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Arquivo da tag: Pedro Nava

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A percepção desse processo de utilização da lembrança (até então inerte

como a Bela Adormecida no Bosque do inconsciente) tem algo da violência

e da subitaneidade de uma explosão, mas é justamente o seu contrário,

porque concentra por precipitação e suscita crioscopicamente o passado

diluído – doravante irresgatável e incorruptível.

Pedro Nava – em Baú de Ossos

Pedro Nava, Pedro da Silva Nava. Meu amigo entre 1976 e 1984, ano da sua morte. A primeira vez que tive contato com esse que foi considerado o mais importante memorialista de nossa língua por vozes insignes está registrada em carta que enviei ao escritor em 1976.

Sempre cultivei um gosto pela palavra escrita, pelo registro. Li Baú de ossos, primeiro volume das memórias de Nava, publicado em 1972, somente em 1975. Vivia então no México e o livro me chegou por generosidade de Fausto Alvim Júnior, poeta, matemático, doutor em Lógica. Fiquei perturbado com o livro, seja pela dissertação, seja pelo estilo, pelo traçado do panorama de um Brasil do qual apenas suspeitava.

Vivido o turbilhão dessa leitura, ato contínuo, passei a escrever para o autor. Carta longa, circunstanciada, escorada em mundos e fundos, de muitas páginas, vazadas na minha letra bem desenhada e de rasgos avantajados. Contra os meus hábitos, demorei a dar por finalizada a obra. Pensei e concluí que era muita pretensão – sem conhecer Pedro Nava – meter-me a falar. Então rasguei tudo. E não me arrependo. Continuei querendo me manifestar. Faltava a forma adequada.

Lembrei que Pedro Nava falava de um personagem, Antônio Sales.

Esta figura foi marcante na formação do escritor. Nava descreve um passeio com tio Sales na Galeria Cruzeiro, no centro do Rio de Janeiro, aos 6 anos de idade. Antônio Sales levou o sobrinho para ver a tarde passar pela Avenida Rio Branco. Foi quando lhe disse: menino, por aqui irão passar Rui Barbosa, Machado de Assis,
Santos Dumont, os grandes do nosso tempo. Nava, então, conclui o parágrafo dizendo: e eu vi Rui Barbosa, eu vi Machado de Assis, eu vi Santos Dumont. Pronto, tinha descoberto o mote de que precisava para escrever ao Dr. Pedro Nava.

Remeti para a Rua da Glória 190 um cartão breve, onde dizia ter um filho de 6 anos, idade dele naquela tarde. Pedia, portanto, que me indicasse um local por onde costumasse passar frequentemente. Queria levar o meu filho para que ele pudesse dizer um dia: eu vi Pedro Nava. A partir daí, uma porta, um portal, se abriu e o endereço
do meu amigo passou a ser um ponto de referência nas passagens de nossa família pelo Brasil.

Nos 8 anos que se sucederam, estive muito próximo do escritor. Pessoalmente, por carta, telefone e até em uma visita que o casal, Nieta e Nava, nos fez em Buenos Aires, onde estávamos vivendo. Na oportunidade, foi publicada a única tradução das obras de Nava de que tenho notícia – Poliedro traz um prefácio que preparei para a edição argentina e é um dos trabalhos dos que mais me orgulho em ter colaborado.

Por que toda essa memorabilia? Agora, volta ao mercado uma preciosa reedição das obras de Pedro Nava. Desde de que surgiu o primeiro volume em 1972, já se vão 40 anos. Há, portanto, uma geração de brasileiros que surgiu depois desse fenômeno editorial. Nava escreveu e começou a publicar suas memórias depois de completar 70 anos de idade. Antes, conseguiu (?) se conformar com a biografia de médico famoso, Professor Emérito de Reumatologia da Universidade do Brasil. Como cientista, escreveu e publicou mais de
100 títulos.

Nava teve um fim trágico: matou-se aos 81 anos. Para a motivação imediata do gesto, há uma série de versões. Para mim, que comungo da opinião de Manuel Bandeira, o suicídio é vocacional. No caso, o próprio Nava dá a chave. Ele disse, com uma pitada de humor, que o homem deveria ser eliminado ao completar 50 anos por uma questão de higiene pessoal…

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

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