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por Luiz Dolino*

No pano de fundo o fim do mundo previsto para dezembro deste ano. A milenar cultura Maia vem sendo responsabilizada pelo anúncio apocalíptico. E é também a razão pela qual, em vários pontos do planeta, se está pulverizando uma série de ocorrências com base na proclamada agenda terminal. Mas afinal, o que está por trás dessa ameaça?

Clicar na internet expressões como mundo Maia, termos como fim do mundo, cosmogonia Maia, significa receber na tela centenas de possibilidades de aproximação com tudo aquilo que se relaciona com o fenômeno com data precisa para acontecer – 21 de dezembro de 2012. Há até quem assegure o exato momento – 4.44 da manhã. No entanto, não fica claro a que ponto da Terra o horário se refere, pelo menos com relação a Greenwich. É de se supor que estamos falando da hora na Península do Iucatã, onde ainda vive o povo remanescente dessa civilização. As fabulações em torno do assunto são infinitas e, na medida em que o ano avança, um turbilhão de teorias procura explicar o terrível destino do homem, conseguindo – na verdade e na melhor das hipóteses – apenas confundir o pobre mortal.

Faz tempo que convivemos no Brasil com essa ameaça. Assis Valente registrou a tensão no samba E o mundo não se acabou, sucesso nacional imortalizado na voz de Marlene em 1938. O compositor é bem claro ao fazer a denúncia sobre o anúncio e garantia do fim do mundo. Ao que parece, o sambista se referia à memória que se conservava de outro grande susto: a passagem do cometa Halley em 1910. Na oportunidade, a conseqüência mais esperada era a hecatombe universal. E disso se falou por décadas. Para muitos foi também a explicação para a conflagração mundial a partir de 1914. A visão de Halley em 1986 nem comoveu tanto. Foi apenas uma luz esmirrada que brilhou por pouco tempo no céu. O bug do milênio trouxe nova apreensão em 1999, com o risco de danificar todos os sistemas informatizados justo na passagem para o ano 2000.

Entre um anúncio e outro, tudo garantido como dito por Assis Valente, a gente tem mais é que desfrutar – pegar na mão de quem não conhece, beijar na boca de quem não devia, seguindo, portanto, a receita do compositor. Outro dia, falando com um amigo espirituoso, mandei a queima-roupa: você está atento para o fato de o mundo estar por pouco? Como assim? Não sabe que o mundo se acaba em dezembro deste ano? É mesmo? Pois para mim, disse ele, acaba todo dia quando pego no sono. O que meu amigo não completou foi que, naturalmente, na manhã seguinte a vida retoma o seu curso. Assim, portanto, deveremos acordar no dia 22 de dezembro em um novo mundo, tão inédito quanto o do meu amigo.

Popol Vuh – livro sagrado dos Maias – sobreviveu à invasão dos bárbaros conquistadores espanhóis no século XVI. O longo poema é também conhecido como a Bíblia da América e entre os grandes que confessaram a sua influência na obra figuram Miguel Angel Astúrias, Alejo Carpentier e Jorge Luis Borges. Segundo a tradição, os nativos teriam escrito o poema com base na transcrição de relatos orais. No Brasil, ocorre um fato correlato ao que é descrito pelos Maias: Macunaíma se transforma na Ursa Maior tal como a dupla de personagens de Popol Vuh é transformada em estrela. A Guatemala hoje se orgulha desse texto fundador, considera-o como um documento capaz de humilhar o colonizador por demonstrar que ali prosperava uma cultura talvez mais rica e menos moralista que a europeia.

O assunto é sério e se recomenda cautela ao explorar todos os sinais, registros, crenças, teses e práticas populares que se agudizam em torno da perspectiva do fim. Nem tanto deboche como cantado pelo sambista, nem tanta circunspecção como querem estudiosos e acadêmicos. O ponto central da questão pode se traduzir em delicado esforço que nos permita um olhar mais atento para esse povo culto, sutil, criador e crente, que nos legou na América um patrimônio que continuará existindo muito além do fim do mundo.

 
*Luiz Dolino é artista plástico [ http://www.dolino.net/ ] e curador da exposição Rabin Ajaw, que poderá ser visitada no CCBB-Rio até 22 de julho de 2012. Depois no Museu Nacional em Brasília – 2 de agosto – e na Fundação Inimá de Paula em Belo Horizonte – a partir de 13 de setembro.

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