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Por Luiz Dolino*,
Outono, 2014

Em dois momentos desfrutei do convívio com esse gênio da literatura.

A primeira vez ocorreu em Havana, 1988. Estava em Cuba acompanhando uma missão comercial, quando, num domingo preguiçoso, fomos almoçar num paladar, como são chamados alguns locais em que nada denuncia o seu perfil comercial – na verdade um restaurante familiar. Nesses ambientes, o cliente desfruta do que de melhor é possível produzir numa cozinha precária e sem acesso a farto ou mesmo variado material para o consumo.

Tudo transcorria como previsto. A casa dispunha de jardim com um amplo gramado e o nosso grupo foi acomodado debaixo de um caramanchão polvilhado de hibiscos floridos – eramos os únicos. Iniciados os trabalhos, mojitos, mani, jogávamos conversa fora. Eis que identifico, atravessando o prado, um casal. Ela de vestido branco comprido, certamente de origem mexicana. Ele com a indefectível gayabera, camisa típica da região caribenha. Não tive dúvida e anunciei: está chegando o Gabriel Garcia Marques.

Tranquilos, silenciosos, ocuparam uma pequena mesa a curta distância da nossa. A partir daí acometeu-me a dúvida: falo ou não falo. Respeitarei ou não a privacidade? Difícil escolher. Como deixar passar uma oportunidade como essa? Decidi depois de amplas consultas ao grupo. Escreveria um bilhete e pediria ao rapaz que estava nos atendendo que levasse o torpedo. Assim foi feito. Na posição em que me encontrava à mesa não dispunha de ângulo que favorecesse a visão da cena. Esta me foi descrita por um amigo do lado aposto ao meu: entregou, ele colocou os óculos, leu, guardou no bolso da blusa. Portanto, nada a fazer.

Lembro que, no meu recado, eu caprichei no castelhano para dizer: sou fulano, seu admirador, de profissão pintor. Queria cumprimentá-lo, mas, sobretudo, respeito a sua privacidade. Como não logrei sucesso, confesso que acabei esquecendo da ilustre presença às minhas costas. Nosso festim seguiu seu curso natural, muita conversa, muita risada e boa comida, regada com o melhor rum da ilha.

Estávamos nos licores quando percebi que uma mulher se encaminhava para o portão no fundo do jardim. O assunto da vizinhança com Gabo voltou à baila e eu percebi, ato contínuo, uma presença ao meu lado. Era ele quem perguntava: quem é o pintor brasileiro que me mandou um bilhete? Sorridente me identifiquei. Nesse momento chegava a bandeja com mais bebida e café. Convidei-o para um brinde.

Na verdade, a resposta do escritor não foi nada simpática. Ele olhou para o próprio pulso e disse que tinha 5 minutos para nós. Em condições naturais de temperatura e pressão, eu teria arranjado um jeito de dispensar. Mas, como se tratava de quem, preferi insistir. Ele aceitou um cálice raso e brindou conosco. Não sei como, a partir desse instante mágico, engrenamos numa conversa. Depois de muitos 5 minutos, meia hora talvez, sem remédio, vi que a mulher retrocedeu, até porque o marido já estava abancado às gargalhadas conosco.

Quando Gabo se chegou a nós, eram 4 horas, talvez. Anoitecia quando ele disse: agora me vou! Onde vocês estão hospedados? No Hotel Nacional. Pois bem, amanhã, por volta das 11 horas, passo por vocês para seguirmos juntos para visitar San Antonio de los Baños. Iríamos conhecer a escola de cinema mantida pelo escritor.

O dia seguinte foi ainda mais rico que o anterior. Gabo, com mil compromissos, foi generoso em nos levar, mas, no local, nos deixou a cargo de um guia. Foi ótimo assim mesmo. Nesse encontro, dei-lhe uma gravura. Agradeceu e disse: seu trabalho vai ficar aqui na escola.

Dez anos passados, estava na Índia.

Fui hóspede de uma farm house, distante, portando, do centro do Nova Deli. Lá, tinha a meu serviço exclusivo um empregado a quem nada tinha para pedir. Ele me acompanhava silencioso como uma sombra. Chegava a ser incômodo. Fiquei uns dez dias. No último, tinha que pegar um voo tardio rumo à Europa. Nessa noite, precisei do serviçal. Confessei-lhe não saber dobrar camisas e pedi ajuda, sendo prontamente atendido.

Estabelecido o diálogo mínimo, sou surpreendido pela pergunta: o senhor é artista, não? Sim. Ele disse num inglês precário: eu sei, tem um quadro seu na sala do patrão e vi também um livro sobre o seu trabalho editado em francês e inglês. Sorri. E o jovem prosseguiu: você é amigo do Gabriel Garcia Marques, não? Disse que não, provocando uma expressão de perplexidade no seu rosto ingênuo.

O rapaz então tentou explicar a sua incompreensão ante o fato de eu ter uma foto no meu livro abraçado ao escritor sem que fosse amigo. Contei que, entre nós, na nossa cultura, essa imagem possivelmente não tem o peso, a mesma importância que tem entre os hindus. Senti, no entanto, que não convenci. Deixando de lado esse aspecto absurdo para ele, continuou: você já leu Cem anos de solidão? Disse que sim. Ele então me contou que encontrou o livro na biblioteca do patrão e que a sua leitura tinha modificado a vida dele, a ponto de convertê-lo em escritor… Queria saber se Gabo teria escrito outros romances em inglês. Esclareci que a obra foi toda produzida em espanhol e que certamente havia tradução de tudo.

Agora, era a minha vez. Perguntei-lhe em que idioma escrevia. Disse que em pradesh, língua falada na remota região em que havia nascido.

Imediatamente ponderei sobre a dificuldade daqueles que se expressam por meio de idiomas periféricos, como no nosso caso. Ele, não se dando por vencido, argumentou que essa limitação seria transitória, dado que, no futuro, ele encarnaria alguém com uma possibilidade maior de comunicação.

Eu precisava calar-me. Não consegui. Achei que ele merecia a minha opinião sincera. Disse então que, como procedíamos de culturas tão diferentes, ele teria que aceitar a opinião de que, no meu caso, a hora é essa. Sem chance de outra rodada. Ele ficou estupefato. Parecia dizer: que besta, que primata! Fazer o que?

Mais alguns anos, voava de Bogotá para Cartagena das Índias.

Quem adentra no avião? Gabo.

De novo a mesma sensação – falo, não falo. Falei.

Depois da decolagem, cheguei mais perto, me identifiquei, logo dizendo que ele não deveria se recordar de que em Cuba… Ele cortou e disse que sim, lembrava. Lembrava até da gravura que deixamos em San Antonio.

Disse-lhe então que tinha vivido na Índia uma experiência extraordinária e que gostaria de contar. Autorizado, prossegui com a novela. Esperava que o escritor se comovesse. Afinal, nos confins do mundo para nós, latino-americanos, um jovem pradesh modificou o curso dos seus sonhos após o contato com a sua obra. Nada. Gabriel Garcia Marques apenas sorriu. Inconformado, perguntei: você não acha toda essa história fabulosa? Não, respondeu seco. Acrescentando, depois de uma pausa teatral: é que sou como esse moço…

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*Luiz Dolino é artista plástico – http://www.dolino.net – e escrever pro Blog da Subversos.

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Por Fátima Pinheiro*

Renato Rezende (1964) é escritor, poeta, tradutor, artista visual, e participou recentemente, juntamente com Cláudio Oliveira (filósofo) e Ana Lucia Lutterbach Holck (psicanalista) de uma atividade preparatória para as XXII Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ, intitulada “Nós e o corpo do texto”, organizada, conjuntamente, pela Coordenação das Jornadas, pela Comissão de Biblioteca da Seção-Rio e pela Unidade de Pesquisa Práticas da letra. Autor de vários livros, entre eles: Passeio (Record, 2001), Ímpar (Lamparina, 2005), prêmio Alphonsus de Guimarães, Noiva (Azougue, 2008), e Amarração (Circuito, 2012), Renato Rezende nos concedeu uma entrevista especial sobre o seu livro Caroço (Azougue, 2012), obra que faz parte de uma trilogia, onde revela de forma impactante a sua experiência radical e singular com a escrita e o corpo. Essa entrevista é um convite direto às palavras do escritor/poeta, que tão bem as situou em seu livro, através de um personagem, como sendo “minha marca, de fogo, indelével, uma marca que diz: eu escrevo”. Vamos, então, a ela. Veja aqui a entrevista

*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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A percepção desse processo de utilização da lembrança (até então inerte

como a Bela Adormecida no Bosque do inconsciente) tem algo da violência

e da subitaneidade de uma explosão, mas é justamente o seu contrário,

porque concentra por precipitação e suscita crioscopicamente o passado

diluído – doravante irresgatável e incorruptível.

Pedro Nava – em Baú de Ossos

Pedro Nava, Pedro da Silva Nava. Meu amigo entre 1976 e 1984, ano da sua morte. A primeira vez que tive contato com esse que foi considerado o mais importante memorialista de nossa língua por vozes insignes está registrada em carta que enviei ao escritor em 1976.

Sempre cultivei um gosto pela palavra escrita, pelo registro. Li Baú de ossos, primeiro volume das memórias de Nava, publicado em 1972, somente em 1975. Vivia então no México e o livro me chegou por generosidade de Fausto Alvim Júnior, poeta, matemático, doutor em Lógica. Fiquei perturbado com o livro, seja pela dissertação, seja pelo estilo, pelo traçado do panorama de um Brasil do qual apenas suspeitava.

Vivido o turbilhão dessa leitura, ato contínuo, passei a escrever para o autor. Carta longa, circunstanciada, escorada em mundos e fundos, de muitas páginas, vazadas na minha letra bem desenhada e de rasgos avantajados. Contra os meus hábitos, demorei a dar por finalizada a obra. Pensei e concluí que era muita pretensão – sem conhecer Pedro Nava – meter-me a falar. Então rasguei tudo. E não me arrependo. Continuei querendo me manifestar. Faltava a forma adequada.

Lembrei que Pedro Nava falava de um personagem, Antônio Sales.

Esta figura foi marcante na formação do escritor. Nava descreve um passeio com tio Sales na Galeria Cruzeiro, no centro do Rio de Janeiro, aos 6 anos de idade. Antônio Sales levou o sobrinho para ver a tarde passar pela Avenida Rio Branco. Foi quando lhe disse: menino, por aqui irão passar Rui Barbosa, Machado de Assis,
Santos Dumont, os grandes do nosso tempo. Nava, então, conclui o parágrafo dizendo: e eu vi Rui Barbosa, eu vi Machado de Assis, eu vi Santos Dumont. Pronto, tinha descoberto o mote de que precisava para escrever ao Dr. Pedro Nava.

Remeti para a Rua da Glória 190 um cartão breve, onde dizia ter um filho de 6 anos, idade dele naquela tarde. Pedia, portanto, que me indicasse um local por onde costumasse passar frequentemente. Queria levar o meu filho para que ele pudesse dizer um dia: eu vi Pedro Nava. A partir daí, uma porta, um portal, se abriu e o endereço
do meu amigo passou a ser um ponto de referência nas passagens de nossa família pelo Brasil.

Nos 8 anos que se sucederam, estive muito próximo do escritor. Pessoalmente, por carta, telefone e até em uma visita que o casal, Nieta e Nava, nos fez em Buenos Aires, onde estávamos vivendo. Na oportunidade, foi publicada a única tradução das obras de Nava de que tenho notícia – Poliedro traz um prefácio que preparei para a edição argentina e é um dos trabalhos dos que mais me orgulho em ter colaborado.

Por que toda essa memorabilia? Agora, volta ao mercado uma preciosa reedição das obras de Pedro Nava. Desde de que surgiu o primeiro volume em 1972, já se vão 40 anos. Há, portanto, uma geração de brasileiros que surgiu depois desse fenômeno editorial. Nava escreveu e começou a publicar suas memórias depois de completar 70 anos de idade. Antes, conseguiu (?) se conformar com a biografia de médico famoso, Professor Emérito de Reumatologia da Universidade do Brasil. Como cientista, escreveu e publicou mais de
100 títulos.

Nava teve um fim trágico: matou-se aos 81 anos. Para a motivação imediata do gesto, há uma série de versões. Para mim, que comungo da opinião de Manuel Bandeira, o suicídio é vocacional. No caso, o próprio Nava dá a chave. Ele disse, com uma pitada de humor, que o homem deveria ser eliminado ao completar 50 anos por uma questão de higiene pessoal…

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

Por Sérgio Laia*

Na última lição do Seminário 23, intitulada por Jacques-Alain Miller como “A escrita do ego”, Lacan afirma que o nó borromeano – designado então por “nó bo” – “muda completamente o sentido da escrita”: ele dá à escrita “uma autonomia” cuja notabilidade se destaca devido à existência de “uma outra escrita”, resultante “do que poderia ser chamado de uma precipitação do significante”[1]. Ressalto, para retomar mais adiante, o quanto é surpreendente que, nesta lição, Lacan não só passa a utilizar um termo – “ego” – que, ao longo de seu ensino, foi objeto de desconfiança e de questionamento, quanto recupera, de um modo elogioso, a concepção de “autonomia” que, particularmente na vertente formada pela “Psicologia do Ego”, teve incidências bastante discutíveis sobre a psicanálise.

A chuva significante já havia sido tematizada antes, em “Lituraterra”[2], como o que, furando as nuvens, se precipita, como uma escrita, provocando ravinamentos, erosões, não menos escriturais, sobre a terra. Neste mesmo texto, é à letra que Lacan recorre para dar corpo ao litoral entre saber e gozo, entre o domínio do significante e o domínio do que é vivo e recortado, marcado, pela precipitação significante. Assim, é esta escrita resultante da precipitação do significante sobre o vivo que terá seu sentido completamente mudado pelo nó borromeano e, se Lacan fala, no Seminário 23, de um ganho de “autonomia”, é porque tal escrita ou, mais precisamente, o próprio nó borromeano, corporificando o “sinthoma”, não se faz a serviço do Nome-do-Pai: a escrita do “nó bo”, servindo-se do pai, pode prescindir dele.

Logo após afirmar que tal nó muda o sentido da escrita, Lacan o designa como demonstrativo da diferença radical entre a escrita (aquela advinda da precipitação significante) e “o que se modula na voz”[3]. Para elucidar esta diferença, diria que, efetivamente, a escrita do nó borromeano, realizando a modulação da voz, permite-nos, como afirma Lacan, “enganchar os significantes”[4] enquanto que a outra escrita resulta da queda, da precipitação, da chuva dos significantes. O sentido da escrita é mesmo modificado, pois cair é bem diferente de enganchar. Essa modificação me parece ainda mais decisiva porque, além do enganche dos significantes, a escrita do nó borromeano, sustenta um “osso”, o “ossobjeto [osbjet] que Lacan reduz ao “pequeno a… precisamente para marcar que a letra, nesse caso, apenas testemunha a intrusão de uma escrita como outro [autre], [escrito] com um pequeno a”[5].

Assim, a modulação da voz efetivada no nó borromeano é a operação que me parece responder a duas questões que, no VII Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), dedicado à preparação do VI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) foram formuladas aproximadamente nos seguintes termos: Se o psicótico traz, como assinalou-nos Lacan, o objeto a no bolso, a clínica lacaniana das psicoses promoveria uma extração deste objeto? Localizar o gozo, no tratamento da psicose, implicaria uma extração do objeto a, ainda que em um enquadramento diferente daquele característico das neuroses?

Não é gratuito que, numa lição dedicada à “escrita do ego”, Lacan fale de “precipitação” ou “queda dos significantes”, “enganche dos significantes” e “intrusão”, a partir do a como “ossobjeto”, “de uma escrita como um pequeno outro”. Desde a primeira lição do Seminário 23, a arte de Joyce é apresentada como suplência à carência do pai porque desfaz “o que se impõe do sintoma…, a verdade”[6]. Na sexta lição, a verdade que se impõe como sintoma é evidenciada pela psicose que um paciente entrevistado por Lacan e mesmo a própria filha de Joyce viveram como “falas impostas”: a foraclusão do Nome-do-Pai pode fazer os significantes se precipitarem como uma tormenta cuja força é capaz de provocar avalanches terríveis na terra instável onde um psicótico procurava se equilibrar. Assim, se Joyce não soçobra à própria psicose, é porque, no seu texto – que Lacan considera como “todo feito como um nó borromeano”[7] –, ele engancha os significantes, modula esse ossobjeto que pode tomar a dimensão da voz, cerra o gozo tornando-o opaco ao sentido. E se, no início da última lição do Seminário 23, Lacan diz que esta modulação compõe uma escrita que é tão intrusa quanto um pequeno outro, é porque, mais adiante, ele nos mostrará o quanto ela é “essencial” ao ego[8] de Joyce.

A assimilação do ego a uma escrita intrusa resultante da modulação da voz dá ao ego uma conotação bem diferente daquelas que foram duramente criticadas por Lacan: em vez de ser corrigido e enquadrado (pelo então chamado “superego”), ele corrige e enquadra; em vez de sofrer a intrusão (do então designado “id” ou mesmo do próprio “superego”), é ele próprio o elemento estranho, o intruso. Esta diferença se esclarece, num primeiro momento, no caso de Joyce, pelo modo como este escritor relaciona, seja nas tabelas de correspondências que o ajudou a conceber Ulisses, seja na moldura de cortiça (cork) escolhida para uma foto da cidade de Cork, “o enquadramento” como “uma relação pelo menos de homonímia como que lhe é suposto contar com imagem”[9].

Mas outra elucidação desta diferença se dá com a leitura lacaniana de uma passagem de Um retrato do artista quando jovem, referente a um episódio ocorrido com o próprio Joyce, na infância: devido a preferências literárias diversas daquelas de seus colegas e bem menos convencionais, Stephen Dedalus, personagem que Lacan nos ensina a ler como “Joyce na medida em que decifra o próprio enigma”[10], é objeto de uma surra. A relação com o corpo espancado não aparece na forma de rancor ou raiva para com os agressores, nem de uma satisfação masoquista, muito menos de um narcisismo: o corpo é despojado daquela violência “tão facilmente quanto um fruto é despojado de sua casca madura e macia”[11]. Ora, a psicanálise circunscreve o ego como “imagem” que alguém faz de si mesmo, como “corpo próprio”, e corpo do qual não é fácil ao falasser (pelo menos aquele não tomado pela psicose) se despojar, sobretudo quando ele sofre a intrusão dos outros, por exemplo, sob o modo de uma surra.

Nas psicoses, o despojamento do corpo, do ego, pode tomar formas que, por exemplo, vão desde a despreocupação com os mínimos cuidados da chamada “higiene pessoal” até essa preocupação excessiva com a “aparência pessoal” que, em muitos casos diagnosticados como Transtorno Dismórfico Corporal (Body Dysmorphic disorder) podem fazem com que o corpo seja recortado por infindáveis formas de cirurgia plástica ou mesmo por auto-mutilações. Mas se os psicóticos podem suportar tal despojamento do corpo, do ego, é porque não largam esse ossobjeto que Lacan chamou de objeto a e que consideram como eles próprios, é porque o narcisismo comporta um peso do qual o falasser – tomado ou não pela psicose – não consegue se livrar totalmente: com o pequeno a como ossobjeto, os psicóticos se fazem um corpo e procuram se contrapor aos significantes que a foraclusão do Nome-do-Pai faz precipitar sobre eles.

“No que concerne à fala”, sustenta Lacan, “não se pode dizer que alguma coisa não era, para Joyce, imposta”[12]. Um exemplo particularmente elucidativo desta imposição da fala pode ser lido em uma carta que este escritor, alguns meses depois da morte do pai e abalado pela psicose da filha, endereça a Miss Weaver, sua amiga e mecenas. Referindo-se ao modo como a voz do pai o afetava, Joyce relata: “parece-me que sua voz, de algum modo, entrou em meu corpo ou em minha garganta. Ultimamente mais do que nunca – especialmente quando suspiro”[13].

Se a presença da voz do pai no corpo ou na garganta se fazia notar “ultimamente mais do que nunca”, é porque, antes mesmo de Joyce ter de se confrontar com o furo ressaltado pela morte do pai, tal voz já o assolava[14]. Entretanto, a psicose ordinária de Joyce é extraordinária porque nos apresenta outra solução, diferente daquelas que ordinariamente encontramos em muitos casos de psicose e que, com Lacan, eu chamaria de “modulação da voz”. Jacques-Alain Miller afirma que o nó borromeano muda radicalmente o sentido da escrita porque “desatrela (découple) a escrita da fala”[15]. Este desatrelamento é o que a escrita de Joyce também realiza. Certa vez, indagado pelo amigo Frank Budgen sobre como estava indo Ulisses, responde que havia trabalhado muito e chegou a escrever duas frases. Tal amigo, diante da defasagem entre as quantidades de trabalho e o que foi produzido, lhe pergunta se estava procurando pelo mot juste e recebe de Joyce a seguinte resposta: “já tenho as palavras. O que estou procurando é a perfeita ordem das palavras na frase. Há uma ordem apropriada a cada vez”[16].

Esta ordem pela qual Joyce procura não é aquela, a la Flaubert, do mot juste determinado pelo Nome-do-Pai, nem a ordem de ferro com que a foraclusão deste significante fundamental pode fazer precipitar os significantes sobre o falasser tomado pela psicose. Trata-se da ordem sinthomática pela qual Joyce torna opaco o gozo que, na imposição da fala, é uma avalanche de “gouçosentido (j’ouis-sens)”[17]. Assim, em vez de “decifrar seu sintoma”, tal como faz corriqueiramente os psicóticos diante do que lhes deixa perplexos, Joyce “preferiu cifrá-lo de outro modo”[18]: assolado pela polifonia da fala, ele a decompõe modulando a voz, enganchando os significantes, buscando, para cada frase, a ordem que lhe é própria e que seu trabalho incansável e inovador como escritor permite corporificar.

* Analista Praticante (AP), Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV da Universidade FUMEC; Mestre em Filosofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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[1] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 140. Esclareço que, em francês, noeud bo (“nó bo”) é homofônico a “Nebo”, termo que designa o Monte no qual Moisés, segundo Iahveh, iria morrer.

[2] LACAN, Jacques. Lituraterra (1971). In: ––––. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 15-25.

[3] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[4] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[5] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 141.

[6] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 23.

[7] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 149.

[8] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 143.

[9] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 144.

[10] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 67.

[11] JOYCE, James. Um retrato do artista quando jovem (1914). Tradução de Bernardina Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Siciliano, 1992, p. 87.

[12] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 93.

[13] Carta de James Joyce a Harriet Weaver, 22 de julho de 1932. Cf. ELLMANN, Richard. Letter of James Joyce, v. III. London: Faber and Faber, 1966, p. 250.

[14] Ellmann, na biografia consagrada a James Joyce, chega a falar de um “domínio retórico paterno”. Cf. ELLMANN. Richard. James Joyce (1959). Tradução de Lya Luft. Rio de Janeiro: Globo, 1989, p. 366-367.

[15] MILLER, Jacques-Alain. Pièces détachées. La Cause Freudienne. Paris, n. 61, p. 137, novembre 2005.

[16] Cf. BUDGEN, Frank. James Joyce and the making of Ulysses. Bloomington & London: Indiana University Press, 1967, 4th edition, p. 20.

[17] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23…, p. 71.

[18] MILLER, Jacques-Alain. Pièces détachées. La Cause Freudienne. Paris, n. 63, p. 139, juin 2006.

Por Ana Lúcia Lutterbach Holck *

O que quer uma mulher? Freud adianta que só há libido masculina. O que quer dizer isso? – senão que um campo, que nem por isso é alguma coisa, se acha assim ignorado. Esse campo é o de todos os seres que assumem o estatuto da mulher – se é que esse ser assume o que quer que seja por sua conta. Além disso, é impropriamente que o chamamos a mulher, pois, a partir do momento em que ele se enuncia pelo nãotodo, não pode se escrever. Aqui o artigo a só existe barrado. Esse /A tem relação com o significante A enquanto barrado.[1]

A mulher não existe.

Por que Antígona não seguiu os conselhos de Ismênia? Por que Diadorim não revelou seu segredo a Riobaldo? Por que Ana Karenina se jogou debaixo de um trem e Virgínia Woolf no rio? Por que Duras escreve? Por que Lol se calou? Porque não há A.

De um lado da humanidade estão aqueles que exis­tem, fazem saber. Com o saber fazem indústrias, pontes, coador e fraldas descartáveis, guerras, bebês de proveta, remédios, bombas, carros, tortura, fortuna, doenças, fast-food e charuto. E de outro estão as que não existem e só sabem fazer com o impossível, desafiando a Deus: desespero, suicídio, traição, paixão, loucura, ferocidade, ficção, poesia, êxtase. Por quê? Porque não há A.

O que faziam as mulheres na Grécia antiga? Sexo e amor eram assuntos importantes e, junto com a verdade e a guerra, eram para serem tratados entre os homens. Parece que eles também não estavam interessados em educá-las, e muito menos em tê-las como educadoras. A educação era dos homens para os homens. Para os assuntos domésti­cos, ti­nham os escravos. Elas estavam excluídas também da política. Parece que os antigos deixaram as mulheres à parte. Devia ser uma espécie de campo sagrado, melhor não mexer.

O que será que as mulheres faziam quando estavam entregues a si mesmas, entre si? Chico Buarque acha que as mulheres de Atenas teciam esperando os seus maridos. Homero, com Penélope, também. Elas teciam e esperavam. Esperavam a guerra para tecer. Freud achava que tecer era o melhor que as mulheres podiam fazer. Era isso que as mu­lheres faziam, teciam. Os homens iam para a guerra e as mulheres esperavam. Esperavam, tecendo ter paz, em paz.

É isso, tecem ou insistem até o limite da morte em enterrar seus irmãos.

Tecer. É isso o que as mulheres fariam se fossem entregues a sua solidão. As mulheres gostam de tecer. Tecer fios e ficções. Só que nunca inventaram uma tecelagem para enviar as mulheres quando elas começam a não querer comer, ficam paralíticas, mudas, apaixonadas ou cegas.

Na época de Freud elas eram mandadas para as clínicas de repouso. Achavam que elas precisavam de repouso, que estavam cansadas. Cansadas de quê? Seria um cansaço de tentar ser homem? Ou tentar fazer existir a mulher? Ou eram os homens que ficavam cansados de vê-las, assim, tão nãotodas. Lá elas poderiam tecer na solidão.

Quando será que inventaram que a mulher devia fazer parceria com algo mais que a solidão? Quando será que inventaram que a mulher tinha que existir? É um desastre porque elas não sabem existir direito. E os homens reclamam.

Não sei quando foi que inventaram isso tudo, mas a Segunda Guerra foi um grande salto neste sentido. Será que foi o mercado e as feministas que inventaram que a mulher tinha que existir? Será que inventaram que a mu­lher tinha que fazer coisa de homem na mesma época que inventaram as indústrias de assassinato em massa?[2]

É isso. Foi o mercado e a burocracia que decretaram, ao mesmo tempo, a morte de Deus, a indústria da morte organizada e racionalizada; a construção de um muro, a guerra fria, a existência da mulher e o amuro. Foi preciso Lacan dizer que a mulher não existia justamente porque insistiam em sua existência.

Sobrevivemos à morte de Deus, à guerra e ao muro, mas se a mulher tomar existência será o fim do mundo, o fim do buraco sobre o qual se pode tecer. O fim do nãotodo. Seria como propor o fim do zero.

Mas o que aconteceria se fossem deixadas em sua solidão, como as mulheres de Atenas e de Tebas? Elas iriam tecer, tecer palavras e como são nãotodas, iriam escrever, escrever até chegar a escrever sem gramática, até chegar à não-escritura:

Haverá uma escritura do não-escrito. Um dia isso acontecerá. Uma escritura curta, sem gramática, uma escritura
só de palavras. De palavras sem gramática de sustentação. Desgarradas. Escrever. E deixar em seguida.[3]

E aí os homens poderiam ler o jornal, assistir ao jogo, trepar, fazer negócios, viadutos e guerras, em paz.

Claro que essa separação não diz respeito à anatomia e cada um se postaria, como já acontece, do lado que pudesse.

A sexualidade se manteria, mas sem almejar a relação.

Só restaria a poesia.

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* Ana Lúcia Lutterbach Holck é a autora de Patu – A Muher Abismada, publicado pela  Subversos. O presente texto é a apresentação deste seu livro.

[1] Lacan, J. O Seminário 20, Mais ainda [1972-1973]. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1982, p.108.

[2] “Essa nova face da morte organizada, racionalizada, descoberta na Alemanha, desconcerta antes que indigna. […] acaba de assassinar onze milhões de seres humanos da mesma maneira metódica, que uma industria de estado.” Duras, M. La Douleur. Paris : Gallimard, 1985, p. 65. Livre tradução da autora.

[3] Duras, M. Écrire. Paris : Gallimard, 2003, p. 86. Livre tradução da autora.

por Felipe Esteves

Escrevo em preto, muito embora tenha à minha disposição uma infinidade de cores. Assim o faço pelo constrangimento imposto a meu lugar neste jogo. Sigo certas regras, buscando reconhecimento entre pares. O despertar desta consciência não me ilude; é justamente ao vislumbrá-las (as regras) que percebo onde atacar. Tento não ser cruel, minha índole não é afeita a tal sentimento. Ademais, não sou ingênuo, calculo minha posição na hierarquia do jogo em baixo grau. Seria pretensioso de minha parte situar-me, ainda que distante da superfície? Parece-me que não. Também esta consciência é benéfica: faz-me ser prudente e saber de onde atuo. A pretensão talvez resida no meu objetivo, de fato ainda desconhecido, mas pouco importante nesse caso. Ocupo-me dos caminhos, e nada impede que minhas expectativas sejam constantemente reajustadas. Tento apenas manter um mínimo de sanidade, e porque não dizer, humanidade, no fim que almejo.

Escrevo em preto, afinado. Mas não descarto o silêncio, o branco ou a escrita. Em muitas ocasiões nem mesmo escrevo; deixo que o papel seja tingido pelo que não me diz respeito, em parte porque é preciso, simplesmente. Saio de cena, recolho estilhaços de pigmentos que explodem pelos ares, tentando manter a ordem. Acredito valer a pena, ofereço-me passiva e pacientemente. 

Mas se escrevo agora é porque tenho algo a dizer. Denuncio-me perante a platéia, apresento-me ao sacrifício. Reafirmo, e agora para mim mesmo, que não me julgo superior. Iludo-me em achar que não lhes imponho nada. Mas realizo essa ilusão e acredito transmitir apenas palavras. Traços inofensivos, imóveis. Difícil é imaginar que guio seu entendimento, que não serei tomado por outro, e que desenhos sobre um papel não ferem ninguém. Retiro-me humildemente, peço que me perdoem

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bloomsday03

Cartaz comemorativo do Bloomsday de 2003

O Bloomsday, 16 de junho, é a comemoração da data na qual, em 1904,  ocorrem os eventos relatados em Ulysses, romance de  James Joyce cujo herói se chama Leopold Bloom. Em Dublin, na Irlanda, as comemorações do Bloomsday ocorrem durante uma semana inteira. No dia 16, é tradicional vestir-se como personagens do livro, visitar os locais onde as cenas acontecem, lendo e participando de leituras, caminhadas e representações ligadas ao livro.

IH211825© Richard T.  Nowitz/CORBIS

Dedicamos a casquinha de hoje não somente a James Joyce mas também a Leopold Bloom.

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Ulisses

James Joyce

(Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro)

Rio de Janeiro: Objetiva, 2005, p. 64-65.

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O Sr. Leopold Bloom comia com prazer os órgãos internos de aves e de outros animais. Ele gostava de uma sopa grossa de miúdos de aves, moela com nozes, um coração recheado assado, fatias de fígado fritas à milanesa, ovas de bacalhau tostadas. Mais do que tudo ele gostava de rins de carneiro grelhados que davam ao seu paladar um sabor refinado de urina ligeiramente perfumada.

Rins estavam em sua cabeça enquanto ele se movia mansamente pela cozinha, arrumando as coisas dela na bandeja corcovada. Havia na cozinha uma luz e um ar gélidos mas lá fora se estendia em toda parte uma suave manhã de verão. Fazia com que ele se sentisse um tanto faminto.

Os carvões estavam avermelhados.

Uma outra fatia de pão com manteiga: três, quatro: certo. Ela não gostava de seu prato cheio. Tudo bem. Ele deu as costas para a bandeja, levantou a chaleira da chapa de ferro de lareira e a pôs de lado no fogo. Ela ficou ali sentada, apática e acocorada, com o bico projetado para fora. Uma xícara de chá logo. Bom. Boca seca.

A gata andou toda esticada com a cauda erguida em volta da uma das pernas da mesa.

– Minhau.

– Ah, você está aí – disse o Sr. Bloom, se virando de costas para o fogo. A gata respondeu miando e toda esticada se aproximou rastejando miando novamente em volta de uma das pernas da mesa. Exatamente do jeito que ela rasteja em cima de minha escrivaninha. Ronron. Coce minha cabeça. Ron.

O Sr. Bloom observou, gentilmente inquisitivo, a forma negra flexível. Graciosa de ver: o brilho de seu pêlo lustroso, o botão branco sob a base de sua cauda, os olhos verdes cintilantes. Ele se inclinou para ela, com as mãos apoiadas nos joelhos.

– Leite para a gatinha – disse ele.

– Minhau! – Gritou ela.

Eles as chamam de tolas. Elas entendem o que dizemos melhor do que nós a entendemos. Ela entende tudo que quer. Vingativa também. Cruel. A natureza dela. Curioso os camundongos não chiam nunca. Parecem gostar disso. Eu me pergunto o que é que eu pareço para ela. Altura de uma torre? Não, ela pode pular por cima de mim.

– Medo dos pintos ela tem – disse ele zombeteiramente. – Medo dos chukchuks. Eu nunca vi uma gatinha tão tola como essa gatinha.

– Miinhau! – gritou alto a gata.

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