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O biógrafo de Woody Allen, Eric Lax, reuniu 36 anos de conversas com o cineasta em Conversas com Woody Allen. No livro, Allen fala sobre a elaboração de roteiros, formação de elenco e representação, filmagem e direção, montagem e escolha da música. Todo o processo cinematográfico é contemplado nas reflexões do cineasta.

woody

Você  me disse que não tem ideias a partir de sonhos, mas os seus sonhos influenciam o que você escreve?

Sonhos não, mas alguma coisa no meu subconsciente. Quando eu estava trabalhando em dois filmes ao mesmo tempo, estava muito difícil. Eu tinha decidido fazer Zelig e Sonhos eróticos de uma noite de verão simultaneamente. O plano era filmar uma cena de Zelig e, se a locação fosse boa, filmarmos lá uma cena para o outro filme. E quase fizemos assim. Algumas coisas, com certeza, se sobrepuseram na refilmagem. Mas emocionalmente eu estava achando dificílimo. Não era difícil fisicamente. Nem um pouco. Era dificílimo porque você não se dá conta de todo o seu cerne, a sua essência, está envolvido numa ideia, que não te deixa seguir. É muito difícil largar disso e ir para a outra ideia porque há uma enorme obsessão com a primeira. Na época o Marshall Brickman me disse que sempre sentiu que quando a gente está trabalhando em alguma coisa, trabalha nela até mesmo sem saber – quando está comendo, ou na rua, ou dormindo –, está trabalhando naquilo mesmo quando pensa que se afastou. Está sempre em ebulição; descobri que a observação dele era precia.

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A expectativa era uma espécie de fome também. Ouvir o som indiscernível de uma boca rosada e diferente. A menina que sempre fazia isso, sempre era aquilo, mal-vinda e coitada. Por anos que ela não sabia que corriam nas quase mesmas esquinas de seu corpo estranhado. E o corpo também pedia, como ela, pedia o óbvio e o absurdo.

Naquela esquina, num além que ela não desconhecia pelo espaço, mas por cabelos quase brancos que refletiam o sol como nenhum, ela ouviu o que nada dizia. Era como se o nada fizesse, então, barulho. Ela, que só sabia coisas muito pequenas da voz, queria mais. Nem comida, nem dinheiro, nem a cantoria da mãe dispersa, ela queria aquele caldo como a sopa do que não cabe no prato.

Segundos depois da agitação de pedir, de repetir as suas palavras de sempre pra provar mais daquilo, o homem foi embora com uns passos muito largos, pernas compridonas que ela não sabia como cabiam nas calças. Pegou o irmão pelos ombros, se apegou àquela sua tábua pra desdobrar o mistério. “João, e aquele?” Apontava pros cabelos que guardavam luz de sol, pras pernas compridonas e pra voz que não dizia coisa depois de outra, mas montes que nada diziam.

João entendeu a pressa. “Turista, Natinha, se chama turista.” A palavra inaudita mordeu um pedaço daquele caldo. Fome não teve durante duas horas inteiras.

Alice C.

A psicose não desencadeada: um programa de investigação clínica

Dissertação de mestrado – UFRJ, 2008

Autor(a): Cristina Frederico

Orientador(a): Angélica Bastos

Esta dissertação investiga as psicoses não desencadeadas e, de acordo com a orientação lacaniana, visa situar os aspectos teóricos e clínicos que indicam a possibilidade de estabilização nesses casos. Procura demonstrar uma dimensão mais sutil das psicoses sem o caráter disruptivo do desencadeamento. O tema é abordado através de duas soluções encontradas pelos psicóticos: a compensação imaginária e a nomeação. A primeira é elaborada por Lacan nos anos 50, e a segunda – a nomeação – é encontrada nas últimas formulações de Lacan, sobretudo no seu seminário O sinthoma (1975-76), de onde se extrai uma clínica das suplências. Recentes formulações de autores lacanianos sobre o conceito de “psicose ordinária” também são discutidas. A prática analítica em duas instituições de saúde mental e a construção de um caso clínico permeiam a discussão. A investigação nos leva a valorizar a variedade e o aspecto singular das formas de organização produzidas pelos psicóticos para encontrarem um lugar no mundo.

E a tinta chega ao papel com a forma das letras – aqui, apressadamente desenhadas para que não se percam.

O que me interessa são os sons que atravessam um ouvido dourado. E assim se escreve a lenta e lenta história de uma vida.

Estas são algumas confissões inventadas e vividas. Ficção fixando no chão um caminho. Importam essas marcas que, se não são realidade, se realizam. Para cada ouvido de leitor, elas sussurram um segredo só seu, só meu, ali.

Alice C.

shh


Rua de mão única

(Obras escolhidas II)

Walter Benjamin

Editora Brasiliense

279 p.

R$ 46,90

***

Nº 13

Treize – j’eus un plaisir cruel de m’arreter sur ce nombre.* [Marcel Proust]

Le reploiment vierge du livre, encore, prête à un sacrifice dont saigna la tranche rouge des anciens tomes; l’introduction d’une arme, ou coupe-papier, pour établir la prise de possession.** [Stéphane Mallarmé]

I. Livros e putas podem-se levar para a cama.

II. Livros e putas entrecruzam o tempo. Dominam a noite como o dia e o dia como a noite.

III. Ao ver livros e putas ninguém diz que os dois minutos lhe são preciosos. Mas quem se deixa envolver mais de perto com eles, só então nota como têm pressa. Fazem contas, enquanto afundamos neles.

IV. Livros e putas têm entre si, desde sempre, um amor infeliz.

V. Livros e putas – cada um deles tem sua espécie de homens que vivem deles e os atormentam. Os livros, os críticos.

VI. Livros e putas em casa públicas – para estudantes.

VII. Livros e putas – raramente vê seu fim alguém que os possuiu. Costumam desaparecer antes de perecer.

VIII. Livros e putas contam tão de bom grado e tão mentirosamente como se tornaram o que são. Na verdade eles próprios muitas vezes nem o notam. Ano a fio alguém vai-se entregando a tudo “por amor” e um dia está lá como corpus bem corpóreo, na ronda das calçadas, aquilo que “para fins de estudo” sempre pairava somente acima delas.

IX. Livros e putas gostam de voltar as costas quando se expõem.

X. Livros e putas remoçam muito.

XI. Livros e putas – “Velha beata – jovem devassa”. Quantos livros não foram mal reputador, nos quais hoje a juventude deve aprender.

XII. Livros e putas trazem suas rixas diante das pessoas.

XIII. Livros e putas – notas de rodapé são para uns o que são, para as outras, notas de dinheiro na meia.

* “Treze – tive um prazer cruel em deter-me nesse número.”
** “O redobramento virgem do livro, ainda, presta-se a um sacrifício de que sangra o corte vermelho do antigos tomos; a introdução de uma arma, ou corta-papel, para estabelecer a tomada de posse.”

Benjamin, W. Rua de mão única. São Paulo: Editora Brasiliense, 2004, p. 33-34.

kitagawautamaro_flowersofedo1Flowers of Edo – Kitagawa Utamaro

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