arquivo

Arquivo da tag: s. freud

Por Fátima Pinheiro.

Acossado pela perseguição nazista, Sigmund Freud deixa o apartamento da Bergasse 19, no nono distrito de Viena, e se muda para Londres. Antes da mudança da família Freud para Londres, o fotógrafo Edmund Engelman foi contratado para fotografar o apartamento e consultório da Bergasse 19, por sugestão de August Aichhorn. Apesar dos riscos para a execução deste trabalho, em função da ocupação nazista, as fotos foram feitas, e levadas a salvo para fora dos territórios ocupados.  Hoje as fotos se encontram expostas no mesmo endereço, no atual Museu Freud. Esse trabalho fotográfico é um registro detalhado do lugar onde nasceu a psicanálise, momentos antes do apartamento ter sido desmontado, e foi utilizado por Robert Longo (1953), artista americano para dar sustentação ao seu trabalho intitulado Ciclo Freud de 2000, apresentado na exposição The Freud Drawings em 2001. Este trabalho é constituído de 28 desenhos a carvão em uma grande escala e coloca em discussão, embora não pareça ser esta a questão principal veiculada pela obra, a trágica destruição impetrada pelo nazismo no século XX. Robert Longo, entretanto, não parece avançar por esse terreno, que pode resvalar para a via dos ideais, por mais que estas sejam relevantes à cultura. Longo marca no Ciclo Freud, ao contrário, o vazio como determinante em seu trabalho, demarcando sua afinidade com o real, e não com os ideais.

Longo revela em seu trabalho que há algo de inacessível no objeto de arte, e isso de acordo com Freud e Lacan, se deve ao registro da sublimação, como destino possível da pulsão, em que a Coisa estará sempre representada por um vazio. O lugar do vazio, na concepção freudiana, remete a ausência estrutural do objeto de satisfação, que é inaugural a toda subjetividade, uma vez que diz respeito ao sujeito, seu objeto e seu desejo.  Este objeto que nunca será reencontrado, mas que por sua ausência estrutura o sujeito, é a Coisa, das Ding, e será sempre representado por um vazio. Este objeto inapreensível desliza entre as palavras e as coisas, desmentindo a ilusão da correspondência entre elas, situando-se entre o real e o significante, como indica François Regnault em seu livro “El arte según Lacan” (1995). O que se observa na arte não é, portanto, algo da ordem de uma imagem revestida pelo sentido, mas aquilo que fora do sentido inscreve o vazio na obra.

Este aspecto ligado à imagem esvaziada de sentido foi determinante no Ciclo Freud. Desde o início da elaboração do trabalho em 1999, quando Longo conheceu o livro, trazido por um amigo francês, em Nova Yorque, ele foi tocado pelas sombras que se projetavam sobre os objetos. Ao tomar as fotografias da casa abandonada de Freud, Longo não utilizou as imagens de Engelman como ready-mades, no entanto a maneira que ele deu tratamento a essas imagens teve uma importância crucial no processo do trabalho. O caráter documental da fotografia desaparece dando lugar a cenários que materializam o tempo passado e o vazio da casa. Longo despreza de forma radical os objetos que povoavam a escrivaninha de Freud, como a coleção que se encontrava no tampo da mesa, e mostra a escrivaninha completamente vazia. Como observou Werner Spies, curador e professor alemão de história da arte, Longo simplesmente varreu os fragmentos arqueológicos e figuras antigas de Freud no desenho a carvão, tornando a imagem símbolo do vazio e do exílio. As imagens dos desenhos, em sua maioria, remetem a objetos ligados ao uso do corpo, e que se transformam em um corpo em si, como o travesseiro, o olho mágico da porta, a poltrona, a mesa com um jarro de flores, e especialmente a cadeira que foi desenhada por um arquiteto amigo da família Freud, e executada por um marceneiro para compor com a escrivaninha da sala de estudos de Freud. Este móvel, diferente dos outros da mobília da casa, foi desenhado para acolher com conforto quem ali se sentasse, e por esse motivo a sua forma é tão próxima de um corpo. E essa cadeira, talvez dentre todos os outros desenhos, seja o mais categórico, no aspecto da transformação em um corpo. Esse corpo que estende os braços para o vazio da escrivaninha é a evidência inquietante de que um corpo só é corpo se fizer contorno no vazio que o sustenta.

 

 

 

 

 

Veja os desenhos do Ciclo Freud em http://robertlongo.com/work/gallery/1073

Veja também: Revista Serrote/ Instituto Moreira Salles, número 8/ 2011.

(http://ims.uol.com.br/index.aspx?DID=730)

Anúncios

A psicose não desencadeada: um programa de investigação clínica

Dissertação de mestrado – UFRJ, 2008

Autor(a): Cristina Frederico

Orientador(a): Angélica Bastos

Esta dissertação investiga as psicoses não desencadeadas e, de acordo com a orientação lacaniana, visa situar os aspectos teóricos e clínicos que indicam a possibilidade de estabilização nesses casos. Procura demonstrar uma dimensão mais sutil das psicoses sem o caráter disruptivo do desencadeamento. O tema é abordado através de duas soluções encontradas pelos psicóticos: a compensação imaginária e a nomeação. A primeira é elaborada por Lacan nos anos 50, e a segunda – a nomeação – é encontrada nas últimas formulações de Lacan, sobretudo no seu seminário O sinthoma (1975-76), de onde se extrai uma clínica das suplências. Recentes formulações de autores lacanianos sobre o conceito de “psicose ordinária” também são discutidas. A prática analítica em duas instituições de saúde mental e a construção de um caso clínico permeiam a discussão. A investigação nos leva a valorizar a variedade e o aspecto singular das formas de organização produzidas pelos psicóticos para encontrarem um lugar no mundo.

A gula do supereu: imperativo de gozo e objeto voz

Dissertação de mestrado – UFRJ, 2007

Autor(a): Naiana Moura Lopes Cordeiro

Orientador(a): Angélica Bastos

A presente dissertação trata do conceito de supereu a partir de sua definição como uma das facetas do objeto a: a voz. Busca-se detectar as incidências clínicas e o destino do gozo no tratamento, através do percurso que vai da lei ao objeto a. Os guias desta pesquisa são a obra de Freud e o ensino de Lacan. A partir do conceito de narcisismo é traçada a distinção entre Ideal do eu e Supereu. Trabalha-se o mandato civilizacional que exige renúncia pulsional, e sua articulação com o recrudescimento superegóico. Para tanto, faz-se necessário abordar, em Lacan, a noção de lei, objetivando desmonstrar que o supereu distancia-se da lei reguladora e aproxima-se de uma lei insensata, não oposta ao gozo. Destaca-se que o supereu como objeto voz veicula um imperativo de gozo. Com a entrada na linguagem perde-se gozo, desta forma, aponta-se para a impossibilidade de se aceder ao gozo perdido, como exige o supereu. Tanto a recuperação de gozo pela via do objeto-mais-de-gozar, quanto a renúncia pulsional atendem ao apelo do supereu, aumentando sua força. Através de extratos de casos de nossa clínica, do humor e de dois relatos de passe, situa-se o destino do gozo do supereu na clínica, como perda de gozo. Conclui-se que a voz superegóica chama o sujeito a responder à sua convocação, caso contrário, se vive a injunção de gozo do lugar de objeto.

A transmissão da psicanálise às novas gerações

De Freud e Lacan, passando por Marx e pela especificidade com que se pode aplicar o termo “jovem” ao psicanalista, abordamos duas questões caras à psicanálise: tempo e transmissão. A partir da pergunta acerca da transmissão da psicanálise às novas gerações tivemos uma breve e interessante conversa com o psicanalista Romildo do Rêgo Barros, da Escola Brasileira de Psicanálise. Ao abordar esses temas, é o vigor e a duração da psicanálise que se encontram também em discussão.

O que pode atentar contra a psicanálise é uma modificação no real. Apareceria então, como conseqüência, algo melhor do que a psicanálise para dar conta do real. Um momento, por exemplo, em que os psicanalistas se vejam impotentes diante de novas formas sintomáticas. Enquanto os psicanalistas conseguirem dar respostas novas para as disfunções provocadas pelo real, não há nenhuma razão para que ela acabe. Ela vai acabar um dia, por que não, mas não acredito que seja depois de amanhã.

Leia a entrevista aqui.

%d blogueiros gostam disto: