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Por Luiz Dolino*,
Outono, 2014

Em dois momentos desfrutei do convívio com esse gênio da literatura.

A primeira vez ocorreu em Havana, 1988. Estava em Cuba acompanhando uma missão comercial, quando, num domingo preguiçoso, fomos almoçar num paladar, como são chamados alguns locais em que nada denuncia o seu perfil comercial – na verdade um restaurante familiar. Nesses ambientes, o cliente desfruta do que de melhor é possível produzir numa cozinha precária e sem acesso a farto ou mesmo variado material para o consumo.

Tudo transcorria como previsto. A casa dispunha de jardim com um amplo gramado e o nosso grupo foi acomodado debaixo de um caramanchão polvilhado de hibiscos floridos – eramos os únicos. Iniciados os trabalhos, mojitos, mani, jogávamos conversa fora. Eis que identifico, atravessando o prado, um casal. Ela de vestido branco comprido, certamente de origem mexicana. Ele com a indefectível gayabera, camisa típica da região caribenha. Não tive dúvida e anunciei: está chegando o Gabriel Garcia Marques.

Tranquilos, silenciosos, ocuparam uma pequena mesa a curta distância da nossa. A partir daí acometeu-me a dúvida: falo ou não falo. Respeitarei ou não a privacidade? Difícil escolher. Como deixar passar uma oportunidade como essa? Decidi depois de amplas consultas ao grupo. Escreveria um bilhete e pediria ao rapaz que estava nos atendendo que levasse o torpedo. Assim foi feito. Na posição em que me encontrava à mesa não dispunha de ângulo que favorecesse a visão da cena. Esta me foi descrita por um amigo do lado aposto ao meu: entregou, ele colocou os óculos, leu, guardou no bolso da blusa. Portanto, nada a fazer.

Lembro que, no meu recado, eu caprichei no castelhano para dizer: sou fulano, seu admirador, de profissão pintor. Queria cumprimentá-lo, mas, sobretudo, respeito a sua privacidade. Como não logrei sucesso, confesso que acabei esquecendo da ilustre presença às minhas costas. Nosso festim seguiu seu curso natural, muita conversa, muita risada e boa comida, regada com o melhor rum da ilha.

Estávamos nos licores quando percebi que uma mulher se encaminhava para o portão no fundo do jardim. O assunto da vizinhança com Gabo voltou à baila e eu percebi, ato contínuo, uma presença ao meu lado. Era ele quem perguntava: quem é o pintor brasileiro que me mandou um bilhete? Sorridente me identifiquei. Nesse momento chegava a bandeja com mais bebida e café. Convidei-o para um brinde.

Na verdade, a resposta do escritor não foi nada simpática. Ele olhou para o próprio pulso e disse que tinha 5 minutos para nós. Em condições naturais de temperatura e pressão, eu teria arranjado um jeito de dispensar. Mas, como se tratava de quem, preferi insistir. Ele aceitou um cálice raso e brindou conosco. Não sei como, a partir desse instante mágico, engrenamos numa conversa. Depois de muitos 5 minutos, meia hora talvez, sem remédio, vi que a mulher retrocedeu, até porque o marido já estava abancado às gargalhadas conosco.

Quando Gabo se chegou a nós, eram 4 horas, talvez. Anoitecia quando ele disse: agora me vou! Onde vocês estão hospedados? No Hotel Nacional. Pois bem, amanhã, por volta das 11 horas, passo por vocês para seguirmos juntos para visitar San Antonio de los Baños. Iríamos conhecer a escola de cinema mantida pelo escritor.

O dia seguinte foi ainda mais rico que o anterior. Gabo, com mil compromissos, foi generoso em nos levar, mas, no local, nos deixou a cargo de um guia. Foi ótimo assim mesmo. Nesse encontro, dei-lhe uma gravura. Agradeceu e disse: seu trabalho vai ficar aqui na escola.

Dez anos passados, estava na Índia.

Fui hóspede de uma farm house, distante, portando, do centro do Nova Deli. Lá, tinha a meu serviço exclusivo um empregado a quem nada tinha para pedir. Ele me acompanhava silencioso como uma sombra. Chegava a ser incômodo. Fiquei uns dez dias. No último, tinha que pegar um voo tardio rumo à Europa. Nessa noite, precisei do serviçal. Confessei-lhe não saber dobrar camisas e pedi ajuda, sendo prontamente atendido.

Estabelecido o diálogo mínimo, sou surpreendido pela pergunta: o senhor é artista, não? Sim. Ele disse num inglês precário: eu sei, tem um quadro seu na sala do patrão e vi também um livro sobre o seu trabalho editado em francês e inglês. Sorri. E o jovem prosseguiu: você é amigo do Gabriel Garcia Marques, não? Disse que não, provocando uma expressão de perplexidade no seu rosto ingênuo.

O rapaz então tentou explicar a sua incompreensão ante o fato de eu ter uma foto no meu livro abraçado ao escritor sem que fosse amigo. Contei que, entre nós, na nossa cultura, essa imagem possivelmente não tem o peso, a mesma importância que tem entre os hindus. Senti, no entanto, que não convenci. Deixando de lado esse aspecto absurdo para ele, continuou: você já leu Cem anos de solidão? Disse que sim. Ele então me contou que encontrou o livro na biblioteca do patrão e que a sua leitura tinha modificado a vida dele, a ponto de convertê-lo em escritor… Queria saber se Gabo teria escrito outros romances em inglês. Esclareci que a obra foi toda produzida em espanhol e que certamente havia tradução de tudo.

Agora, era a minha vez. Perguntei-lhe em que idioma escrevia. Disse que em pradesh, língua falada na remota região em que havia nascido.

Imediatamente ponderei sobre a dificuldade daqueles que se expressam por meio de idiomas periféricos, como no nosso caso. Ele, não se dando por vencido, argumentou que essa limitação seria transitória, dado que, no futuro, ele encarnaria alguém com uma possibilidade maior de comunicação.

Eu precisava calar-me. Não consegui. Achei que ele merecia a minha opinião sincera. Disse então que, como procedíamos de culturas tão diferentes, ele teria que aceitar a opinião de que, no meu caso, a hora é essa. Sem chance de outra rodada. Ele ficou estupefato. Parecia dizer: que besta, que primata! Fazer o que?

Mais alguns anos, voava de Bogotá para Cartagena das Índias.

Quem adentra no avião? Gabo.

De novo a mesma sensação – falo, não falo. Falei.

Depois da decolagem, cheguei mais perto, me identifiquei, logo dizendo que ele não deveria se recordar de que em Cuba… Ele cortou e disse que sim, lembrava. Lembrava até da gravura que deixamos em San Antonio.

Disse-lhe então que tinha vivido na Índia uma experiência extraordinária e que gostaria de contar. Autorizado, prossegui com a novela. Esperava que o escritor se comovesse. Afinal, nos confins do mundo para nós, latino-americanos, um jovem pradesh modificou o curso dos seus sonhos após o contato com a sua obra. Nada. Gabriel Garcia Marques apenas sorriu. Inconformado, perguntei: você não acha toda essa história fabulosa? Não, respondeu seco. Acrescentando, depois de uma pausa teatral: é que sou como esse moço…

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*Luiz Dolino é artista plástico – http://www.dolino.net – e escrever pro Blog da Subversos.

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Por Fátima Pinheiro*

Este número de “O artista por ele mesmo” traz a entrevista que realizei com Luiz Dolino (Macaé-1945) que vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Artista que se utiliza da geometria para criar novas realidades a partir de seu cotidiano, Luiz Dolino expôs individualmente em vários países desde 1968, além de participar de diversas exposições coletivas neste período. Sua obra faz parte de acervos de importantes instituições do mundo. Para além da pintura realizou também trabalhos de capa e ilustrações em livros de Carlos Drumond de Andrade, e atualmente é colunista do blog da Editora Subversos.

O seu trabalho provém da influência do discurso concretista que o artista Max Bill no início dos anos 50 produziu a partir de sua chegada ao Brasil, e que teve como um dos grandes expoentes o artista Ivan Serpa, com quem Luiz Dolino estudou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As relações que o artista evidencia em seus trabalhos partem da matemática, mas revelam que o seu trabalho não está focado unicamente em uma pesquisa formal, uma vez que não trata de entender os sistemas de forma ordenada ou funcional. Ao contrário, os sistemas com que o artista trabalha não estão regidos pela complementariedade e equilíbrio. Este aspecto torna a sua obra voltada para uma poética que, como ele mesmo diz, não está remetida a “uma fórmula mágica”, e acrescenta: “o que se pode de fato chamar de mágico é o espaço branco, vazio que nos desafia, atrai, e por vezes rejeita”. Nessa entrevista, através do depoimento e de imagens de alguns dos trabalhos do artista, pretendemos transmitir algo de sua poética e da sua trajetória, permitindo assim não dissociá-la da linguagem que a constitui.

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Paisano 130x150 cm

Paisano

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1- Fátima Pinheiro: Você estudou com Ivan Serpa que foi um artista concretista até os anos 60 e que a partir daí voltou-se para o expressionismo, sendo considerado um dos primeiros artistas do abstracionismo geométrico no Brasil. Qual foi a influência que ele exerceu no seu trabalho?

Luiz Dolino: Serpa era, como professor, uma figura muito singular. Ele atuava julgando o tempo todo. Levávamos um ou mais trabalhos ao MAM, ele passava os olhos. Criticava. Em geral, comentava desconstruindo a obra. Quando terminava o discurso, a gente sentia que não tinha sobrado nada… Mas isso não era tão mal como pode parecer; muito ao contrário, ele nos ensinava a perseguir a excelência, descartar o óbvio, conquistar a linguagem.

2- F. P.: Para você o que significa a pintura?

L. D.: A pintura é uma forma de expressão não verbal. É uma possibilidade de organizar nossas emoções por meio de uma gramatica própria que contempla basicamente a forma e a cor

3- F. P.: Certa ocasião você revelou que se inclui entre aqueles artistas que ao iniciarem um trabalho não teriam outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido possível. Por que você quer se livrar de forma rápida do seu trabalho?

L. D.: Eu sinto que a necessidade de expressar alguma coisa nasce de um incômodo primordial que não machuca e nem ofende muito num primeiro momento, mas que, com o passar do tempo, vai criando volume; vai se tornando algo de impossível convivência. Chega então um momento em que a necessidade de dizer se torna insuportável, então o que fazer? Botar pra fora correndo, caso contrário a gente morre.

4- F. P.:Como você percebe que um trabalho seu finalizou?

L. D.: O trabalho está pronto, acabado, fechado, quando eu sinto claramente que qualquer acréscimo será supérfluo e que insistir seria uma forma de corrupção da ideia original. No caso da pintura geométrica, no meu caso, planista, com superfícies muito determinadas, penso que esse primado fica ainda mais ostensivo.

5- F. P.: Muitos de seus trabalhos, entre eles Sabará (2004), Tapera (2004) e Altair (2011) apresentam uma geometria em desequilíbrio, revelando uma não complementariedade entre as partes que o compõem. O que você pode nos dizer sobre este aspecto do seu trabalho?

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L. D.: Como forma tentativa de elucidar a questão, acho que posso dizer muito pouco sobre o aspecto posto em destaque na pergunta. O que posso acrescentar é que, nas três obras citadas, forço ou enfatizo uma necessidade de deixar um rastro de algo que sobrevive a custa de um equilíbrio muito precário, ao contrário de outros trabalhos, talvez a maioria, onde não deixo margem a dúvidas sobre o que concerne à divisão áurea do espaço.

6- F. P.: Você realizou várias exposições fora do Brasil. Como foi a experiência de apresentar o seu trabalho em lugares tão diferentes do Brasil como a Tunísia, San José e Suiça, por exemplo?

L. D.: A experiência foi muito plural, naturalmente. Quando você menciona esses três países, passamos a tratar de culturas diversas como a do mundo árabe; a da nossa vizinhança latino-americana e a da racionalidade da matriz europeia, generalizando um pouco. No ambiente islâmico, onde a figura humana, por exemplo, é algo fora de cogitação, exibir, como no meu caso, uma arte ancorada fortemente na matemática, estamos nos aproximando com uma linguagem muito apreciada por esse público, o que assegura desde a primeira hora uma sensação de conforto. Por outro lado, a vizinhança hispânica nos faz sentir em casa em um primeiro momento, mas em seguida, em termos de expressão, se instala uma estranheza, fruto de um mundo mágico que permeia a percepção dos povos ameríndios. A Suíça me fez sentir como um invasor bárbaro. É que lá me pareceu que o visitante se acerca do trabalho de um artista brasileiro esperando encontrar algo que se identifique com a ideia de um ambiente surreal, no mínimo. No entanto, no meu caso, ao se verem diante de obras que são primas-irmãs das criações de Max Bill, Mondrian ou de Rothko, apenas como citação, o olhar do espectador confessa uma expressão de desconforto, como se eu fosse um fraudador que se apropriou sem qualquer cerimônia daquilo que lhes pertence de maneira inalienável. Claro está que tudo isso é passageiro, mas é a primeira impressão que costuma ficar.

7- F. P.: Você trabalhou, também, como curador em algumas exposições. Uma delas foi realizada em San José, com trabalhos de Ana Bella Geiger, Ana Letícia e outras. Como foi para você esta experiência de curadoria?

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Lulu's back in townLulu’s back in town

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L. D.: A experiência de curadoria é das mais enriquecedoras. Isto porque todas as vezes que me submeto a essa tarefa ficou a mercê de uma disciplina que me obriga mergulhar em profundidade em temas muitas vezes fora do meu universo mais cotidiano. Foi assim para realizar O Tempo sob medida, que celebrou os 200 anos do Banco do Brasil; uma exposição que abarcou um acervo milionário de máquinas, equipamentos, símbolos, pinturas, um pouco de tudo aquilo que ajudou o Homem a avaliar e medir as horas. Eu encarei o desafio de forma precária, mas tive a chance de estudar, falar com quem sabia e ficar um pouco mais esperto no tema. Tudo isso se repetiu, em grande estilo, ao fazer a curadoria da mostra Rabin Ajaw. Com a proximidade do fim do mundo, fui instado a me aproximar da Cultura Maya, que apregoava o fim dos tempos para dezembro de 2012. Para mim, foi mais uma aventura deslumbrante e mais espetacular ainda foi o resultado do trabalho, ao mostrar um pouco da cosmogonia maya. No caso da exposição em San José da Costa Rica – Confrontaciones – atendi a um projeto do Ministério das Relações Exteriores, celebrando o Ano Internacional da Mulher. Para esse evento, convoquei a fina flor da arte brasileira no campo da gravura, onde as damas assumem uma posição de grande destaque. Assim, tive ocasião de formar um acervo múltiplo como linguagem e técnica, reunindo nomes de primeira linha como Maria Bonomi, Renina Katz, Fayga Ostrower, Anna Letycia, Ana Carolina, Anna Bella Geiger, Tereza Miranda, receita infalível de sucesso.

8- F. P.: Dentre os seus trabalhos existe algum, em especial, que expresse com maior intensidade a sua relação com a arte?

L. D.: Não, nem me parece justo indicar. Seria uma indelicadeza com os fiéis parceiros de minha solidão. A cada momento, a cada obra que realizo tenho, na sua epifania, um relacionamento particular, íntimo e singular com aquele trabalho que acaba de surgir e que, a partir daquele momento, vai estar ao meu lado na hora que eu precisar enfrentar o mundo.

9- F. P.: Você é conhecido como um excelente contador de histórias, e eu tive a oportunidade de constatar este seu talento ao introduzir esta entrevista, quando você se referiu ao tempo de convivência com o escritor Pedro Nava. Vc tem uma forma pictórica de contar histórias. Você poderia eleger uma breve história para nos contar, e assim podermos ter o prazer de nos deliciar com ela, para além de suas pinturas?

L. D.: Olha, eu deveria fugir dessa provocação. Realmente, tenho alguns amigos que me estimulam a contar… Pedro Nava era um deles; George Vidor, outro. Fernando Barbosa Lima chegava ao cúmulo de pedir que eu repetisse essa ou aquela; tinha as suas preferidas. Eu, na verdade, gosto é de brincar com a minha memória. Não busco na palavra, jamais, uma forma adicional de expressão, é só o que os franceses chamam de divertissement. Mas, como sou audacioso, vou me arriscar: no início dos anos 70, eu vivia no México. Um dia perdi uma aposta que consistia em pagar um jantar no mais famoso e caro restaurante da cidade. Não tive remédio. O escolhido foi o luxuoso Rivoli, então centro da badalação local. Como não me concentro no noticiário esportivo – e não esquecer de que estamos no início dos anos 70, Brasil campeão – não tinha tomado conhecimento de que Pelé tinha chegado ao México naquela manhã e pela primeira vez desde a conquista da Copa do Mundo, na qual ele foi o maior astro.
Marquei o restaurante para aquela mesma noite em nome do sr. Nascimento, que é o meu último sobrenome. Ao chegar ao Rivoli, nem sequer me causou estranheza a grande movimentação no local, dado que ali era o point da noite mexicana. Apresentei-me com a reserva feita em meu nome. O maître, entre gentil e perplexo, perguntou: e o sr. Nascimento onde está? Disse-lhe: aqui, sou eu mesmo. Só então, diante de uma avalanche de repórteres e câmaras de tv, me dei conta de que o Rivoli esperava pelo Rei. Aliás, diga-se, o local era digno daquela majestade. Foi um anticlímax geral, mas apesar disso conseguimos comer muito bem…

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Dama de Copas 130x150cmDama de Copas

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

PRIMEIRA NOITE

Por Luiz Dolino

A primeira noite de Antero em Niterói deixou a marca opressiva da
angústia. Nas outras noites também, sentia um terrível e inexplicável
desconforto. Antes, ele nunca teria cogitado em sair do Acre. Nas
margens da Amazônia, seu projeto se resumia em viver da caça ao
jacaré e da perseguição a pintassilgos. Antero foi quem primeiro se
expressou sobre o perigo. Foi direto ao ponto: para seguir nessa vida
é preciso autorização do IBAMA e contar com a Lei Rouanet.

Do IBAMA ele sabia tudo, afinal Cróvis, seu vizinho, não trabalhava
lá? Sobre a outra lei, ainda pretendia se informar. Qualquer hora
iria procurar o amigo. Com essa intenção, a paz voltou a reinar. Por
pouco tempo, é verdade, porque dessa lei de Rouanet continuou
sem ouvir falar. Para ele era suficiente poder pensar que o Cróvis,
funcionário de gravata, seria a qualquer momento a pessoa indicada
para esclarecer tudo. Ficou tranquilo e continuou a comprar alpiste.

Na verdade, esquecera completamente da ameaça que lhe rondava,
até que um dia, sem que nada lhe indicasse o perigo que o indiciava
de forma tão contundente, chega um pequeno batalhão na porta
de sua casa na remota Assis Brasil. Tudo tem um lado bom: junto
com a tropa, vinha o Cróvis. A autoridade deu voz de prisão. Cróvis
interrompeu a truculência que se anunciava e garantiu não ser
necessário, afinal o acusado foi até ali um homem de bem, tão
pacífico que nunca fez nada, além de caçar e prender dois bichinhos
pelos quais nutria até certo amor.

Atordoado, Antero foi aos poucos se inteirando de que algo muito
longe de sua imaginação se armava contra sua pacata rotina. Clóvis
Arruda, auxiliar administrativo, lotado no posto de fiscalização do
IBAMA, que funcionava no mesmo prédio anexo à prefeitura, onde
também trabalhava o pessoal da FUNAI, foi sua salvação. Com toda
paciência, pediu ao sargento Tenório que deixasse a questão por
conta dele e que aguardasse 15 minutos, antes de consumar a prisão
de Antero.

Foi então que puxou Antero pelo braço e foi logo dizendo, com
ares de patrono: meu amigo, você vai escapar dessa vez, mas, por
favor, amanhã mesmo você vai sair dessa cidade, pois do contrário
a sua vida vai virar um inferno. Antero parecia estar no miolo de
um pesadelo. Queria acordar, não entendia nada. Mal balbuciou: ô
Crovis, que que é isso? Eu tava aqui dando de cumê pros bichinhos.
Não tenho trabalho, nunca estudei, então o que que eu fiz de torto?

Bota atenção, Antero: ocê é meu amigo di criança, por isso que eu
vim com a tropa. Ocê vai ter que ir embora. Se não tem pra onde,
por enquanto, vou arranjar pro meu irmão fica com ocê em Niterói.
É longe, mas lá é bão, e Clementino trabaia lá de pedreiro. Ocê fica
cum ele e depois ocê vê o que é mió.

Foi só por isso que Antero chegou ao Largo da Batalha e já se
passaram seis anos. Nunca mais voltou para Assis Brasil, e nem quer.
Notícia de lá, tem nunca. Estudou um pouquinho no seletivo noturno.
Dona Isabel, professora muito boa, ensinou a ler e melhorou muito a
vida dele. Trabalha agora de caixa no supermercado e vai muito bem.
Mora ainda com Clementino e hoje tem uma vaga alugada no prédio
do lado do super.

Só pode ter sido pelo seu jeito de falar que a professora teve tanto
carinho com o aluno matuto. Ele fazia de tudo para aprender os
ensinamentos, mas não cresceu muito. Cabeça dura. De verdade, foi
o pastor Josias quem o fez aprumar. Pela primeira vez, usou gravata.
Ficou muito contente e sua alegria só não era completa porque –
além da Lei de Deus – ele padecia de temor pânico pela tal Lei de
Rouanet, que nunca entendeu por que tanto queria prejudicá-lo.

A sua esperança – e vive orando por isso sempre – é que um dia
algum irmão de mais luzes possa fazer a caridade de dizer o que é
isso e pra que serve e quanto ele terá que pagar pra se livrar desse
pecado. Jura – garantindo que pode vir soldado, delegado, autoridade

– que nunca fez mal nem a jacaré nem a pintassilgo. Estes então
tinham a maior das boas vidas nas suas gaiolas. Dava-lhes mamão,
alpiste e água sempre fresquinha. Eles cantavam que era uma
beleza. Até hoje, tudo isso se resume num grande sofrimento pra sua
alma. Desde a sua primeira noite em Niterói, não consegue dormir
sem pensar até quando estará por ser punido por essa tal Lei de
Rouanet.

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

Cenário adverso

por Luiz Dolino*

Se eu deixar você, jura que não me abandona?

Ontem, você partiu o queijo em fatias muito grossas. Normalmente, eu prefiro cortar uma por uma, à medida que vou comendo. O queijo de Minas fica logo amarelo. Por que você não comprou o Regina, que é naturalmente cor de gema de ovo? Tem tanta coisa que você sabe e por isso mesmo deveria conhecer bem os meus desejos. Claro. Demorei mas entendi – você não é mais a mesma.

Semana passada em Copacabana vi um assalto banal. Imagina que um menino, mal entrado na adolescência, tinha uma arma na mão. Do ônibus pude ver que era de brinquedo. Mesmo assim ele ameaçou e levou a melhor com a velha. Pudera. Sempre me pergunto, por que não sou eu a vítima. Queria ser sempre o objeto dessas violências. Tenho certeza de que, ao citar o seu nome para o meu algoz, eu conseguiria congelar a cena.

Não sei comer doce em calda sem me lambuzar. Você reclama sem razão, porque eu não tinha a intenção de manchar a toalha. Dona Magaly tem uma elegância tremenda para se comportar, sobretudo à mesa. Come as coisas mais esquisitas com a mesma sem cerimônia com que eu descasco uma banana. Você tem essa mania que é típica de mulher rica: sempre de escarpin. Outro dia, no consultório de Dr. Gastão, ouvi de um cliente para a moça da recepção: fulano (não entendi bem o nome) é muito arrogante, vive de salto alto.

Eu queria levar você para jantar numa churrascaria no Méier. Sei que você não aprecia esses ambientes suburbanos, mas é que a linguiça servida lá é única – faites à la maison. Comeríamos somente a entrada; depois, voltaríamos para o Leblon para terminar o jantar no Antiquarius, que é o restaurante mais caro da cidade e que você vive dizendo pra todo mundo que nunca foi. Assim, eu tiraria da lista mais um item de suas eternas insatisfações. Tudo tem um preço, minha cara. Saucisse no Méier, fígado de ganso no Leblon. Como vê, podemos sempre conviver com múltiplas realidades. Você é que finge não perceber.

Não vou mover uma palha para salvar nossa história. Amor, paixão, tudo isso é muito bom quando se acredita em fada. É igual time de futebol. A gente cresce torcendo pelo Vasco e nem sabe muito bem a razão de tal escolha que tem que valer para toda a vida. Em geral vem de herança. Depois de tanta dor, perdas e ganhos, taças e campeonatos, gastamos uma fortuna com o analista, que é a única pessoa que vive às custas do passado. Estou cansado. Vou dar uma volta, se demorar é porque fui ao cinema.

Olha, não mexe naquele embrulho ali não. Para conter a sua curiosidade doentia vou logo dizendo: é um skate. Contratei um professor, quer dizer, um garotão que é craque e que vai me dar aulas particulares três vezes por dia. Vai passar aqui toda terça e quarta. Vou trabalhar com ele de manhã, ao meio dia e no fim da tarde. Quinze minutos cada treino.

A vida começa a ficar muito desajeitada, você não acha? Espera aí. Não sai já não! Vamos descer juntos. Em quinze minutos tomo um banho. Hoje amanheci com um desejo: quero comer pastel. Você conhece algum lugar aqui por perto? Não, não é empada. Nessa padaria o que tem de bom são os salgadinhos. Eles não fritam nada lá não. Um pastelzinho tem o seu lugar. Nada consola mais uma alma carente. Será quem inventou o pastel? Pizza é coisa de italiano, quibe de árabe, sanduíche de inglês. E o pastel? Deve ser coisa de português. É verdade que nada supera a mulata, em matéria de invenção lusitana. Desculpe, não quis ofender. Estou falando de um ponto de vista antropológico.

Tem um artigo no jornal que fala da onda de calor que vem por aí, batendo todos os recordes no próximo verão. Acho que vou passar umas três semanas em Nova York. Pelo menos tem frio por lá. Não suporto esse negócio sebento, suado. Já viu como a pele das pessoas fica brilhando? Já estou me enxugando, não vou demorar. Porra! Mas essa toalha é nova? Logo vi. Não seca. A minha mãe, sempre atenta, quando comprava roupa de banho, mandava lavar umas cinco vezes antes de pô-las em uso. Mas esses cuidados hoje, quem vai ter? Falar nisso, aquela malandra da Janice telefonou que não virá aqui na sexta. Vamos passar o fim de semana com a casa sem arrumação.

Você pensou bem? Vamos ao Méier. Juro que eu vou me comportar como um lorde no restaurante mais tarde. Vou confessar uma coisa: meu sonho (antes de conhecer você, é claro, muito antes) era ter uma amante no subúrbio. Uma escurinha dessas que vão passando e arrasando. Eu tinha (?) uma fantasia – alugar uma quitinete em Olaria, Engenho Novo. Imaginava a Zona Norte como lugar ideal para veranear ou, como dizia o nosso porteiro, venerear. Eu chegaria no meio da tarde encontrando o meu amor à espera. Nuinha, se abanando com uma ventarola de papelão. O ventilador de teto estava sempre enguiçado…

Eu acho totalmente plausível o prazer se estabelecer quando dosado em partes generosas de carinho, calor, bom hálito e um certo torpor, sofrimento, quase dor. Acho que estou ficando romântico. Você sacou que tudo rimou na minha frase? Claro que você não escutou nada e se ouviu prefere fingir que não entende. O que eu preciso é encontrar um novo trabalho. A minha renda está ficando curta. Posso alugar esse apartamento, porque não preciso de 250m2 em Ipanema. Com a grana, mudo e vou morar muito bem no Flamengo, sobrando pelo menos uns dois mil por mês. Nem precisa fazer essa cara. O colega mais feliz e pra cima que tive morava em Vicente de Carvalho. Sabe onde fica? Nem eu, mas sei que é longe, no fim da Zona Norte. Enquanto eu saía para a escola 15 minutos antes de tocar o sinal de entrada, ele saía duas horas.

Você comprou o biquíni de que estava precisando? Vou deixar aqui 300 pratas. Eu vou dar de presente. Não compra aqueles mini, não. Morro de vergonha, todo mundo olhando pra você. Às vezes acho que estão é olhando pra mim. Só pode ser, porque o que mais tem na praia é mulher. Sujeito com cara de otário, o número é bem menor. Hoje, além de pastel, vou chupar um picolé de manga. A gente tem cada desejo, não é? Mas que importam para você os meus desejos? Nada. Claro. Também não sei a razão de ficar especulando sobre tudo. Dr. Trompowiski vinha sempre com um papo de insegurança básica. Pensar o tanto de dinheiro gastei para ouvir essas baboseiras. Ah, meu Deus, em quantos picolés eu poderia ter investido? Amanhã é dia de feira, você precisa de alguma coisa?

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

por Luiz Dolino

Durante a minha larga estância em Buenos Aires, entre 1979 e 1984, pude estar com Jorge Luís Borges duas vezes. Não é pouco, considerando que o bruxo da calle Maipú já estava com mais de 80 anos, circulando, portanto, num ritmo menos acelerado. A primeira vez, na livraria Ateneu. Estava autografando o primeiro volume de suas obras completas, editado pela Emecé. Dia 25 de junho de 1980. Nesta data, eu mesmo estava celebrando 35 anos. Foi Borges quem, de próprio punho, assinalou a efeméride como se vê logo abaixo de sua firma no meu livro.

Em outra ocasião, a convite de Maria Julieta Drummond de Andrade – afeto muito particular – fiquei diante do grande escritor, que se dispôs a comemorar conosco o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, ainda que numa celebração tardia, já que o poema apareceu em 1572.

Em muitos momentos, venho sendo agraciado com privilégios. Não me lembro de outra situação em que pude desfrutar de uma cabeça tão brilhante, como nesse encontro com Jorge Luís Borges. Cego, com olhos muito abertos, desviava a minha atenção com seu estrabismo divergente. Com uma das mãos, ia tateando a mesa em busca do copo d’água; com a outra, segurava firme o bastão de madeira, seu guia no escuro.

O discurso, a conversa do escritor vagava pelos territórios mais variados de uma suposta literatura contemporânea de Camões. Falou longamente sobre poetas persas, o que depois fiquei sabendo ser uma recorrência. Citou, recitou, divagou por muito tempo. Em dado momento, acompanhava aquela excursão tão absurda para os meus sentidos e ia pensando: talvez ele esteja caducando. De onde está, como voltar ao tema? Pois, para meu espanto, retornava.

Tempos depois, lendo, tomei conhecimento de que essa circum-navegação mental era uma das características de sua abordagem. Digressões as mais estapafúrdias eram, por assim dizer, um prato frequente no cardápio daquele gênio. Foi assim, numa dessas derrapagens, que ouvi pela primeira vez o nome de Gadda. Borges foi enfático ao mencionar o fato de ser ele apenas um aprendiz diante da capacidade especulativa desse escritor seu contemporâneo.

Carlos Emilio Gadda (1893-1973), como muito depois cheguei a me inteirar, além de romancista e poeta, é considerado dos ensaístas mais brilhantes do seu tempo. São consideradas suas obras capitais: O castelo de Udine (1934), O conhecimento da dor (1963) e Eros e Priapo (1967). A propalada técnica especulativa do italiano justificava a menção de Borges. Segundo o argentino, Gadda desenvolveu como ninguém a capacidade de analisar o texto, forçando o leitor a vivenciar a experiência (anotei essa passagem). A questão surgiu no momento em que Borges reclamava de si a insuficiente condição de, como Gadda, poder aprofundar-se no contexto e, simultaneamente, seduzir o espectador. Tudo mentira. Borges praticou ali, praticou sempre, exatamente esse figurino.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

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