. É preciso ter um grande topete para afirmar coisas desse gênero, ou então, como eu suspeito, a total ignorância do que se faz e diz. O real e o impossível são antitéticos, eles não podem caminhar juntos. A análise empurra  o sujeito para o impossível, ela lhe sugere considerar o mundo como ele é realmente, isto é, imaginário, sem significação. Enquanto que o real, como um pássaro voraz, só faz se alimentar de coisas sensatas, de ações que têm sentido. Ouve-se repetir que é preciso dar um sentido a isso e a aquilo, a seus próprios pensamentos, a suas próprias aspirações, aos desejos, ao sexo, à vida. Mas da vida não sabemos nada de nada. Os sábios perdem o fôlego a nos explicar. Meu medo é que por seus erros, o real, essa coisa monstruosa que não existe, acabe por conseguir, por levar a melhor. A ciência é substituída pela religião, e ela é de outra maneira mais despótica, obtusa e obscurantista. Há um deus-átomo, um deus-espaço, etc. Se a ciência ganha ou a religião, a psicanálise está acabada.

EG – Atualmente, que relação existe entre a ciência e a psicanálise?

JL –  Para mim a única ciência verdadeira, séria, a ser seguida, é a ficção científica. A outra, a oficial, que tem seus altares nos laboratórios, avança às cegas, sem meio correto. E ela até começa a ter medo de sua sombra. Parece que chegou o momento da angústia para os sábios. Em seus laboratórios assépticos, alinhados em seus jalecos engomados, esses velhos bambinos que brincam com coisas desconhecidas, fabricando aparelhos cada vez mais complicados e inventando fórmulas cada vez mais obscuras, começam a se perguntar o que poderá acontecer amanhã, o que essas pesquisas sempre novas acabarão por trazer. Enfim! Digo. E se fosse muito tarde? Os biólogos se perguntam agora, ou os físicos, os químicos. Para mim, eles são loucos. Já que eles já estão mudando a face do universo, vem-lhes ao espírito somente agora se perguntar se por acaso isso pode ser perigoso. E se tudo explodisse? Se as bactérias criadas tão amorosamente nos brancos laboratórios se transformassem em inimigos mortais? Se o mundo fosse varrido por uma horda dessas bactérias com toda a merda que o habita, a começar por esses sábios dos laboratórios? Às três posições impossíveis de Freud, governo, educação, psicanálise, eu acrescentaria uma quarta, a ciência. Ademais, que os sábios não sabem que sua posição é insustentável.

EG – Eis uma versão bastante pessimista do que chamamos progresso.

JL – Não, é algo completa-mente diferente. Eu não sou pessimista. Nada acontecerá. Pela simples razão de que o homem é uma porcaria, nem mesmo capaz de destruir a si próprio. Pessoalmente, acharia maravilhoso um flagelo total produzido pelo homem. Isso seria a prova de que ele conseguiu fazer alguma coisa com suas mãos, sua cabeça, sem intervenções divina, natural ou outros. Todas essas belas bactérias superalimentadas para a diversão, espalhadas através do mundo como os gafanhotos da Bíblia, significariam o triunfo do homem. Mas isso não acontecerá. A ciência atravessa felizmente essa crise de responsabilidade, tudo entrará na ordem das coisas, como se diz. Eu anunciei: o real levará vantagem, como sempre. E nós estaremos como sempre ferrados.

EG –  Outro paradoxo de Jacques Lacan. Censuram-lhe, além da dificuldade da língua e a obscuridade dos conceitos, os jogos de palavras, os gracejos de linguagem, os trocadilhos à francesa, e justamente, os paradoxos. Aquele que escuta ou que lê o senhor tem o direito de se sentir desorientado.

JL – De fato eu não brinco, digo coisas muito sérias. Eu apenas me sirvo da palavra como os sábios de que falei de seus almanaques e de suas montagens eletrônicas. Eu procuro me referir sempre à experiência da psicanálise.

EG –  O senhor diz: o real não existe. Mas o homem médio sabe que o real é o mundo, tudo que o cerca, que ele vê a olho nu, toca.

JL – Livremo-nos também desse homem médio que, em primeiro lugar, não existe. É apenas uma ficção estatística. Existem indivíduos, é tudo. Quando ouço falar do homem da rua, de pesquisas de opinião, de fenômenos de massa e de coisas desse gênero, penso em todos os pacientes que vi passar pelo divã em quarenta anos de escuta. Nenhum, em qualquer medida, é semelhante ao outro, nenhum tem as mesmas fobias, as mesmas angústias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não compreender. O homem médio, quem é? Eu, o senhor, meu zelador, o presidente da República?

EG – Nós falávamos de real, do mundo que todos nós vemos.

JL – Justamente. A diferença entre o real, isto é, o que não vai bem, e o simbólico, o imaginário, isto é, a verdade, é que o real é o mundo. Para constatar que o mundo não existe, que ele não está aqui, é suficiente pensar em todas as banalidades que uma infinidade de imbecis acreditam ser o mundo. E convido meus amigos da Panorama, antes de me acusarem de paradoxo, a refletirem bem sobre o que leram apenas.

EG – Dir-se-ia que o senhor está cada vez mais pessimista.

JL – Não é verdade. Não me enquadro nem entre os alarmistas nem entre os angustiados. Infeliz do psicanalista que não tiver ultrapassado o estádio da angústia. É verdade, existem à nossa volta coisas horripilantes e devoradoras, como a televisão pela qual uma grande parte de nós é fagocitada. Mas isto é apenas porque existem pessoas que se deixam fagocitar, que até inventam um interesse para aquilo que elas vêem. E depois há outras coisas monstruosas devoradoras de outra maneira: os foguetes que vão à lua, as pesquisas no fundo dos oceanos, etc. Todas as coisas que devoram. Mas não há porque se fazer um drama disso. Estou certo de que assim que estivermos de saco cheio de foguetes, da televisão e de todas suas malditas pesquisas no vazio, encontraremos outra coisa com a qual nos ocuparmos. É uma revivescência da religião, não é?  E que melhor monstro devorador do que a religião? É uma festa contínua com a qual se divertir por séculos, como isso já foi demonstrado. Minha resposta a tudo isso é que o homem sempre soube se adaptar ao mal.  O único real que podemos conceber, ao qual temos acesso, é justamente este, será preciso se fazer uma razão: dar um sentido às coisas, como dizíamos. De outra forma, o homem não teria angústia, Freud não teria se tornado célebre, e eu seria professor de segundo grau.

EG – As angústias são toda dessa natureza ou existem angústias ligadas a certas condições sociais, a certa época histórica, a certas latitudes?

JL – A angústia do sábio que tem medo de suas descobertas pode parecer recente. Mas o que sabemos nós do que aconteceu em outros tempos? Dos dramas de outros pesquisadores? A angústia do operário escravo da cadeia de montagem como de um remador de galera, é a angústia de hoje. Ou, mais simplesmente, ela está ligada às definições e palavras de hoje.

EG – Mas o que é a angústia para a psicanálise?

JL – Algo que se situa fora de nosso corpo, um medo, mas de nada, que o corpo, espírito incluído, possa motivar. O medo do medo, em suma. Muitos desses medos, muitas dessas angústias, no nível em que os percebemos têm a ver com o sexo. Freud dizia que a sexualidade é sem remédio e sem esperança. Uma das tarefas do analista é encontrar na palavra do paciente a relação entre a angústia e o sexo, esse grande desconhecido.

EG – Agora que se distribui sexo em todas as curvas, sexo no cinema, sexo no teatro, na televisão, nos jornais, nas canções, nas praias, ouve-se dizer que as pessoas estão menos angustiadas com os problemas ligados à esfera sexual. Os tabus caíram, dizem, o sexo não dá mais medo.

JL – A sexomania invasora é apenas um fenômeno publicitário. A psicanálise é uma coisa séria que diz respeito, repito-o, a uma relação estritamente pessoal entre dois indivíduos: o sujeito e o analista. Não existe psicanálise coletiva assim como não existe angústias ou neuroses de massa. Que o sexo seja colocado na ordem do dia e exposto na esquina das ruas, tratado como um detergente qualquer nos carrosséis televisivos, não comporta nenhuma promessa de algum benefício. Não digo que isso seja ruim. Não é suficiente certamente para tratar as angústias e os problemas particulares. Faz parte da moda, dessa fingida liberalização que nos é fornecida, como um bem dado de cima, pela dita sociedade permissiva. Mas não serve ao nível da psicanálise.”

via  PONTO LACANIANO

 

Por Isabel Collier do Rego Barros

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Para começar esta análise do tempo, podemos opor a uma visão de tempo mais comum, que é o cronológico, uma primeira subversão deste tempo: o tempo do a posteriori. Porém, como o a posteriori ainda mantém certas divisões artificiais, podemos ainda tentar analisar uma terceira visão, mais livre de suas medidas, através do que Deleuze chamou de cristal do tempo.

Para isto, nos ajudará a análise de um filme brasileiro não muito popular, mas bastante aclamado pelos pensadores do cinema. Trata-se de Limite, de Mario Peixoto (1931). Um filme mudo e preto e branco que se passa em um pequeno barco perdido no oceano. Para ele convergem três histórias: um homem e duas mulheres que, sem minuciosas explicações, tiveram suas vidas cruzadas nesse barco solto no mar. A partir do presente do barco, a história de cada um dos personagens é contada através de flashes-back que, no entanto, não oferecem as respostas sobre o destino dos três heróis. (Leia aqui a continuação)

Esconderijos do tempo: O tempo lógico de Jacques Lacan e suas coordenadas coletivas

Dissertação de mestrado – PUC-Rio, 2008, 113f

Autor: Rodrigo Lyra Carvalho

Orientador: Marcus André Vieira

Resumo: Esconderijos do tempo busca situar a intervenção da temporalidade nas relações entre o sujeito e a coletividade. A partir do artigo “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, de Jacques Lacan, e das retomadas do tema por ele empreendidas ao longo de seu ensino, investiga-se as possibilidades de o sujeito se servir de suas alteridades internas para inscrever no coletivo as marcas de sua singularidade. Delineia-se um tal empreendimento a partir de um ato paradoxal, a “asserção subjetiva antecipatória”, marcada pela introdução dos três tempos lógicos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir. Através deles, concebe-se o estabelecimento de uma lógica coletiva específica, resultado da transformação do afeto da angústia em um modo singular de estabelecer o laço social.

A psicose não desencadeada: um programa de investigação clínica

Dissertação de mestrado – UFRJ, 2008

Autor(a): Cristina Frederico

Orientador(a): Angélica Bastos

Esta dissertação investiga as psicoses não desencadeadas e, de acordo com a orientação lacaniana, visa situar os aspectos teóricos e clínicos que indicam a possibilidade de estabilização nesses casos. Procura demonstrar uma dimensão mais sutil das psicoses sem o caráter disruptivo do desencadeamento. O tema é abordado através de duas soluções encontradas pelos psicóticos: a compensação imaginária e a nomeação. A primeira é elaborada por Lacan nos anos 50, e a segunda – a nomeação – é encontrada nas últimas formulações de Lacan, sobretudo no seu seminário O sinthoma (1975-76), de onde se extrai uma clínica das suplências. Recentes formulações de autores lacanianos sobre o conceito de “psicose ordinária” também são discutidas. A prática analítica em duas instituições de saúde mental e a construção de um caso clínico permeiam a discussão. A investigação nos leva a valorizar a variedade e o aspecto singular das formas de organização produzidas pelos psicóticos para encontrarem um lugar no mundo.

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